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10 anos após criação, educação do campo da UnB tem 200 formados

A Universidade de Brasília foi uma das instituições de ensino pioneiras a oferecer licenciatura que prepara educadores para dar aulas em zonas rurais. O curso tem por objetivo suprir a carência de mão de obra especializada para os ensinos fundamental e médio nessas regiões

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postado em 15/10/2017 14:01 / atualizado em 15/10/2017 14:07

 

 

A licenciatura em educação do campo da Universidade de Brasília (UnB) completou 10 anos. O primeiro vestibular foi em agosto de 2007. Atualmente, a graduação, cujo objetivo é formar mão de obra para suprir a carência de professores de educação básica em zonas rurais, tem 210 alunos e 28 professores. As aulas são no câmpus Planaltina. A UnB foi uma das pioneiras a oferecer este curso no país. Para celebrar a primeira década de histórias, a instituição promoverá um seminário com debates, palestras, apresentações e exposição. Um dos diferenciais da formação, com duração de quatro anos no período diurno, é o ensino alternado entre períodos na universidade e na comunidade do próprio aluno. A cada semestre, os estudantes permanecem por 60 dias na Faculdade de Planaltina e o restante do tempo é passado no campo.



Na zona rural, os universitários aplicam o que aprendem, por meio de pesquisas, atividades complementares, elaboração de projetos e ministração de aulas (durante o estágio obrigatório). Os graduandos podem optar por uma das três habilitações existentes: linguagens, ciências da natureza ou matemática. O vestibular é exclusivo para a população do campo. Os interessados precisam ter concluído ou estar em fase de conclusão do ensino médio e não ter nível superior. Podem concorrer, além de jovens e adultos, professores e outros profissionais de educação que atuam em escolas rurais no DF e no Entorno ou que trabalham em projetos que visam à ampliação do acesso à formação básica pela população do campo.

Segundo o Ministério da Educação, 39 instituições oferecem a licenciatura em educação do campo no país. Eliene Rocha, coordenadora da licenciatura em educação do campo na UnB,  estima que 1.000 pessoas tenham obtido diploma na área no Brasil. Ao longo de 10 anos, 200 pessoas se formaram na Universidade de Brasília. “A evasão é um problema grande, pois muitos passam no vestibular, mas acabam sem conseguir se manter ali por falta de recursos”, aponta Eliene, pedagoga e doutora em educação. “Os meninos têm muita dificuldade para concluir, as condições socioeconômicas são bastante precárias, eles têm algumas dificuldades de aprendizagem e demoram um pouco para integralizar o curso”, completa Mônica Molina, coordenadora da linha de pesquisa de educação ambiental e do campo do programa de pós-graduação em educação na UnB. Ela participou da implementação da licenciatura em 2007 e se manteve na coordenação do curso até 2011.

Minervino Junior/CB/D.A. Press

 

O último vestibular da licenciatura em educação do campo, em agosto deste ano, ofereceu 140 oportunidades (as provas serão aplicadas em 29 de outubro). O primeiro de todos, em 2007, ofertou 60 chances. Nos últimos três anos, a UnB aderiu a um edital do Ministério da Educação para ampliar a oferta para pelo menos 120.

Eliene Rocha avalia que preparar professores para áreas de produção agropecuária é uma grande responsabilidade. A coordenadora destaca a necessidade da qualificação com alternância já que, em geral, os matriculados no curso cresceram e vivem em zonas rurais. “É uma forma de não tirar os alunos do local de trabalho deles, ampliando possibilidades de exercício profissional no berço natal”, afirma. Nathan Pinheiro, doutor em física e docente da licenciatura em educação do campo há três anos, percebe que a necessidade da graduação é comprovada. “O curso ajuda a quebrar ciclos de exclusão social”, pontua. “É uma política pública extremamente relevante porque é necessário formar educadores que entendam as especificidades dos modos de produção da vida no campo”, concorda Mônica Molina, pós-doutora em educação.

Olhar do aluno
Luan Ramos Gouveia, 23 anos, é quilombola e aluno do 6° semestre de educação do campo na UnB. Ele é morador de Teresina de Goiás (GO) e, durante os 60 dias de universidade, fica em Planaltina. “Na época do vestibular, eu me dediquei muito, achei a prova difícil, mas o teste cobrou aspectos do campo”, recorda.  “Essa licenciatura é muito importante, satisfatória e de alto nível”, diz. Após a formatura, o estudante pensa em aplicar os conhecimentos adquiridos na cidade de origem. “Gosto da ideia de educação popular não só para ajudar a desenvolver o ambiente escolar, mas também toda a comunidade”, enfatiza.

Não perca!
Durante a 17ª Semana Universitária, o seminário 10 anos da licenciatura em educação do campo ocorrerá de 23 a 27 de outubro. Informações: fup.unb.br.

Vestibular
O professor Nathan Pinheiro nota que, muitas vezes, moradores da zona rural (o alvo da graduação) não cogitam prestar o vestibular. “Eles pensam que não têm chances”, afirma. No entanto, ele ressalta que é possível: “Todos têm condição de entrar, aprender e exercer a docência”.

Eu me formei /
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Professora e quilombola
Aos 33 anos, Lourdes Fernandes, mais conhecida como Bia Kalunga (apelido dado pelo avô falecido), é licenciada em educação do campo pela UnB, com habilitação em linguagem desde 2014. Atualmente, é professora e coordenadora do Colégio Estadual Kalunga II, no Quilombo Kalunga, em Monte Alegre de Goiás (GO), onde mora. Ela enfrentou dificuldades financeiras para se manter durante a graduação. “Durante o tempo na universidade, meus pais vendiam farinha, frango e bebidas para enviar dinheiro para me manter”, relembra a filha de lavradores. Bia também levava o filho mais velho, hoje com 10 anos, para as aulas. Ela é mãe ainda de um casal de gêmeos de 2 anos.


Apesar dos muitos obstáculos, Bia não desistiu da formação. “Mesmo com sofrimento, minha maior meta era concluir e ajudar a comunidade”, acrescenta. A professora vê na graduação uma oportunidade para quem é do campo. “É um curso que corresponde às necessidades do aluno, valorizando o habitat rural”, relata.  “A comunidade está ganhando com tudo isso, gosto de ensinar e contribuir e nós temos que voltar e lutar com os companheiros”, defende. Bia Kalunga faz parte da Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano (Alaneg). “Pretendo me tornar escritora”, almeja.

Rumo à docência universitária
Moradora de Planaltina (DF), Adriana Gomes Silva, 33 anos, se formou em educação do campo com habilitação em linguagem no ano passado. “O curso me deu uma base muito grande”, avalia. Hoje, ela faz parte do projeto Comuna Panteras Negras. A iniciativa ocorre no assentamento Pequeno Willian, em Planaltina. “Lá, trabalhamos a gestão coletiva com cultura por meio de teatro político, vídeo popular, agroecologia, biblioteca e cursinho pré-vestibular”, acrescenta.


Atualmente, Adriana faz mestrado em educação ambiental e educação do campo, também na Universidade de Brasília. “Com a pós-graduação, quero aumentar meus conhecimentos para poder dar aula no curso superior de educação do campo.”

 

 


* Estagiária sob supervisão de Ana Paula Lisboa