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Pintoras de obra começam a se tornar mais comuns na construção civil

Apesar de serem minoria no setor, as mulheres têm se destacado cada vez mais nesse mercado, principalmente entre funções de acabamento (como aplicação de rejunte e pintura), onde se dão bem por serem mais detalhistas e cuidadosas. Entenda o contexto e as dificuldades que as trabalhadoras enfrentam na área

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postado em 27/08/2017 13:40 / atualizado em 27/08/2017 14:21

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 

Os ambientes de trabalho da construção civil ainda são majoritariamente masculinos, mas gradativamente esse mercado têm ganhado um toque feminino. Aplicadoras de rejunte em cerâmica e, ultimamente, pintoras se tornam figuras comuns em canteiros de obras, segundo Milton Alves de Oliveira, secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Brasília (STICMB). “Aqui esse movimento começou, mas é tímido. A mulher ainda trabalha mais na parte de limpeza”, destaca. No entanto, isso tende a mudar, pois Milton observa que muitas empresas se interessam pelo trabalho feminino porque, geralmente, as trabalhadoras são mais cuidadosas — característica essencial em funções de acabamento. “Diferentemente dos homens, elas atuam com mais delicadeza, o que gera interesse dos empregadores. Existe espaço, o que falta é incentivo do governo para capacitar mulheres”, diz.


Francisca da Conceição, 36 anos, trabalha como pintora de obras há dois anos. “Como empregada doméstica, meu salário era muito baixo; o trabalho em construções é mais recompensador”, conta. Francisca adquiriu as habilidades necessárias com a ajuda do pai, pedreiro. Mais tarde, fez um curso no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Sobre os desafios enfrentados, desabafa: “o problema é que as pessoas acham que a gente não dá conta por ser mulher, um pensamento machista”. Por causa disso, Francisca tem trabalhado apenas como autônoma. “Nunca consegui ser contratada por uma empresa”, diz. A parte boa é que não falta serviço.

Impedimentos
Na visão de Milton Alves de Oliveira do STICMB, o preconceito não é um problema que as mulheres precisam enfrentar ao trabalhar na construção civil, mas o assédio, sim. “Em todo lugar em que a maior parte da equipe é masculina, é preciso ter mais cuidado para evitar isso. A gente sempre recomenda que as empresas criem condições para as profissionais trabalharem”, diz. A professora do curso técnico em edificações do Instituto Federal de Brasília (IFB) Renata Moreira de Sá e Silva destaca que o medo de ser assediada moral ou sexualmente afasta mulheres dos canteiros. “É como se fosse uma cadeia: por mais que você esteja bem vestida, é vista como objeto sexual, então acaba sendo perigoso”, avisa. A questão afeta a oferta de vagas: por precaução, não é raro que as empresas tomem medidas restritivas e deixem de contratar trabalhadoras. “Em obras mais afastadas, em que os homens ficam mais reclusos, as mulheres não entram.”


Por isso, não é de se estranhar que esse setor ainda seja dominado por homens na visão de Renata, que é engenheira civil e mestre em concentração de materiais de construção pela Universidade Federal de Goiás (UFG). “A empregabilidade acaba não sendo boa para elas. A mulher está em ascensão em muitas áreas, mas, na construção civil, isso é fraco. Elas entram, mas só no fim da obra, em geral, para fazer a limpeza e o rejunte. A área de pintura está começando agora”, diz. Na visão do consultor técnico de construção civil do Senai Mateus Mariano, a situação tem tudo para mudar (até a necessidade de muita força física tem sido dispensada, pois os equipamentos modernos não exigem isso), mas ainda há uma cultura que dificulta a entrada feminina.


“A mulher usualmente não procura essa área. Acredito que é por causa da visão que se tem de quem atua no ramo: peão de obra. Falta conscientização para elas entenderem que é um trabalho que elas conseguem fazer, pois as que estão no ramo se sobressaem praticamente em todas as funções”, explica. A engenheira civil Joseleide Pereira da Silva acredita que elas não competem em condições de igualdade. “A maior parte das mulheres que procuram essa área têm renda baixa e, não raro, muitos filhos sem ter com quem deixar”, aponta ela, que entre 2012 e 2013 coordenou um projeto no IFB chamado Mulheres na Construção que capacitava trabalhadoras para o ramo. “O curso formou pintoras e azulejeiras e teve procura imensa. Eram cerca de 60 alunas e, ao fim, elas levaram todo o material que seria preciso para trabalharem”, lembra.

 

Eu tentei / Conheça experiências de mulheres com a atividade de pintura 

 

O que falta é emprego

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

“Resolvi fazer um curso para ser pintora de obra para ter a possibilidade de ganhar mais. Vi, na construção civil, uma forma de melhorar de vida e eu gosto muito da área”, conta Ieda Maria de Oliveira Teodoro, 50 anos, que trabalhou na função por três anos em três empresas até ficar desempregada. “A última mandou embora 80% dos funcionários porque não tinha mais serviço. Depois disso não consegui mais emprego como pintora, pois, com a crise, há poucas construções”, diz. Após um período procurando emprego, retomou a profissão que tinha antes: a de atendente de telemarketing. No entanto, o sonho dela é voltar ao canteiro de obras. “Eu prefiro esse ramo, gosto muito de ser pintora”, garante. Ieda diz que os preconceitos existem, por isso as mulheres se esforçam mais para mostrar que dão conta do recado. “A gente faz um trabalho até melhor. Eu era muito elogiada porque sempre tentava me desenvolver mais para não virem com essa conversa de que não fiz algo direito por ser mulher.” 

 

Discriminação

 

Arquivo Pessoal
 

 

Em 2012, Nívia Maria Batista da Conceição, 41 anos, fez um curso no IFB para se tornar pintora. “Eu era manicure, mas essa área me chamava atenção, é um trabalho bonito”, conta. Quando as aulas terminaram, conseguiu um emprego como prestadora de serviços numa construtora, mas não foi como ela esperava. “Eu era discriminada. O mestre de obras dizia que, pelo fato de ser mulher, eu não daria conta do serviço”, afirma. “Uma vez o engenheiro duvidou da minha capacidade e falou que era melhor eu arrumar outro serviço. Fiquei muito chateada, quase chorei”, lembra. Na época, ela e uma colega eram as únicas figuras femininas na construção. Na visão de Nívea, o problema não era o desempenho. “Tinha pintores profissionais que nos elogiavam”, garante. Devido às discriminações, depois de um ano, Nívea desistiu de ser pintora de obra e voltou a ser manicure. “Conversei com meu marido e concluímos que não valia a pena sofrer tudo isso. Faltam oportunidades e confiança no taco da mulher.”

 

 

Rainhas da cerâmica

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

Na construção civil, o serviço mais comum executado por mulheres é a aplicação do rejunte, que é a parte do acabamento do assentamento de azulejos. O dono da empreiteira MB Costa Engenharia, Marcelo Bartolomeu Costa, contrata muitas trabalhadoras para exercer a função pelo fato de ela exigir delicadeza. “É incomum a contratação de homens para esse trabalho porque a mulher é mais detalhista, sempre quer fazer com uma qualidade melhor, então fica bem melhor”, diz. Esse, porém, é um pensamento mais recente.

 

Quando a rejunteira Cristiane Basílio de Jesus, 56 anos, começou a trabalhar em obras em 1985, quase não havia mulheres mexendo com isso no Brasil. Pioneira nesse serviço, ela destaca que só é preciso ter valentia para conseguir. “Se tiver coragem, dá para enfrentar. Se não tiver, faz como muitas: olham e vão embora.”

 

Ela começou a trabalhar no ramo para deixar de ser empregada doméstica. “Simplesmente cheguei o portão da obra e pedi uma oportunidade. Lidei com muitas barreiras porque, naquela época, não havia mulheres no ramo. Mas, com jeitinho, consegui ficar até hoje”, comemora. Um problema percebido por Cristiane é que as mulheres precisam lidar com o preconceito não só no trabalho, mas também dentro de casa.

 

“Muitos maridos são muito ciumentos e não querem ver a esposa no meio de homens, o que não tem nada a ver”, destaca. Francilene Estevan Leite, 42, também entrou para a construção civil para deixar de ser doméstica, há três anos. “É bem mais fácil do que ser empregada”, compara ela, que ensinou esse serviço para a amiga Ivani de Jesus, 38. “Não tem dificuldade, mas existe preconceito, dentro e fora das empresas, por isso poucas mulheres trabalham com isso. As pessoas não confiam tanto em nós. Porém, dentro da obra, não tem diferença: eu respeito meus colegas e eles me respeitam”, afirma Ivani. Mãe e filha, Sebastiana Oitinho da Conceição, 48, e Gratiane da Conceição Lira, 35, trabalham com rejunte desde quando vieram do Maranhão para Brasília. “Cheguei primeiro e comecei a trabalhar como doméstica, mas só passei seis meses nisso até que uma conhecida me trouxe para trabalhar na limpeza de obra e conheci o serviço de rejunte, há sete anos”, conta Gratiane. A mãe dela, Sebastiana, descarta a ideia de “mulher não dá conta” do serviço: “não tem dificuldade, é um trabalho muito bom.”

 

Três perguntas para / Keyla Fabrícia Pereira Sahb, engenheira civil, mestre em
estruturas e materiais e coordenadora do curso de engenharia civil do Centro
Universitário Iesb


Como é o mercado da construção civil para o público feminino?

A partir da virada do século, está cada vez mais comum a mulher trabalhar em obras. Atuo nessa área desde os 15 anos porque era técnica em edificações. Ao longo do tempo, houve muitas mudanças. As trabalhadoras são mais detalhistas; por isso, o primeiro posto ocupado por elas foi o de rejunte de cerâmica. Nesse início, era preciso ter um cuidado muito grande: eram poucas mulheres em relação aos homens, então elas tinham que trabalhar de duas a três para se protegerem. Elas também sempre trabalharam na limpeza. Depois disso, abriu-se espaço em outras áreas, como a execução de alvenaria e instalações.

Qual o diferencial da mulher?

Elas têm um comprometimento maior, são mais atentas, aprendem com mais facilidade, procuram fazer com maior qualidade, respeitam hierarquia, entendem melhor os processos da obra. Isso porque em geral se comprometem mais. Na construção civil, elas precisam, ainda mais, provar seu valor, então a cobrança é bem maior.

O que falta para que a participação feminina seja maior?
Segurança, aceitação, reconhecimento e respeito. Hoje em dia, há banheiros separados, pois as empresas passaram a ser obrigadas a oferecer isso. Mesmo assim, as mulheres devem tomar cuidado. Na obra, é preciso se posicionar para conseguir ser aceita e respeitada. Ainda falta quebrar barreiras, principalmente em questão de cargos e salários. Nas posições mais baixas, não existe tanta diferença. À medida que se sobe na hierarquia, a disparidade aumenta.

 


 

*Estagiária sob a supervisão de Ana Paula Lisboa