Perfis de sucesso

Há 15 anos, a Associação Mãos que Criam gera renda na Estrutural

Organização de costureiras conta com 280 associadas. União, carinho, respeito e comprometimento ajudaram o projeto a dar certo

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postado em 16/07/2017 15:56 / atualizado em 17/07/2017 16:17

 

 

União das costureiras

Num galpão na Vila Estrutural, mãos habilidosas comandam máquinas de costura para produzir camisetas, uniformes, jalecos, mochilas, necessaires, colchas, bandanas, bolsas, tapetes, e caminhas para animais de estimação. Soma-se a esse trabalho o esforço de tantas outras que preferem costurar de casa mesmo. A seriedade, o comprometimento e a técnica não deixam a desejar em comparação a empregados de uma indústria têxtil, mas o local funciona de modo distinto: trata-se de uma entidade sem fins lucrativos cujo objetivo é beneficiar as 280 associadas que formam a Associação Mãos que Criam. “Chegamos a pegar encomendas para produzir 8 mil, 10 mil ou até 15 mil peças de uma vez. Cada costureira assina um contrato se responsabilizando pelo material e se comprometendo a entregar os produtos”, explica a presidente da associação, Marlene Leal, 55 anos. Depois, a associação verifica cada unidade feita para garantir a qualidade.



Lanna Silveira

Os custos administrativos da associação são pagos por meio de uma pequena taxa cobrada sobre cada peça. No início, o grupo era mais focado em artesanato feito a partir de materiais reciclados, mas, hoje, está centrado na confecção, na reforma e no reaproveitamento de vestuário, sem perder o pilar de sustentabilidade. “Reciclamos qualquer tipo de peça. Por exemplo, se uma bolsa ou roupa está danificada, dá para pegar dela os botões o zíper. Também produzimos muito com retalhos doados”, conta. Frequentemente, a associação promove bazares em que cada associada pode trocar ou vender as próprias peças. Os rendimentos de cada participante variam conforme a produção. “Tem costureira que tira até R$ 1.000 por mês, mas são poucas. A maior parte ganha entre R$ 400 e R$ 500 a cada 20 ou 30 dias”, revela.

 

Ultimamente, com a crise econômica e política, a quantidade de encomendas tem diminuído. “Com a produção mais lenta, elas tiram um pouquinho aqui e ali. Às vezes, R$ 100 ou R$ 200 por semana”, explica. De acordo com a presidente, a maior parte das associadas não conta com outra fonte de renda além da participação no projeto. “Em geral, elas se sustentam com o que tiram aqui. Em muitos casos, o filho ou o marido está preso, desempregado ou é alcoólatra. Como costumo dizer, as mulheres da Estrutural não vivem, sobrevivem. A associação é extremamente positiva para ajudar nesse cenário”, completa Nayara Mendes, 29, graduada em serviço social e voluntária que cuida da parte administrativa da entidade. “Mas, quando precisa, pulo para a máquina de costura”, explica. Por morar na região, esteve envolvida com a entidade desde o início.

 

Origem

O projeto nasceu há 15 anos, quando moradoras da Estrutural uniram esforços para garantir o sustento das famílias, sob a liderança da fundadora Sonia Mendes. “A comunidade percebeu que não existiam oportunidades lá fora e as mulheres decidiram que precisavam fazer algo para conseguir renda aqui de dentro”, conta Nayara. “Quem vive aqui sofre discriminação no mercado de trabalho. Se a pessoa diz que mora na Estrutural, os outros olham torto e a descartam da seleção. Ainda existe muita associação com lixão, pobreza, analfabetismo”, relata.

Lanna Silveira

Entre os momentos marcantes da história da Mãos que Criam, Nayara cita a visita da princesa Máxima Zoguerrieta, da Holanda, em 2005, o que atraiu visibilidade e apoio ao projeto. Outra conquista foi a de um terreno próprio, cedido durante o governo Arruda. O fato de ter sido a única entidade do Centro-Oeste selecioanda pela Petrobras para um projeto de fomento também foi importante. “A iniciativa ofereceu cursos de corte e costura e ajudou com a compra de maquinário”, lembra. No entanto, os escândalos envolvendo a estatal acabaram prejudicando o trabalho. “A parceria tinha sido renovada, mas, em 2013, com as investigações e essa confusão toda, todos os projetos foram suspensos e todos os nossos patrocinadores desapareceram”, conta Nayara. “O grande problema é que os projetos de apoio não têm continuidade.”

Desafios

Entre as dificuldades da organização, além da carência de apoio — hoje, a associação só conta com um patrocinador e uma parceria com o programa Mesa Brasil do Sesc (Serviço Social do Comércio), que fornece alimentos para café da manhã, lanche e almoço na associação —, está a profissionalização e a conquista de mais clientes. “Queremos ter mais trabalho para ajudar mais pessoas. Pegamos encomendas com preço pequeno, mesmo assim, tem sido difícil. O desejo é de o que o mercado nos reconheça como fábrica e prestadora de serviço”, almeja Marlene. “É um trabalho que não pode parar, o sonho é conseguir ampliar e continuar fazendo diferença na comunidade”, acrescenta Nayara.

Fórmula ganhadora

“O que faz a associação dar certo durante todo esse tempo é o carinho e a união internamente. Também conta o fato de as mulheres não pagarem nada para estar ali e receberem amparo, o que faz com que entendam aquele espaço como delas”, observa Marlene. “Por fim, muitas veem na associação um refúgio dos problemas que sofrem em casa, como violência doméstica.” Para funcionar a contento, a direção pede organização e limpeza das estações de trabalho e, claro, que elas mantenham um clima de amizade e respeito. “Não temos credo ou partido político. Todo mundo é igual lá dentro e aprendemos umas com as outras”, garante ela, que começou a costurar aos 16 anos. Mãe de uma moça de 28 e de um rapaz de 29 anos, ela integra a associação há cinco anos e, antes disso, trabalhou no comércio e numa lavanderia que também fazia reparos em roupas.

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Acesse ou ligue 3465-5764 / 9-9253-7628 / 9-8604-4916