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Com visão de mercado, dá para transformar hobby em profissão

Tornar o que você mais gosta num trabalho pode parecer um sonho, mas é possível. Segundo especialistas, há muitas possibilidades como empregado, empreendedor ou autônomo. Mas é preciso ter cuidado para não deixar a paixão falar mais alto e meter os pés pelas mãos: só apreciar uma atividade não é suficiente para ter sucesso nela

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postado em 15/10/2017 13:30 / atualizado em 16/10/2017 15:03

Meu hobby, minha profissão

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 

Tornar o que você mais gosta num trabalho pode parecer um sonho, mas é possível. Segundo especialistas, há muitas possibilidades como empregado, empreendedor ou autônomo. Mas é preciso ter cuidado para não deixar a paixão falar mais alto e meter os pés pelas mãos: só apreciar uma atividade não é suficiente para ter sucesso nela

 

Desenhar, pintar, fotografar, cozinhar, viajar... São muitas as atividades que podem ser tanto hobbies quanto fonte de renda. Mais prazeroso ainda é quando o que era exercido por puro lazer passa a ser também profissão. Parece sonho, mas, de acordo com especialistas, é possível — para mudar de profissão ou dar os primeiros passos no mundo do trabalho. Os que conseguem conciliar satisfação e carreira provam que existe jeito de não precisar escolher entre prazer e dinheiro. Exemplo disso é a ex-bancária Amanda Cardoso, 26 anos. A brasiliense não poderia imaginar que trocar a carreira fixa por um empreendimento de família poderia dar tão certo. Fazer brigadeiro sempre foi um costume em casa e ela viu nesta atividade prazerosa uma oportunidade de lucrar. “Eu não sei fazer praticamente nada de cozinha salgada até hoje. A única coisa que eu sempre fiz foi brigadeiro, era a única receita que minha mãe deixava eu fazer na cozinha. Depois, acabou por virar trabalho”, relata.

Em 2013, enquanto cursava administração, Amanda abriu a primeira unidade da Doux Brigaderia. Hoje, a empresa é composta por um café na 716 Norte e quatro quiosques: Iguatemi, Brasília Shopping, Pier 21 e Terraço Shopping. “Eu era bancária no Santander, mas não gostava e sempre quis ter meu negócio. Como o brigadeiro gourmet estava em alta e eu sempre gostei de fazer doces, tentei conciliar, até que a carga de trabalho ficou muito grande e tive de sair do emprego”, lembra. Para Amanda, o diferencial do negócio é a qualidade do produto. “A gente sempre foi uma empresa muito familiar, as receitas são da minha mãe e da minha avó. E, hoje, a maior parte da minha família trabalha comigo.” O marido da empreendedora, a mãe, a sogra e a irmã fazem parte da equipe de 17 pessoas. A empresa serve 26 sabores de brigadeiros, bolos, cupcakes, croissants e empanadas italianas.

Psicóloga e especialista em recursos humanos, Ana Carolina Mussio observa que é cada vez mais comum desejar unir prazer e profissão. “As pessoas estão mais interessadas em buscar atividades que trazem algum tipo de satisfação. Há quem transforme o

hobby numa segunda fonte de renda, por exemplo, exercendo o ofício aos fins de semana”, observa. Professora da Etep Faculdades, ela destaca que ter um hobby, independentemente de ele trazer lucro, é muito importante. “É uma forma de espairecer, desenvolver talentos e dar vazão à criatividade”, explica. Antes de fazer do passatempo um trabalho, é recomendável avaliar bem as condições relacionadas a ele. “Tem-se que perceber se o mercado dá valor para essa atividade e se paga por ela.” O primeiro passo, então, de acordo com a professora da Etep Faculdades, é se munir de informações sobre a área. “Pesquise sobre o ramo para saber como operacionalizar isso e se especialize. Às vezes, a pessoa tem um conhecimento de amador, então precisa fazer algum curso”, diz.

 

Quando o caminho é empreender

 

 

Arquivo Pessoal
 

 

De acordo com o gerente de Atendimento Individual do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) Nacional, Enio Pinto, as chances de um empreendimento dar certo são muito maiores quando a pessoa investe em algo de que gosta. “É altamente recomendável que a pessoa invista na área pela qual tenha paixão. Isso porque um pequeno negócio vai demandar muita dedicação, principalmente no começo. Além disso, o mercado exige inovação, algo difícil de se conseguir num ramo que não a agrada”, ensina. O economista também destaca que, quando a atividade é um hobby, é fácil procurar saber cada vez mais sobre o assunto e se atualizar sem se cansar, o que é uma vantagem. “O indivíduo trabalhará sem nem se dar conta”, diz. De acordo com o porta-voz do Sebrae, o empreendedorismo envolve uma luta entre ter e ser. “Quando a pessoa foca no primeiro, parte para aquilo que traz dinheiro, não por ter paixão. Por isso, será difícil empregar mesmo grau de dedicação e atingir resultados animadores. Agora, quando ocorre o contrário, o bom rendimento é uma consequência natural”, garante.

De acordo com Enio Pinto empreender sempre fez parte da cultura brasileira. “Quantitativamente nós somos o país mais empreendedor do grupo de nações G20 e, agora, devido à crise, esse número tem aumentado”, diz. A grande concorrência e um mercado de economia instável estão entre as dificuldades enfrentadas por quem resolve se tornar dono de um negócio. Além disso, é preciso tomar cuidado, pois apenas ter prazer numa atividade não é suficiente para se obter sucesso. Segundo Emerson Weslei Dias, coach de carreira, o primeiro passo necessário antes de se lançar de cabeça numa empresa é avaliar se a atividade realmente pode gerar lucro. “Tem que observar se há evidências de retorno. Eu posso gostar de música, mas, se no meu show, ninguém gosta de me ouvir, não adianta. Não basta gostar: para que o hobby vire profissão, é preciso ter respaldo do mercado e, no caso do empreendedorismo, do potencial cliente”, aconselha.

“Às vezes, do que você gosta não é do que o público-alvo gostará”, alerta. “A música que dá certo nem sempre é a que eu fiz com todo o amor, mas, sim, a que as pessoas entendem. O exemplo é a Despacito: o cantor tinha um público de nicho e, com essa canção, virou sucesso mundial. Por que deu certo? Foi uma fusão de vários aspectos e, com certeza, essa não foi a melodia que ele mais gostou de fazer”, exemplifica. Com MBA em gestão estratégica de pessoas pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e empreendedorismo pelo Babson College (EUA), ele explica que a geração atual está mais em busca de empreender do que de criar uma carreira consolidada em uma organização. Só que isso não é necessariamente bom. “Uma coisa é o que eu quero e outra é o que eu consigo fazer. E o empreendedorismo não é para todo mundo”, salienta.

Trabalho fixo
Para além de empreender, Emerson Weslei Dias observa que as pessoas podem procurar um emprego tradicional na área do hobby. “Quanto mais próximo o que você faz estiver do que você gosta, melhor.” Mesmo assim, é importante pensar se isso é o que realmente se quer fazer em termos de carreira. “Às vezes, a atividade é legal exatamente porque não tem dinheiro envolvido”, contrapõe.

Ainda segundo Emerson, que é contador, é interessante ter em mente que histórias de sucesso de outros num ramo não devem servir de base para você pensar que também terá êxito. “Não é porque alguém se deu bem fazendo essa atividade que eu também me darei. A história é única para cada um de nós, ninguém pode repeti-la. E o fato de você não conseguir não quer dizer que você não tem talento — às vezes, te faltam outras habilidades necessárias”, conclui.


"É altamente recomendável que a pessoa invista na área pela qual tenha paixão. Isso porque um pequeno negócio vai demandar muita dedicação. Além disso, o mercado exige inovação, algo difícil de se conseguir num ramo que não a agrada”
Enio Pinto, gerente de Atendimento Individual do Sebrae Nacional

Atuação como autônomo
Para investir naquilo que dá prazer, uma possibilidade é prestar serviços por conta própria. Os famosos autônomos têm a liberdade de aproveitar aquilo de que gostam como ganha-pão, é o que explica Kleber Costa, CEO da Bicos, plataforma em que pessoas podem se cadastrar para oferecer serviços. “O serviço pontual dá mais liberdade para o prestador escolher o horário e se organizar sobre quanto e quando quer trabalhar”, afirma. Hoje, mais de 83 mil pessoas utilizam a plataforma que funciona como página de anúncios. A pessoa coloca o perfil e os interessados em contratar o serviço entram em contato, tudo de forma gratuita. “São cinco grandes categorias: reformas e instalações, cuidados pessoais, festas, transportes e aulas particulares. Dessa forma, tem de tudo, fotógrafos, cabeleireiros: é bem diversificado”, diz.

 

Eles chegaram lá

 

Conheça histórias de quem entrou de cabeça num passatempo e fez dele um trabalho 

 

Vivendo de sonhos

 

Brian Baldrati/Divulgação

 


Viajar sempre foi uma paixão de Brian Baldrati, 27 anos. Ele gostava tanto disso que, em 2012, resolveu fazer um mochilão pelo sudeste asiático. Na mala, levou só algumas roupas e uma câmera fotográfica. “Não tinha planejamento nenhum, comecei a tirar fotos. Eu tinha uma conta pequena no Instagram e as pessoas começaram a elogiar minhas fotos. A fotografia então passou a ser uma motivação para as viagens”, relembra. Na época, Brian estudava psicologia e nem passava pela cabeça dele fazer daquilo uma profissão. “Eu fui me apaixonando cada vez mais e, quando me formei, decidi que não atuaria na área e que me dedicaria à fotografia”, conta. Apesar da decisão, ele demorou a perceber que seria possível ganhar dinheiro com aquilo. Só quando começaram as primeiras propostas de viagens patrocinadas é que ele notou que essa possibilidade era real.

“No começo foi bem difícil. Para me sustentar, usava não só o que ganhava com as imagens, como também alugava meu apartamento enquanto estava fora e cheguei a ser motorista da Uber”, lembra ele. Hoje o sustento vem só da fotografia, por meio de patrocínio de empresas, como hotéis e negócios do setor automotivo. A conta dele no Instagram (@isthisreal) tem mais de 90 mil seguidores e ele viajou por mais de 50 países, sendo que alguns dos roteiros, como África do Sul, Marrocos e Índia, foram patrocinados. E Brian não se arrepende das escolhas que fez. “Passo pouco tempo em casa. Se eu fiquei três semanas em no meu apartamento nos últimos três meses, foi muito. Também não tenho salário fixo. Mas a liberdade que a fotografia me dá é muito boa. Não tenho rotina”, diz. Para chegar a esse ponto, ele ressalta a importância de buscar conhecimento. “Tudo aconteceu muito rápido, mas dependeu de muita dedicação. Estudei e estudo bastante, fiz curso, procuro referências. Sonho alto e faço de tudo para que minhas metas se realizem”, conclui.

 

Um pé lá, outro cá

 

Diego Gomes/Divulgação

 

 

A confeitaria era, para Sheila Antunes Oliveira, 40 anos, apenas “uma coisa gostosa de se fazer” e se tornou a salvação dela quando se separou do marido. “Passamos por um momento muito difícil financeiramente, então comecei 2012 fazendo bolos de pote só aos fins de semana.” A receita era da mãe dela. Sheila é gerente administrativa numa imobiliária e, para se dedicar à verdadeira paixão, tem que virar muitas noite preparando as tortas, mas garante que cada esforço vale a pena. Hoje, a confeitaria caseira já traz o mesmo rendimento do emprego formal — o que dá segurança para quando chegar a hora de se demitir. “Só estou ficando mais tempo por um pedido do meu chefe”, diz.

Ao longo do caminho, a brasiliense teve de enfrentar diversas dificuldades, como uma sequência de dois assaltos que a obrigaram a se mudar e, com isso, parar a produção por um ano. “É muito difícil porque tem que ter coragem. São horas e horas de trabalho, mas vale muito a pena porque faço o que amo. Dá medo, mas gosto de desafios e sei que isso é o que eu quero pra minha vida”, garante. Para investir no sonho, recentemente ela alugou um apartamento em frente ao dela, em Samambaia, para abrir o ateliê Cake Magia, participou de workshops com os confeiteiros Leo Vilela e Amélia Lino e está fazendo curso técnico em gastronomia. Os clientes chegam a Sheila pela internet e por indicações. Um diferencial é que as tortas podem ser personalizadas de acordo com o gosto do freguês.

 

Dos vídeos caseiros aos milhões

 

Internet/Divulgação
 

 


O comediante e youtuber Whindersson Nunes, 22 anos, é sensação na internet com vídeos engraçados e se interessou por gravá-los simplesmente por diversão. Ele começou fazendo filmes caseiros, sempre no quarto dele, aos 15 anos. Os anos se passaram, ele mudou de cidade, ganhou fama, mas o formato continua basicamente o mesmo: as imagens postadas mostram  Whindersson, em geral sem camisa, num quarto, falando sobre o que dá na telha e brincando com as situações e as palavras. “Quando comecei, nem tinha noção de que poderia ganhar dinheiro com um canal na internet. Mesmo hoje, continuo fazendo por prazer, amo o que eu faço”, conta.

Hoje são mais de 23 milhões de inscritos no YouTube, o que o torna o dono do maior canal on-line do Brasil. “As coisas acontecem naturalmente e, assim, vamos continuar. Eu nem cheguei a me organizar, apenas continuei fazendo da forma que fazia e esse modelo permanece até hoje”, diz. Para o piauiense, o fato de essa atividade prazerosa ter se tornado a profissão dele foi muito positivo. “Todo emprego é divertido quando a gente ama o que faz. Amo fazer vídeos para a internet e acho que amaria também trabalhar em um restaurante de sanduíches: ah, comeria muitos e viveria feliz”, brinca. Para quem quer se arriscar e investir em algo parecido, ele deixa a dica: “Persista, não deixe as pedras do caminho atrapalharem seus sonhos”.

 

Visualize um caminho comercial para atividades que curte

 

 

  

Passos para investir em um hobby como empreendimento 

 

Enio Pinto, do Sebrae Nacional, explica os principais passos para ter uma ideia de negócio:

1 - Faça uma lista de 10 coisas de que gosta;

2 - Veja se você tem vantagem competitiva — não adianta gostar e não ser bom naquilo

3 - Avalie se existe demanda, pois só existe empreendimento se houver clientes. Isso não significa lançar um negócio inédito, pois o mercado pode estar cheio de gente fazendo o mesmo serviço, mas sem satisfazer o público com qualidade.

 

Cumprindo essas etapas é hora de seguir outros passos que caracterizam um plano de negócios:

1 - Tenha uma conversa com o espelho e se pergunte se você tem um perfil de empresário;

2 - Faça uma pesquisa de mercado: quantas pessoas comprariam ou contratariam o serviço?

3 - Faça uma projeção do fluxo financeiro. Tem o recurso necessário para abrir? Venderá algum bem? Recorrerá a um financiamento? Faça ainda uma projeção mínima de quanto entra e sai, para ter uma ideia do que tem de lucro.


 

 

 

 

*Estagiária sob a supervisão de Ana Paula Lisboa