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O segredo dos profissionais fora de série é superar a mediocridade

No mundo do trabalho, ser mais um na multidão, ou seja, estar na média não é suficiente para conseguir bons resultados. Cada vez mais recrutadores procuram candidatos originais e incomuns: são pessoas diferenciadas, que propõe soluções e estão dispostas a lutar para implementar mudanças que tragam impacto positivo e, assim, deixam uma marca favorável por onde passam

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postado em 16/07/2017 14:48 / atualizado em 17/07/2017 16:21

Que tipo de colaborador você é?

 

Lanna Silveira

Ser mais um na multidão — ou seja, estar na média — não basta para conseguir bons resultados. Cada vez mais recrutadores procuram candidatos fora de série: são pessoas originais e diferenciadas, que propõem soluções e estão dispostas a lutar para implementar mudanças que tragam impacto positivo e, assim, deixam uma marca favorável por onde passam 

 

Criativo, solucionador de problemas, proativo, autoavaliador, disciplinado, focado, capaz de se relacionar, cheio de atitude, propósito e paixão. É assim que o norte-americano Adam Grant (autor do livro Originais) e o brasileiro André Portes (que escreveu O profissional incomum) definem um profissional fora de série. Esse conjunto de características é valorizado por recrutadores mundo afora, como comprova a quinta edição do Barômetro de Inovação Global, da empresa de tecnologia GE (General Eletric). O estudo perguntou a empreendedores quais atributos eles procuram em um candidato ao considerá-lo para uma vaga. A maioria admitiu buscar profissionais com competência para resolver problemas (56%), criativos (54%), com habilidades analíticas (44%), que sabem se relacionar (43%) e sugerem revoluções em contraposição a modos de trabalho tradicionais (40%). A pesquisa foi feita com executivos seniores de 23 países engajados em ações estratégicas de inovação em negócios.

 

 

 

Para André Portes, administrador com MBA executivo em gestão empresarial estratégica de negócios pela Universidade de São Paulo (USP) e em marketing pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), não é de se estranhar que trabalhadores fora de série sejam altamente desejáveis pelas empresas. “O profissional incomum impacta qualquer lugar por onde passa por causa da qualidade do que entrega e da credibilidade que gera. É um apaixonado por resultados relevantes e vive por um propósito. Não é perfeito, mas trabalha sempre em busca da perfeição”, define ele, que cursa mestrado em gestão estratégica na UFRJ. O coach e consultor de carreira Emerson Weslei Dias acredita que trabalhadores com essas características se destacam por fugirem aos padrões e buscarem se aperfeiçoar. “A vontade de ser melhor permeia o caminho de quem se diferencia e faz com que a pessoa tenha qualidade e grau de entrega maiores que os das outras. Não se conquista isso de graça: é preciso um preparo constante”, diz.



Matt Albiani

 

 

Adam Grant, pesquisador de comportamento humano, garante que os colaboradores originais são aqueles que mudam o mundo. “Existem dois caminhos para a realização: conformismo e originalidade. Conformismo significa seguir a multidão, percorrendo os caminhos convencionais e mantendo o status quo. Originalidade é tomar o caminho menos trilhado, defendendo um conjunto de ideias novas que contrariam o pensamento corrente, mas que, no fim, resultam em algo melhor”, descreve no livro Originais. Renunciar ao usual é o melhor amigo do ineditismo. “O que distingue a originalidade e a rejeição do que é convencional é a investigação sobre a existência de opções melhores”, completa. “Quando nos tornamos curiosos em relação às convenções insatisfatórias do mundo, começamos a reconhecer que a maioria delas têm origens sociais. As regras e os sistemas são criados por pessoas. E essa consciência nos dá a coragem de refletir sobre como podemos mudá-las”, define.

"Existem dois caminhos para a realização: conformismo e originalidade. Conformismo significa seguir a multidão. Originalidade é tomar o caminho menos trilhado, defendendo um conjunto de ideias novas que contrariam o pensamento corrente, mas que, no fim, resultam em algo melhor”

Adam Grant, doutor em psicologia organizacional pela Universidade de Michigan e bacharel pela Universidade Harvard, professor da Wharton School

 

 

Trabalhadores diferentões 1

 

Em busca do melhor

 

 

Lanna Silveira

“Questione. Se processos e modos de trabalho não estão muito bons, por que não mudar?” A pergunta de Anna Luiza Maximo, 35 anos, traduz o estilo inovador da bancária da Caixa Econômica Federal. Matemática pela Universidade Federal de Goiás (UFG), ela ingressou no banco em 2005 e sempre teve o objetivo de atender melhor a população. “Não fiz o concurso para ter segurança ou estabilidade. Fiz por acreditar no serviço prestado aos brasileiros. O serviço público tem um grande impacto para a sociedade, desde que seja feito com propósitos”, diz a pós-graduada em gestão de negócios pelo Ibmec. Quando se tornou gerente, começou a mudar métodos e provocou mudanças no ambiente corporativo para melhorar a qualidade da equipe, em vez de focar apenas em bater metas. “Meu interesse sempre foi cuidar das pessoas para que elas tivessem boas condições de atender o cliente. Então, criei um momento de conversa, em que o time falava e expressava sentimentos”, lembra. Além disso, Anna incentivava os funcionários a entenderem o propósito do banco.

Desafiar regras existentes também fez parte da caminhada da bancária. Na matriz da Caixa, trabalhou por cinco anos na área de atendimento de pessoa jurídica como consultora. Quando ingressou no setor, pensou em como poderia melhorar a qualidade do serviço prestado e a jornada de trabalho dos colegas. Diante disso, começou a ser o suporte dos gerentes, assistentes e técnicos, disponível para tirar dúvidas, dar informações, ferramentas e estratégias de atendimento. “O protocolo da empresa diz que o gerente deve pedir ajuda e informações por e-mail. Mas eu me recusava a exigir a burocracia do processo e atendia por telefone mesmo. Se sei que alguém está em apuros, por que não dar suporte na hora? Executar um bom serviço deve falar mais alto que as normas”, defende. No entanto, nem sempre isso foi bem-visto. “Minha gestora não tinha a mesma visão que eu, ou seja, de que os resultados financeiros são consequência do bom atendimento. Por isso, eu tinha o desejo de mudar de área”, conta.

“Tem que ter este movimento: se o local não está bacana para você, às vezes é hora de ir para outro. Sempre fomento isso nas pessoas: você não precisa replicar aquilo em que não acredita”, pontua. Com tanta vontade de fazer diferente e por causa dos relacionamentos, não demorou para que Anna fosse indicada para trabalhar na Gerência Nacional de Inovação (Genov) do banco, onde ela teve a chance de colocar em prática o que acreditava, como coordenadora de projetos. Lá, ministrou cursos e palestras e trabalhou em duas edições do Laboratório de Ideias #CaixaLab, concurso anual que incentiva os bancários a darem sugestões de mudanças para a Caixa. “Nosso setor despertou nas pessoas o interesse de se movimentar, ter voz e inovar. A proposta é: se você tem uma ideia, não espere pelos outros, seja proativo. Se vê algum problema, seja a resposta para ele”, afirma. O segredo para propor boas soluções nos ambientes pelos quais passou também tem a ver com a busca por capacitação. “Fiz vários cursos presenciais e on-line de criatividade e inovação. Quando você estuda, tem repertório para ser mais eficaz nas ações. Para mim, aprender é um vício”, exclama.  Anna fez cursos livres em design thinking, empreendedorismo criativo, reaprendizagem criativa e business design.

Os últimos dois anos foram de mudança para Anna. Ela decidiu se aventurar no mercado privado com as amigas Sara Vieira e Bruna Lima. Juntas, criaram a SAB, empresa de consultoria em inovação. Com o envolvimento no empreendimento, Anna pediu licença não remunerada para se dedicar à SAB. “É basicamente o que eu fazia na Caixa, mas, agora, em outros lugares. Nosso objetivo é facilitar processos de inovação, pensar novas maneiras de fazer algo, incentivar a proatividade e mostrar métodos e ferramentas”, conta. Entre os clientes atendidos pelo trio estão a Secretaria Especial da Micro e Pequena Empresa (Sempe) e a Escola Nacional de Administração Pública (Enap). A dica dela para quem deseja se tornar um profissional fora de série é: “onde estiver, seja agente de transformação, mude a realidade”.

 

Leia

 

 

Best Business/Reprodução
O profissional incomum — como pensa e age um profissional de excelência
Autor: André Portes
Editora: Best Business
256 páginas; R$ 29,90

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sextante/Reprodução
Originais — como os inconformistas mudam o mundo
Autor: Adam Grant
Editora: Sextante
272 páginas; R$ 39,90

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A receita da excelência no mundo corporativo

 

Outros ingredientes importantes para se destacar no mercado de trabalho são uma marca forte, atitude, propósito e paixão. Especializar-se no seu nicho de atuação também é fundamental 

 

 

Grupo Editorial Record
 

 

"O profissional incomum impacta qualquer lugar por onde passa por causa da qualidade do que entrega e da credibilidade que gera. É um apaixonado por resultados relevantes e vive por um propósito. Não é perfeito, mas trabalha sempre em busca da perfeição”
André Portes, administrador e mestrando em gestão estratégica, CEO de uma rede de supermercados

Além de se opor ao tradicional e buscar a excelência, um profissional diferenciado é aquele que deixa uma boa impressão por onde passa. “Todo mundo tem uma marca. Você pode facilmente definir como são aqueles com quem convive porque sabe como se comportam.”, diz André Portes, CEO do MultiMarket, rede com 70 supermercados no Rio de Janeiro. “Você já parou para pensar se sua marca é boa? A do profissional incomum é excelente”, completa. O autor cita algumas personalidades que impactaram o mundo, como Jesus Cristo, Martin Luther King, Nelson Mandela, Hitler, Saddam Hussein e Augusto Pinocht. Os três primeiros são lembrados pela influência positiva que exerceram, enquanto os três últimos deixaram um rastro devastadoramente negativo. “O que você lembra ao pensar neles é o impacto que deixaram em você. No universo corporativo, para a marca de uma pessoa ser boa, é preciso qualidade e credibilidade”, pontua André.

Quero ser excelente

Durante a leitura deste texto, você deve ter se perguntado se você é um profissional comum ou incomum. A sua percepção e a de colegas e chefes podem ajudá-lo a achar essa resposta. Caso perceba que precisa mudar, não se desespere: nunca é tarde para se tornar um trabalhador acima da média. “Inovação e criatividade são características que todo mundo tem, basta desenvolver. Um exemplo para testificar isso é: todos resolvem problemas e esse é o maior exercício criativo do ser humano”, comenta o coach de carreira Emerson Weslei. A saída é procurar capacitação na sua área. “Todo mundo quer o Neymar no time, pelo fato de ele ser um bom atacante. Mas se você tirá-lo dessa posição e colocá-lo como goleiro, a performance cairá. O profissional precisa se aperfeiçoar no ramo em que está, se tornar o melhor no que faz”, pontua Emerson. No trajeto em busca da excelência, não há espaço para preguiça. “É preciso aprender com profundidade, não ser leitor de primeira página”, defende.

Além de conhecimentos técnicos, é importante identificar nomes que fizeram história na profissão para se inspirar. “Se você quer ser um vendedor fora de série, é preciso saber quem foram os melhores vendedores da história, conhecer alguns pessoalmente. Dessa forma, poderá atingir uma performance melhor e terá autoridade no assunto à medida que adquire profundidade nele”, diz. Depois de se aprofundar na sua área, vale a pena se tornar expert na organização em que atua. “Conheça a empresa, o cliente, o público-alvo, os produtos, fundamentos, estratégias e objetivos de maneira intensa; além de entender a concorrência”, observa André Portes. Ele ainda chama a atenção para outra característica essencial para ser um profissional fora de série: paixão.

 

"Nunca é tarde para se tornar um trabalhador acima da média. Inovação e criatividade são características que todo mundo tem, basta desenvolver. Um exemplo para testificar isso é: todos resolvem problemas e esse é o maior exercício criativo do ser humano"
Emerson Weslei Dias, coach, consultor de carreira e diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac),

 

 

Notícias do Mercado
 

 


“Ela é o combustível mais poderoso para gerar motivação. O apaixonado vai mais longe. As forças e os desejos dele são sempre renovados e realimentados. Ele é um eterno empolgado.” Gostar do que faz ajuda a pessoa a ter foco e determinação mesmo em meio a ambientes e situações desfavoráveis. “A carreira de um profissional é desejo, alimento e conforto. Não importa quem está ao seu lado, se são pessoas sem caráter, maldosas, maravilhosas ou especiais. Não é o outro que decide sua paixão”, afirma. “Um profissional apaixonado direciona a própria vida, percebe o que ninguém percebe e acredita no que os outros não acreditam. As circunstâncias não o desmotivam, ele é um realista cheio de otimismo”, conclui.

Equilíbrio dos riscos

Desafiar o convencional e assumir riscos são atitudes essenciais para quem quer seguir um caminho inovador na carreira. Porém, não é efetivo se rebelar contra tudo: é preciso ter um motivo sólido e, então, definir como agir para alcançar o objetivo de mudança. Adam Grant cita a história de Jackie Robinson como exemplo. Ele foi o primeiro negro a jogar beisebol profissionalmente; e quando era tenente do exército norte-americano se recusou a sentar-se na parte traseira de um ônibus durante o apartheid. A ação não foi pautada pelas consequências que viriam, mas sim por quem ele era e no que acreditava.

“Muitos de nós seguimos uma lógica de consequência ao tomar decisões: qual ação produzirá o melhor resultado? Mas se você for como Robinson e desafiar constantemente o status quo, seu modo de agir é diferente, baseado em uma lógica de adequação: o que uma pessoa como eu faz em uma situação como esta?”, analisa. Pessoas como Robinson procuram respostas em si mesmas. “Em vez de olhar para frente tentando prever o resultado, você se volta para dentro, em busca de sua identidade. Assim baseia sua decisão em quem você é — ou em quem quer ser.” A lógica da consequência amedronta por apontar grandes riscos nas decisões, mas a lógica da adequação liberta, porque os riscos não importam tanto se te farão chegar onde almeja.

Em ação

Um bom profissional incomum entende que um caráter inovador precisa ser abastecido por atitudes; caso contrário, não passará de teoria. Para isso, é preciso somar crença, conhecimento e habilidade. “Só tenho atitude quando acredito que posso e sou capaz. Quando não acredito, o medo é autorizado a me dominar, minhas forças são canceladas, minha mente impede que eu prossiga e minha confiança morre”, diz Adam Grant. “Além disso, é necessário estar capacitado para avançar e inovar. Tais fatos só ocorrem com conhecimento e habilidade. Vontade e interesse são desejos louváveis, mas não garantem a solução de um problema”, conclui André Portes.

 

Trabalhadores diferentões 2

 

Mestre das soluções

 

Lanna Silveira

Servidor do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) desde 2008, Álvaro Pinheiro, 27 anos, tem como marca registrada a proatividade. O brasiliense criou diversas ações que reduziram o tempo e o dinheiro gastos pelo órgão e, hoje, trabalha mapeando custos de contratos para propor melhoria. “A base para propor soluções é não se conformar com as coisas como elas são. Desde que comecei a trabalhar, observo o ambiente para ver como e o que pode ser melhorado”, afirma. Além da criatividade, a busca por conhecimento é outro traço dele, que é engenheiro mecânico pela Universidade de Brasília (UnB). “Durante a faculdade, participei de cursos e palestras, me esforcei na área acadêmica, mesmo sabendo que não era para mim, e tenho artigos publicados. Hoje, continuo fazendo cursos a distância. Fiz um sobre inteligência artificial, por exemplo. É preciso se alinhar ao que está ocorrendo; caso contrário, não há como viver a inovação”, afirma. Para completar a receita que o torna reconhecido como profissional, entra em campo a seriedade e a busca por qualidade.

“Meus pais sempre me cobraram, no sentido de fazer tudo bem-feito. Isso me incentivou, mas foi a proatividade que me ajudou a continuar assim quando adulto”, conta. Álvaro descobriu, em uma atividade cotidiana no setor de engenharia do órgão — para o qual foi transferido em 2014 após voltar de uma temporada de cursos livres de economia, empreendedorismo e engenharia na Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA) —, uma forma de melhorar licitações feitas por órgãos públicos. “Trabalhei com a compra de aparelhos de ar-condicionado. Para isso, estudei a legislação e percebi que era possível reduzir o tempo do processo”, diz. A partir disso, percebeu que poderia ajudar outras instituições, além do TJDFT. “Busquei fazer a diferença onde estou e acabei por empreender”, resume. A iniciativa virou um software, que ganhou forma após conversas com Tales Gontyjo, mestre em negócios pela Universidade Internacional da Flórida, que se tornou sócio dele.

“Trocamos ideias, então criamos O Sonar”, rememora. O software agiliza contratações governamentais e reúne fornecedores (de DF, SP e RS) e mais de 100 órgãos públicos. “Conseguimos reduzir o que era feito em seis meses para um mês”, comemora Álvaro. A ideia foi reconhecida ao ser selecionada para o programa de aceleração para negócios inovadores InovAtiva, promovido pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) e pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). “Tivemos contato com empreendedores, treinamentos e mentoria. Foi uma injeção de ânimo ver tanta gente boa junto e colocando a mão na massa”, diz. “Ter uma ideia empreendedora é muito fácil, todos têm, o difícil é colocá-la em execução. O programa trouxe o suporte com metodologia para capacitar e orientar de forma a realizar ideias”, diz. (TS)

 

 

 

 
* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa