PERFIS DE SUCESSO - JOSé CíCERO BATISTA DE SOUSA »

Sapateiro de 91 anos trabalha no Setor Comercial Sul há quatro décadas

Por 20 anos, o piauiense foi empregado de uma fábrica de sapatos na terra natal

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postado em 30/07/2017 15:32 / atualizado em 30/07/2017 15:59

 

 

Martelo, alicate, lima, agulha, faca, lixas, linha, borrachas, pregos, taxas, cola… São todos instrumentos de trabalho manuseados pelas mãos treinadas de José Cícero Batista de Sousa. “Faço qualquer conserto que o sapato precisar”, garante. Experiência ele tem de sobra: são mais de 40 anos trabalhando como sapateiro em Brasília. Questionado sobre o que gosta na atividade, não tem dúvidas ao responder: “tudo!” Ele preenche o tempo entre conversas com clientes e a incessante busca pelo melhor jeito de reformar cada calçado. O piauiense faz do Setor Comercial Sul (SCS) seu escritório. A rotina é a mesma há muitos anos: acordar cedo, sair de casa em Águas Lindas (GO) e pegar um ônibus em direção à Rodoviária do Plano Piloto. São cerca de 55km de percurso e mais de uma hora dentro do coletivo.


A pé, vai até a Quadra 2 do SCS; mais especificamente, a garagem do Edifício Oscar Niemeyer, onde guarda o carrinho que usa para trabalhar, com autorização da administração predial. “Assim, fico tranquilo, graças a Deus”, relata. Depois, precisa dar uma volta na quadra empurrando os apetrechos até chegar ao ponto dele, no edifício Presidente Dutra. É lá, numa espécie de esquina entre o Sesc (Serviço Social do Comércio) e a Fundação Cultural Palmares, que José Cícero estaciona o carrinho e coloca as mãos à obra. Quietinho, sentado, recebe os pedidos dos clientes que passam por ali: consertar sola, trocar salto, colar ou costurar partes de calçados, bolsas ou cintos. Os serviços não têm preço fixo, cada orçamento é feito na hora. Por volta das 16h, o sapateiro começa a arrumar as ferramentas para voltar para casa.

 

 

Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press

 

 

A lida diária não é fácil — carregando peso e mexendo com equipamentos cortantes —, por isso não há quem não se espante quando José Cícero revela a idade: são 91 anos. A saúde está 100%: “não tenho nada”. Dia, mês e ano do aniversário dele levam o número 6: o autônomo nasceu em 26 de junho de 1926, ainda durante a República Velha. As marcas no rosto e nas mãos do nonagenário guardam muitas histórias. Ele está aposentado há muitos anos, mas nem cogita deixar a atividade, que serve como complemento de renda. “Deus ajuda quem trabalha”, defende. Questionado sobre se pensa em deixar a labuta, rebate: “para quê?” Seu José tem uma família numerosa: oito filhos e seis filhas. De netos, bisnetos e tataranetos perdeu os cálculos. “Nem consigo contar, mas é um bocado.”

 

A infância do sapateiro também foi marcada por casa cheia: ele é o segundo de sete irmãos. Depois que a mãe dele morreu, o pai se casou novamente e teve mais 15 filhos. “A minha irmã mais velha mora no Gama e tem 96 anos”, diz. A primeira esposa dele morreu em 2001. “Perdi a mãe da turma em 22 de janeiro de 2001”, conta. Com a segunda mulher, que tem 54 anos, não teve filhos e está há 16 anos. “Ela era vendedora de camelô e nos conhecemos aqui”, recorda. Em Águas Lindas, mora com ela e o enteado. “É uma cidadezinha boa. Antes de lá, morei em Ceilândia. Tenho uma casa no P Sul e minha filha mora nela.”

 

 

Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press

 

 

Êxodo
Antes de fixar raízes na capital federal, seu José passou por outra mudança. “Saí de Parnaíba e fui para Chapadinha das Mulatas, no Maranhão, onde passei 16 anos”, rememora. A mudança para o Centro-Oeste teve motivação familiar. “Eu tinha muitos irmãos aqui — tinha não, ainda tenho: são quatro, os outros morreram. Meu filho queria porque queria conhecer Brasília e resolvi vir mais ele.” Desde então, nunca mais foram embora. A escolha do ponto no Setor Comercial Sul não foi aleatória: uma irmã dele trabalhava na Telebrasília, num prédio em frente, que hoje é da Oi. “Ela arranjou um serviço de limpeza para mim lá, logo que cheguei, que começava às 18h. Aí, de manhã, eu vinha para cá trabalhar com sapato — fiquei num e noutro sete anos. Depois que saí, virei só sapateiro”, recorda.

 

Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press
 


Foi na cidade natal que José aprendeu os segredos do mundo dos sapatos com a ajuda de um cunhado. “Em Parnaíba, trabalhei mais de 20 anos com sapato, mas era fabricando, em indústria de calçado”, lembra. “Quando cheguei a Brasília, não encontrei indústrias: aqui tem muita loja, mas os sapatos vêm todos de fora. Aí, vi uns caras consertando calçado, no meio da rua”, conta. Foi assim que ele teve a ideia de passar a fazer o mesmo. Antes de se tornar sapateiro, ele trabalhou em embarcações. “Meu pai era madeireiro e eu o acompanhava, vendendo madeira para as indústrias pelo rio”, conta. “No Maranhão, trabalhei na roça, plantando arroz, feijão, milho, melancia”, rememora.

 

Lanna Silveira/Esp. CB/D.A Press
 

 

Clientela
Seu José compra os materiais necessários para o serviço em Taguatinga e outras localidades e não calcula quanto obtém de gasto e de lucro. A boa notícia é que nunca falta serviço. “Conserto muitos, depende do dia. Às vezes, chego a atender 20 ou até 30 clientes. Outros levam logo, outros buscam depois”, conta. Fidelizar o público, para ele, não é mistério: “eu faço o que é para fazer, eles vão gostando e voltam”. A clientela é variada. “Todo mundo tem sapato velho e desmantelado para arrumar; aqui vem gente de tudo quanto é lugar. O povo me procura todo dia, toda hora”, percebe. No entanto, ele nota que muita gente prefere comprar algo novo.


O cliente Valdir Pires, 61, também faz essa observação. “Só trago para consertar sapatos bons. Se for algo barato, não vale a pena.” O economista é só elogios para o desempenho de José Cícero. “Ele faz tudo direitinho”, comenta. Outra cliente, Caroline Venancio, 40, trabalha na parte administrativa do Sesc há 18 anos e sempre observa o esforço do sapateiro. “Sempre o vejo carregando aquele carrinho pesado, até na chuva. Às vezes, pergunto se ele quer ajuda, mas ele não aceita. E não falta um dia sequer: está sempre aqui”, conta. “Ele é uma gracinha e o trabalho, muito benfeito.”