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Aberto há 18 anos, Museu dos Pisos e Azulejos guarda reliquias na 507 Sul

Aos 85 anos, pioneiro de Brasília e dono da loja se esforça para recuperar cerâmicas até da época da construção da capital. O trabalho prejudica a saúde, mas ele faz questão de se dedicar para atender os pedidos da clientela

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postado em 06/08/2017 13:34 / atualizado em 06/08/2017 13:38

 

 

Na W3 Sul, o Museu dos Pisos e Azulejos se tornou atração, inclusive turística. Muita gente entra curiosa para conferir as peças de cerâmica e levar um exemplar raro contido no estoque do proprietário, José Cardoso, 85 anos. Ele conta com a ajuda da companheira Josefina Emiliana de Jesus, 76, da filha Rosilene Emiliana Cardoso, 51, e do funcionário Marcelo Custódio, 36, para tocar o negócio, fundado há 18 anos na 507 Sul. Lá dentro, há prateleiras abarrotadas de materiais dos mais diversos modelos, tamanhos e idades. Alguns chamam a atenção pela autoria: são originais de Athos Bulcão, Roberto Burle Marx, Francisco Brennand, entre outros. A maior parte do estoque do Museu dos Pisos e Azulejos é usada.


Os itens são provenientes de reformas, demolições ou pontas de estoque. “Os proprietários de uma lanchonete da Asa Norte retiraram azulejos de Athos Bulcão e nos procuraram para vendê-los”, exemplifica Rosilene, que faz mosaicos de cerâmica que estampam quadros, mesas e outros objetos à venda na loja. Em outras vezes, seu José sai buscando por aí. “Procuro até em contêiner de obra. É por isso que temos coisa até da época da construção de Brasília”, explica. Foi naquele tempo que ele e Josefina vieram parar em terras candangas. Os dois são pioneiros: chegaram aqui em 11 de novembro de 1957.


Bárbara Cabral /Esp. CB/D.A Press

“Viemos para cá tentar a vida”, explica a mulher, natural de Catalão. Foi nessa cidade goiana, durante uma festa, que ela e José se conheceram e passaram a viver juntos. Seu José, que é mineiro, tinha ido para lá como feirante e, antes disso, vendeu roupas em Goiânia e São Paulo. Hoje, os dois têm cinco filhos, 11 netos e três bisnetos. No DF, seu José foi carpinteiro em obras da construção de Brasília, dono de um restaurante na Vila Amaury (hoje, submersa no Lago Paranoá) e de uma camisaria no Núcleo Bandeirante até começar a vender roupas na Feira do Guará. Com o tempo, porém, seu José, que foi presidente do Sindicato dos Feirantes do DF, enjoou do ramo. Ele estava à procura de algo novo quando um genro e uma filha começaram a trabalhar com azulejos e o convidaram para mexer com isso também.

 

O acervo (com azulejos, porcelanatos, pastilhas, tacos e ladrilhos) é muito grande, nem chega a caber todo na loja: a família guarda o restante num depósito num sítio. “Não tem uma estatística do que a gente tem aqui”, revela José. “Os preços variam de R$ 3 a R$ 30 por peça”, informa Josefina. Um dos pontos fortes da empresa é a dedicação da equipe para atender os desejos da clientela. “Boa parte das pessoas vêm atrás de peças de reposição porque um azulejo se quebrou. Se não temos no estoque, vamos atrás no país todo para conseguir”, garante Rosilene. Como boa parte dos pisos são usados, chegam com massa de cimento por trás. Para deixá-los prontos para a venda, como novos, entra em ação um trabalho manual feito por José: retirar o cimento, usando esmeril ou espátula.


Bárbara Cabral /Esp. CB/D.A Press

 

“Gosto de fazer esse serviço. Às vezes, gasto uma hora para limpar apenas um azulejo. É oneroso, mas faço isso porque sei que são peças que não se encontram facilmente e podem ter valor sentimental. Já teve ocasião de o cliente pegar o azulejo e ficar emocionado, quase chorar, porque encontrou”, relata José. No entanto, o trabalho que agrada tanto a clientela tem um preço para a saúde do empresário. “Limpando as peças, sai um pó que acaba com o pulmão da gente. Estou vivo ainda à base de Deus e do doutor Jeferson, do Hospital de Base, onde faço tratamento”, conta. A falta de estudo foi compensada com conhecimento de vida. “Fiz um primário na raça, mas a experiência faz a gente ter desenvoltura maior do que a de muitos formados. Os jovens de hoje, para qualquer coisa, dizem que estão cansados. Eu não quero parar — afinal, quem é que não precisa trabalhar?”, questiona. José é assinante do Correio, está sempre de olho nas notícias e tem comentário para tudo. Com relação à crise política do país, decreta: “falta seriedade”.

Fase delicada
Segundo seu José, a fórmula que garantiu a continuidade do negócio por 18 anos está no prazer de trabalhar. “Tudo que a gente faz querendo faz com gosto e direito. Se não quer e não gosta, nunca vai dar certo. Ninguém faz nada bem com má vontade”, percebe. “O segredo no comércio é a seriedade, tratar a clientela e a sociedade com respeito.” A quantidade diária de clientes varia bastante e chega a até 20. “O movimento tem dia que é bom e tem dia que é muito fraco. Antes, a W3 era melhor e mais movimentada — a crise tem afetado isso. Muitos dos nossos clientes são antigos; além disso, muitos pedreiros e decoradores nos procuram”, relata Josefina. Ao redor do Museu dos Pisos e Azulejos na W3, muitas lojas fecharam as portas. Esse foi o argumento que José encontrou para convencer o proprietário do prédio a baixar o aluguel em R$ 1.000.