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A maior parte dos donos de negócio do país fatura até três salários-mínimos

Em muitos casos, os empresários não têm lucro: o valor arrecadado cobre apenas os custos e não há como tirar pró-labore. Na visão de especialistas, é preciso investir em planejamento e capacitação para expandir a margem de ganhos

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postado em 29/10/2017 13:50

Jhonatan Vieira/Esp.CB/D.A Press

 

Num país com mais de 13 milhões de desempregados, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a lógica de onde buscar uma fonte de renda tem mudado para muita gente. Não dá para apenas procurar um emprego, que pode demorar a aparecer. Considerar o empreendedorismo tem se tornado uma saída cada vez mais frequente. Contudo, o contexto de crise também afeta as finanças e a maior parte dos negócios brasileiros têm servido apenas para isso: manter o empreendedor, sem margem para expansões ou contratação de uma grande equipe. A cada 10 empresários, sete têm faturamento de até três salários-mínimos (cerca de R$ 2,8 mil). A informação é da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM).


Em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e execução do Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), o levantamento ouviu 2 mil pessoas em 2016. Além de os rendimentos médios dos empresários do país não serem altos, o relatório mostrou outro aspecto preocupante. Grande parcela não tem conseguido tirar qualquer remuneração da empresa, ou seja, o dinheiro acumulado é suficiente apenas para quitar os gastos do próprio negócio (às vezes, nem isso, e o proprietário precisa arranjar fundos de fora para pagar as contas). Entre o total de negócios, apenas 16,9% foram capazes de gerar renda por mais de três anos e meio (inferior ao valor de 2015: 18,9%). Enio Pinto, gerente nacional de Atendimento do Sebrae, acredita que o baixo faturamento dos negócios brasileiros se deve, em parte, ao amadorismo.

 

Arquivo Pessoal
Grande parcela de pessoas entram para o mercado sem preparação (muitas vezes porque se lançar nisso para sobreviver). “O brasileiro empreende muito, mas dificilmente domina técnicas de gestão do negócio”, comenta o economista e especialista em finanças. A remuneração também é afetada por empreendedores iniciantes. “Há quem, até então, era informal e acabou de estruturar o negócio, como uma manicure que vai de porta em porta, uma sacoleira ou um borracheiro”, exemplifica. Todos os grupos, no entanto, precisam investir no próprio conhecimento para que o empreendimento tenha chances de deslanchar.

Falência
Com baixos rendimentos e, muitas vezes, sem conseguir pegar pró-labore, às vezes, a conclusão é a de que é hora de jogar a toalha. Foi o caso de Rodrigo Aquino Silveira, 31 anos. Formado em gastronomia, ele foi dono do restaurante indiano Bhõjana. “Não foi a comida que não deu certo. Aconteceria independente de qual fosse o tipo de cozinha. Tentei repaginar tudo, mudar o cardápio e a proposta, mesmo assim, as vendas caíram”, lembra. Ele montou um quiosque no Quituart (Lago Norte) em 2015 e acredita que o principal motivo para a falência foi a falta de planejamento: com pressa para iniciar as atividades, Rodrigo não fez um plano de negócios. Ao abrir o restaurante, ele também passou a ter foco dividido, pois é dono, desde 2009, da empresa de eventos Fogo do Cerrado, que continua em atividade. “Essa dá retorno, talvez até porque tem menos gastos: os funcionários são freelancer e não há sede fixa”, relata.

 

Invista em você
Caroline Dias de Freitas, 31 anos, sabe da importância de se estruturar antes de começar o próprio negócio. Ela começou a trabalhar numa gráfica aos 17 anos e, quatro anos depois, em 2006, abriu a Editora Reflexão. A moradora de São Paulo compensou a pouca idade com a busca por formação: Caroline se graduou em design e fez especialização em gestão do design. O outro passo foi não ter medo nem preguiça de se esforçar — e muito! “No início, cheguei a trabalhar 18 horas por dia, parando apenas para dormir”, lembra. O investimento compensou e, hoje, ela lista os atributos essências para montar e persistir com um empreendimento: “Persistência, coragem, foco, inciativa e estratégia”.


A busca por conhecimento para garantir a continuidade e o sucesso de um negócio, no entanto, não deve ser apenas na área técnica da empresa. É preciso procurar informações em todas as frentes necessárias para uma boa gestão, como atendimento, finanças e administração. Às vezes, é difícil que uma única pessoa domine todos os campos necessários. Por isso, o economista Almir Ribeiro Neto, que tem 44 anos de experiência no setor da alimentação — hoje é presidente da GRSA, CEO do Grupo Compass para a América Latina e membro do Conselho da Compass North América —, indica outra saída.

 

Novos negócios

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 


O Brasil tem 48 milhões de empresários, dos quais 22 milhões são estabelecidos: o restante está entre os estágios inicial, nascente e novo. Em geral, a quantidade está em queda, possível efeito da grande quantidade de firmas que fecharam as portas. Segundo o relatório do GEM, a Taxa Total de Empreendedores (TTE) ficou em 36%, índice abaixo do de 2015 (39,3%). A Taxa de Empreendedorismo Inicial (TEA), composta por donos de negócios nascentes e novos, ficou em 19,6%, inferior a 2015 (21,0%). A cada 100 brasileiros, 20 estavam envolvidos com atividades comerciais em estágio inicial em 2016. Os empreendedores nascentes eram 6,2%, atuando na estruturação de um negócio próprio. Porém, a iniciativa não permitia a retirada de qualquer remuneração por mais de três meses.


Ou seja, não basta se lançar no mercado com a cara e a coragem: o empreendedor não deve esperar lucro imediato e precisa estar preparado financeiramente. Irene Azevedo, diretora de Transição de Carreira e Gestão de Mudança da consultoria Lee Hecht Harrison (LHH) na América Latina, alerta que os aspirantes a empreendedores não podem esperar facilidade. “Muita gente tem a falsa ideia de que terá mais tempo livre. Empreender é difícil. Temos uma legislação complicada, carga tributária alta e isso traz dificuldades”, observa a administradora. A trajetória, realmente, não é fácil, mas os que aceitam os sacrifícios necessários podem ter resultados compensadores.

 

Arquivo Pessoal
Eduardo Albano, 24, tecnólogo em contabilidade, chegou a trancar a faculdade para lançar, em parceria com o pai, a plataforma de audiolivros Ubook. “Sempre fui incentivado a empreender. Quando era mais novo, eu vendia cartões de visita”, lembra. Eduardo sabia que a carreira demanda bastante dos proprietários, mas a dedicação valeu a pena:a empresa se tornou a maior do ramo na América Latina e tem mais de 2 milhões de usuários.


Segundo a pesquisa do GEM, quase 50% dos que iniciaram um negócio em 2016 tinham entre 18 e 34 anos, a faixa etária de Eduardo Albano e também de Samir Félix, 24, e Raphael Gordilho, 24. Os dois começaram o site de venda de roupas Balboa Gate com R$ 500 e viram o negócio se expandir com parcerias e a abertura de uma loja no Sudoeste. “A dificuldade inicial foi ir atrás de fornecedor e mão de obra”, conta o publicitário Samir. O jovem sempre gostou de moda e teve a ideia de criar a marca a partir disso. Raphael, graduado em administração, é responsável por cuidar da parte burocrática. “Aprendemos a engatar o negócio por conta própria e aprendendo na prática”, acrescenta.


Oportunidade x Necessidade

Apesar do cenário de recessão econômica, o relatório GEM revelou que o empreendedorismo por necessidade (quando a pessoa abre um negócio pela falta de outra fonte de renda) tem se tornado menos comum do que o por oportunidade (quando o indivíduo vislumbra uma chance promissora no mercado). 75% dos empreendedores nascentes (envolvidos na abertura de uma empresa) apostaram no segundo tipo de investimento. No total, 57,4% dos novos negócios eram por oportunidade, em 2016, contra 56,5%, em 2015.


“Dificilmente, um investimento sobrevive sem um bom administrador. Por isso, é bom contar com alguém mais pé no chão, que puxe o empresário para a realidade. Pode ser um membro da equipe de empregados ou um sócio”, diz. Presidente da recém-criada Associação Brasileira para a Promoção da Alimentação Saudável e Sustentável (Abpass), Almir começou a empreender em Brasília na década de 1980 e percebe muitas mudanças. “Hoje é muito mais fácil. Naquela época, não existiam tantas incubadoras (que auxiliam e investem no profissional) nem tantos níveis de investidores”, compara.

 

 

 

*Estagiário sob supervisão de Ana Paula Lisboa