PONTO A PONTO

Em entrevista, Mário Sérgio Cortella fala sobre felicidade e carreira

O filósofo e educador defende que é possível encontrar, no trabalho, alegria, prazer e sentido para a vida. Contudo, é preciso ter em mente que, para isso, é preciso aguentar momentos difíceis também. Quando se gosta de uma atividade, a intensa dedicação não traz estresse, apenas cansaço e, ainda assim, com vontade de continuar trabalhando

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postado em 03/09/2017 14:12 / atualizado em 03/09/2017 14:16

Vini Teles

 

 

Em entrevista exclusiva, o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella, conhecido por tratar de temas sociais contemporâneos à luz da filosofia, defende que é possível — e aconselhável — conciliar felicidade e trabalho. Autor de 33 livros, ele esteve em Brasília para palestra no Centro Internacional de Convenções do Brasil (CICB), com capacidade para 2.500 pessoas, em 21 de agosto. O evento, promovido pela plataforma Doos, teve apoio do Correio Braziliense. Na ocasião, o expoente do pensamento brasileiro falou sobre a seguinte pergunta: qual é a tua obra? O questionamento é baseado em livro homônimo, no qual Cortella defende a substituição do conceito de trabalho como algo penoso pela realização de uma obra. Esta foi a primeira palestra do filósofo desde que ele fraturou o joelho direito. Por causa disso, foi obrigado a dar uma pausa na intensa rotina de palestras. “Retornei depois de 60 dias, foi minha primeira viagem de avião desde que comecei a usar cadeira de rodas e muletas”, conta. O curitibano voltará ao DF para nova palestra em outubro. Confira conversa com o pensador sobre trabalho:

 

Felicidade
Uma das coisas mais ruins é as pessoas imaginarem que precisam abrir mão da felicidade no trabalho. Mas também é desejar apenas felicidade no trabalho. São duas ilusões. O trabalho é uma circunstância da vida, a carreira é a maneira de fazê-lo, e a felicidade se apresenta e se ausenta em vários momentos. Não há felicidade sem esforço quando você pensa em carreira. Existe felicidade sem esforço quando você está passando e sem fazer nada, exceto virar o rosto, vê um pôr do sol no cerrado, daqueles magníficos na reta do horizonte. No que se refere à carreira, a felicidade tem que ser um horizonte, mas não é um território no qual se ande o tempo todo. Há pessoas que dizem algo estranho: “Quero fazer só o que eu gosto”. A gente chama isso de hedonismo, a procura do prazer contínuo. Para que alguém faça só o que goste, terá que fazer muitas coisas de que não gosta. Por exemplo, gosto demais de dar aula, mas não gosto de corrigir prova — aliás, conheço poucos professores que gostam de fazê-lo. Gosto de cozinhar, mas não acho prazeroso lavar toda a louça na sequência. Isso significa que, quando me envolvo numa atividade, sei que há coisas de que não vou gostar, mas o que eu quero é a obra, isto é, o resultado. A carreira tem exatamente essa condição. A felicidade aparece como consequência e não como processo.

Prazer
Aristóteles dizia que o prazer do trabalho aperfeiçoa a alma. Uma das coisas mais gostosas é ter a capacidade de tirar uma fruição, um gosto daquilo que se faz. É importante fazê-lo não apenas com a intenção de um retorno pecuniário, mas especialmente com alegria de fazê-lo. A gente encontra em várias atividades pessoas com prazer imenso. Sempre digo que uma fórmula para pensar internamente — mas não diga ao patrão — é que, quando você gosta demais de fazer algo, faria até de graça.

 

Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
 

 

 

Sentido da vida x Meio para um fim
A gente pode entender emprego como meio, mas trabalho, jamais. Há uma distinção entre trabalho e emprego: trabalho é fonte de vida, emprego é fonte de renda. Meu trabalho é aquilo que faço para que minha vida tenha sentido. Um pedaço do trabalho é emprego, mas não todo ele. Há pessoas que não têm emprego e trabalham: fazem trabalho voluntário, cuidam da casa e de outras pessoas. É uma ocupação. O mais gostoso é quando o emprego coincide com o trabalho. Nessa hora, evidente que o trabalho é fonte de vida, mas também meio de vida. A gente não pode imaginar que daria para olhar o trabalho somente como situação que uso para conseguir outras coisas. Ele também é resultante de uma obra, de uma coisa que me alegre, me anime, me faça crescer e me elevar. Pessoas que enxergam no trabalho apenas um meio de vida, sem dúvida, terão dificuldade porque viverão talvez em estado de queixa, dizendo: “Ah! No dia que eu puder, vou fazer o que eu gosto”. É preciso que ela se alerte a tempo quanto a isso.


Atividade desgostosa
Existe a possibilidade de trabalhar com algo de que não se gosta para ter como fazer o que gosta fora do trabalho. Mas aí é uma coisa consciente. O fato de alguém estar numa situação de emprego transitória para que consiga outras coisas não é degradante. Desde que a pessoa tenha clareza disso. Há momentos, por exemplo, em que alguém vai fazer um esforço imenso para entrar, como concursado, na atividade pública, para que, com isso, possa conseguir recurso para abrir um negócio, cuidar de algo, ser artista, tanto faz. Isso não é nem irrelevante nem negativo. A grande questão é a consciência deliberada. É preciso ter consciência do que está fazendo. Agora, alguém que se saiba de passagem num emprego, mas se coloque também de passagem naquela vivência, nunca vai aproveitar aquele lugar como de aprendizado nem vai contribuir para ele, porque vai ficar o tempo todo em estado de partida, se arrumando para ir embora. Quando, sabendo que é transitório, poderia usar ao máximo aquele período transitório para retirar daquilo um aprendizado...

Achando a minha obra
O ponto de partida para transformar o trabalho numa obra com sentido é a recusa a uma vida que seja banal, fútil, inútil, superficial. Para identificar se está nesse tipo de situação, a pessoa precisa refletir. Por que faço o que faço? Por que faço o que faço como faço? Por que deixo de fazer? Não são respostas automáticas. É preciso pensar para, aí, sim, identificar se o que faz é algo que resulta numa obra que o eleva ou se é algo que o chateia e diminui. Por isso não é tão difícil saber. Todas as vezes que você tem desejo de continuar fazendo, mesmo cansado ou cansada, são bons sinais. Há uma diferença e sempre digo que a principal forma de identificar se uma atividade é uma obra ou mero emprego é perceber se você está cansado ou estressado. Cansaço resulta de esforço intenso. Estresse resulta de um esforço que você não quer fazer.

Por que faço o que faço?
Vida com propósito é decisiva. Cada vez mais, temos uma geração que chega desejando um trabalho, no qual tenha um retorno não apenas financeiro. Que seja, acima de tudo, coberto por alguma razão para que se faça aquilo. Hoje em dia, há muitos negócios novos, principalmente no campo da tecnologia, que são higiênicos — no sentido da capacidade de ação — e que tragam retorno que vai além do financeiro. Por causa do esgotamento de alguns modelos de existência que os mais jovens identificam nos mais idosos (como nossos cansaços e resmungos), há, sim, nas novas gerações uma intenção de ter um trabalho com maior significância e que não se resuma a ser só “fonte de renda” e que seja especialmente “fonte de vida”.

Crises
A palavra “crise”, em sânscrito, vem da ideia de purificar: guardar aquilo que serve e descartar o que não serve. Há momentos na vida em que a existência fica tão aguda em termos de dores, cansaços e tédios, que a gente começa a imaginar que é necessário, para ir adiante, deixar algumas coisas para trás e levar outras. A crise não é necessariamente negativa, só é negativa quando a pessoa não consegue dar a ela um caminho positivo, isto é, quando sucumbe à crise. Quando você faz da crise um momento de balanço em que, num tropeço, ganha energia para ir adiante, se torna algo importante. Hoje, as pessoas se perguntam mais “por que faço o que faço?”, pois temos uma vida extremamente marcada pela competitividade e pelo adensamento de pessoas em disputa de lugares. Então, há momentos em que a gente se questiona: quando vou ser feliz? Nessa hora, a crise vem à tona.

Cumprir regras

A disciplina organiza a liberdade. Uma pessoa ou um lugar indisciplinados ficam aprisionados pelas condições que não são controladas, isto é pelo acaso. A disciplina ordena o uso da liberdade, mas uma empresa não pode, de maneira alguma, esgotar as pessoas que ali estão. É preciso ter compreensão que uma atividade intensa cansa, mas não pode estressar. A flexibilização que algumas organizações estão estruturando é um sinal de inteligência estratégica. Não é para dar moleza às pessoas, apenas é para não levá-las à ruptura. Se a gente exige em excesso daqueles que conosco estão, sem dúvida, o resultado será uma fratura da condição de trabalho mais adiante.

Liderança
O bom líder não se serve do poder, ele serve. Quem não tem essa percepção, não é líder, é chefe. Hitler não foi líder, foi chefe. O mau líder não existe: ou não chegou a ser líder ou já o foi e deixou de sê-lo. A chefia é uma hierarquia, a liderança é uma atitude. Não é só talento, algo que vem pronto. Se você observar grandes atletas, como o recém-aposentado Bolt, não se pode dizer que eles têm só talento, pois precisam treinar todos os dias de maneira insana. Por isso, a liderança não é um dom que baixa sobre nós. Ao contrário, é uma construção, marcada por intenção e dedicação.


Ética
A primeira coisa que a gente tem que entender é que ética é uma escolha. Não é a ocasião que faz o ladrão, ela apenas o revela. A decisão de ser ladrão ou não é anterior à ocasião. Milhares de brasileiros todos os dias encontram ocasião de serem patifes e não o são. E alguns não precisam nem encontrar ocasião, eles a constroem. Há dois caminhos para conseguir ética no mundo corporativo: pressão interna (ou seja, convencer as pessoas que é bom ser bom) e externa (impedir que as pessoas sejam antiéticas por intermédio de instituições e estruturas). Nesse sentido, a ética vem do convencimento e do vencimento. No campo corporativo, há uma legislação cada vez mais apurada que exige essa responsabilização e faz com que a ética seja um valor negocial, não apenas um desejo social. Uma empresa que fraturar essa condição ética perde perenidade, mercado e respeitabilidade. O mundo corporativo, assim como o político, precisa se mobilizar com essa convicção.

Compartilhamento
Há três grandes problemas atitudinais no mundo corporativo: não ensinar o que se sabe; não perguntar o que se ignora; e não praticar o que se ensina. Isso acontece porque nós somos muito individualistas. Os dois piores ditados são “cada um por si, Deus por todos” e “cada macaco no seu galho”. As pessoas precisam começar a entender com mais força que a humanidade só sobreviveu porque, em muitos momentos, a regra foi “um por todos e todos por um”. Se der tempo, a humanidade vai ser capaz de ir nessa direção. Mas poderá não dar tempo. Dois terços das espécies que já existiram deixaram de existir. Nossa espécie não é invencível nem imortal. Não é boa decisão continuarmos nessa escolha homicida — ou, como costumo dizer, biocida, que assassina a vida em várias de suas manifestações. Nesse sentido, as pessoas precisam se formar e formar as novas gerações para que elas tenham generosidade mental, coerência ética e humildade intelectual.

 

Evento em outubro

Mário Sérgio Cortella virà a Brasília novamente em 23 de outubro para palestra no Hípica Hall sobre os reflexos da família no mundo corporativo. Ingressos: a partir de R$ 200. Informações: www.eventim.com.br.

 

Evento

Mário Sérgio Cortella virà a Brasília novamente em 23 de outubro para palestra no Hípica Hall sobre os reflexos da família no mundo corporativo. Ingressos: a partir de R$ 200. Informações: www.eventim.com.br.

 

Perfil
Natural de Londrina (PR), Mário Sérgio Cortella, 63 anos, viveu num convento da Ordem Carmelitana Descalça, mas abandonou a perspectiva de ser monge para seguir a carreira acadêmica. Formou-se em filosofia em 1975 pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira. Pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), se tornou mestre e doutor em educação, respectivamente em 1989 e 1997. Deu aulas em instituições como a própria PUC-SP, a Fundação Dom Cabral e a Fundação Getulio Vargas (FGV). Foi membro-conselheiro do Conselho Técnico Científico da Educação Básica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) entre 2008 e 2010 e secretário municipal de Educação de São Paulo (1991-1992). Antes disso, atuou como assessor especial e chefe de gabinete do professor Paulo Freire.

 

Inspirações:
Paulo Freire
René Descartes
Aristóteles
Jesus
Sidarta Gautama (Buda)

Indicações de leitura:
Criação, de Gore Vidal
Reinações de Narizinho,
Monteiro Lobato

 

Leia
Vida e carreira — um equilíbrio possível?

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