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A receita para uma fala de impacto

Em vez de apostar no improviso, a dica de especialistas é investir no planejamento, ordenando a apresentação de modo lógico e concatenado. Dar exemplos, ser autêntico e usar recursos audiovisuais adequadamente ajuda na construção da palestra. Erros de que se deve fugir são: não se aprofundar em nada; enrolar o público e adotar tom apelativo

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postado em 05/11/2017 17:21 / atualizado em 05/11/2017 17:54

Preciso dar uma palestra. E agora?

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

Profissionais dos mais diversos ramos podem ser convocados para fazer algum tipo de apresentação perante a própria equipe, a diretoria da firma, um grupo de alunos e visitantes ou o público de um congresso. Apenas ser extrovertido não basta para garantir boa performance. Do mesmo modo, só dominar o assunto, sem técnica para expor, não é suficiente. Confira dicas de especialistas sobre o tema

 

Em algumas carreiras, falar em público faz parte da rotina — é o caso de professores e palestrantes. No entanto, mesmo quem exerce outras atividades (independentemente da área de formação ou do ramo de atuação) pode ser, com mais ou menos frequência, convocado para dar uma palestra. A própria equipe, a diretoria executiva, todos os funcionários da organização, um grupo de visitantes e participantes de um congresso estão entre os prováveis espectadores. Para os mais retraídos, a simples ideia de se apresentar perante um grupo causa calafrios, mesmo quando dominam o assunto a ser tratado. Os mais extrovertidos podem acreditar que estão com a vida feita. No entanto, apenas ficar à vontade em frente a uma plateia não é suficiente para garantir que farão uma apresentação a contento. Segundo especialistas, todos são capazes de atingir bom desempenho — basta treinar e munir seu discurso dos elementos necessários.


Pedro Ventura

 

O problema é que identificar quais são eles não é tarefa das mais fáceis. A equação é complexa, pois o tom deve mudar conforme a plateia, o ambiente e o assunto. Então, qual é o segredo para impactar positivamente o público no palco? A lista de ingredientes é ampla e envolve dominar o assunto, adotar abordagem que combine com você, transparecer paixão pelo tema e vontade de sensibilizar os presentes. Há ainda erros dos quais é preciso fugir, como o discurso de vendedor. Por mais que o apresentador suba ao palco com objetivo de vender um produto, ele deve estar lá com a intenção de dar algo, não de receber. É preciso evitar dramaticidade ou sensacionalismo para convencer os participantes. Aprofundar-se nos tópicos mais relevantes, evitando a superficialidade, também é fundamental para o sucesso de uma apresentação.

 

Pernas bambas, gagueira e esquecer o que precisa falar: esse era o sofrimento de Cida Xavier, 40, todas as vezes que precisava se apresentar em público. O pavor tomava conta até nas apresentações de trabalhos durante a faculdade de publicidade e propaganda. “Sempre sentei no fundo da sala de aula para não chamar atenção”, lembra. Desde 2015, é analista de recursos humanos na Faculdade LS e diz ainda sentir frio na barriga todas as vezes que precisa subir ao palco. “Mas agora tenho a consciência de que posso fazer isso”, conta. No emprego, ministra treinamentos e, de vez em quando, palestras motivacionais. Como também é coach, esporadicamente é convidada para falar em outros locais.


O primeiro convite surgiu em 2013. A proposta veio de uma amiga que tinha uma equipe de enfermeiros desmotivada. A missão era dar ânimo para o grupo. “Mal dormi na noite anterior à palestra e torci para que a enfermeira-chefe desistisse da missão”, confessa. Apesar do nervosismo, o discurso, feito para cerca de 40 pessoas, foi bem-sucedido. “Foi ali que percebi que eu era capaz”, recorda ela, que foi dona de uma loja de roupas e trabalhou como vendedora numa operadora de telefonia. Em suas apresentações, Cida não costuma usar slides, pois esse recurso a desconcentra. “Faço um estudo prévio e um roteiro do que vou falar, mas tudo pode mudar, dependendo da interação do público”, explica.


“As pessoas percebem quando falamos de maneira mecânica ou superficial. Por isso, trago exemplos de vida ao falar sobre empreendedorismo, impacto da tecnologia nas nossas vidas ou gestão pública moderna e eficiente”, explica Thiago Jarjour, 34 anos, secretário adjunto de Trabalho e Empreendedorismo do Governo de Brasília. Por causa da função, ele passou a ser requisitado para diversas apresentações. Só na edição da Campus Party em Brasília, em junho, ministrou quase 100 palestras sobre tecnologia. Ele se orgulha do fato de ninguém ter deixado uma apresentação dele no meio este ano. “É um bom sinal”, comemora. Thiago nunca fez treinamento formal para a atividade e aprendeu o que funciona para ele na prática.  Dominar o que fala é o ponto-chave, na opinião do secretário. “Falar com o coração, estudar e se aprofundar no assunto, além de criar um roteiro de apresentação” são outros truques para impactar a audiência.

 

Virou ganha pão

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

Depois de 20 anos na assessoria jurídica do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Kátia Machado se desencantou com o funcionalismo público e resolveu abandonar a carreira. Abriu uma loja de chocolates, mas descobriu que aquilo também não era para ela. Entretanto, com a experiência, adquiriu conhecimento sobre empreendedorismo e passou a repassar saberes em palestras. Nas primeiras apresentações, a sócio fundadora da K&P Educação Executiva e idealizadora do curso “Bravo! Experiência de palestra sentia bastante medo de enfrentar o temido “branco” durante as falas. Depois de palestrar para um grupo de microempresárias, Kátia conseguiu, finalmente, se sentir à vontade em cima do palco. “Tudo mudou porque foi o dia em que percebi o quanto era importante passar informação útil para a audiência”, lembra. A bacharel em direito e em letras, com especializações em storytelling, design thinking e liderança, não gosta de usar slides na apresentação e, caso recorra ao recurso, utiliza apenas para exibição de imagens, sem texto. Ela aposta mais em vídeos e na conexão com os participantes. “Apesar de as minhas palestras serem de conteúdo, não motivacionais, ainda preciso que sejam inspiradoras”, define.

 

Habilidade importante

Coach, mentor e formador de palestrantes, Joel Ruocco defende que saber se comunicar bem, seja numa palestra, seja em outros contextos, ajuda a transparecer a competência de um trabalhador. “Todo mundo tem algum conhecimento útil — quem não o compartilha está desperdiçando. Além disso, não basta ser bom em algo se as pessoas não souberem disso”, alerta o fundador da escola ApresentArte. Silvia Noara Paladino, cofundadora da agência Essense, especializada em storytelling focada em líderes e formadores de opinião, concorda e alerta que a importância dessa habilidade não deve ser menosprezada. “Conseguir palestrar bem tem muito a ver com a capacidade de vender uma ideia e isso acaba sendo importante para todo mundo”, afirma a jornalista, especialista em escrita criativa pela Universidade da Califórnia, em Berkeley.

 

Para não errar

 

 

 

“Uma palestra precisa começar com um propósito que faça os olhos do palestrante brilharem, ou seja, o apresentador precisa acreditar no que diz”, define Silvia Noara Paladino. É necessária certa didática para explicar. Citar bons exemplos é uma boa saída. “Conceitos são abstratos e conseguir ilustrá-los é fundamental”, completa. É preciso compor o conteúdo da apresentação com encadeamento coerente de ideias, de modo que o público entenda o início, o meio e o fim. Segundo ela, a tentativa de cobrir assuntos muito abrangentes é um erro comum e resulta em falta de aprofundamento. Para Joel Ruocco, palestrante há mais de 20 anos, uma boa apresentação é composta de quatro pontos-chave: mensagem bem estruturada com informações hierarquizadas para deixar claro quais são as mais relevantes; bons recursos audiovisuais; técnicas de oratória e gestualidade; e controle emocional.


 

Nos dias de hoje, slides não são mais obrigatórios, mas caso sejam usados, precisam conter imagens que despertem sensações positivas. “O público assimila mais informações visualmente do que somente na forma verbal”, explica. De acordo com Silvia, recursos audiovisuais não são mandatórios e, se forem incluídos, precisam ser usados com critério. “Imagens, vídeos e textos não podem se sobrepor à fala da pessoa nem ser exatamente o que foi dito: esse tipo de material deve trazer informações novas e ter um propósito (não pode estar ali só para constar)”, observa.

 

Na visão do formador de palestrantes Joel Ruocco, sentimentos são tudo quando se trata de impactar o público. “Numa palestra, as pessoas não esperam somente obter conhecimentos, elas querem ter uma boa experiência enquanto o fazem.” Para chegar lá, nada melhor do que causar boas emoções na plateia. “Prestamos mais atenção quando percebemos que quem está do nosso lado está atento, sorrindo”, diz.

 

 

No entanto, Silvia deixa um alerta: o tom jocoso nem sempre funciona. Por isso, o humor precisa ser usado com parcimônia. “Quando não dá certo, é um caos”, justifica. Existem outras ferramentas além da comicidade para prender a atenção do público. De acordo com ele, fazer a plateia se identificar com o palestrante é o principal. “Se subir no palco é algo difícil para você, assumir essa vulnerabilidade e dizer que comete erros pode ajudar nessa aproximação. Inspiração nasce quando você é autêntico e verdadeiro. O público não vai criticar nem julgar se você for sincero, até mesmo admitindo que está nervoso”, destaca Silvia. Outro aspecto essencial para conseguir se conectar à audiência é adotar uma comunicação acessível, de modo que mesmo pessoas leigas no tema consigam entender. “Uma boa opção é ensaiar ou passar a apresentação diante de gente que desconhece o assunto, tanto para mensurar a capacidade de assimilação do público quanto para marcar o tempo que  vai gastar.”

 

Quando o problema é a timidez

 

 

 

O acanhamento é um estado que atrapalha a interação em diversas ocasiões da vida, agravando-se em situações de exposição perante muitas pessoas. Para os tímidos, a dica de Silvia Noara Paladino é apostar no planejamento. “No Brasil, muita gente faz palestra de forma improvisada, mas manter o eixo central da apresentação sem perder o fio da meada exige muita habilidade. Portanto, vale a pena passar o texto, preparar passo a passo o que será dito, de forma que você se sinta confiante o suficiente para se apresentar”, diz. “Timidez é um problema de comunicação consigo mesmo. É preciso entender o que está causando as questões e resolver isso internamente. A partir daí, a pessoa conseguirá passar informação para o público de maneira adequada.”

Vencer os medos
Foi no que apostou André Mafra, 39 anos. Ele é prova de que é possível reverter o quadro. Quem o vê ministrando aulas e palestras para grupos de até 120 pessoas na empresa de treinamentos da qual é dono há 18 anos, a Mafra Cursos Livres, não imagina que a timidez extrema, identificada na adolescência, o acompanhou por 25 anos. O traço atrapalhava a vida afetiva e também a profissional dele, que não conseguia se expor ou vender os próprios serviços, na época como técnico eletrônico. “Eu não tinha clareza ao expor minhas ideias e sempre falava com a voz muito baixa”, lembra. O embaraço era fruto de problemas de autoestima. “Busquei ajuda em muita coisa, como a literatura de autoajuda, em vão.”


A situação mudou com aulas de dança e ele participou de um curso do método DeRose (conjunto de técnicas focadas em qualidade de vida e alta performance, criadas pelo empresário e iogue brasileiro Luiz Sérgio Alvares DeRose). “A capacitação abordou controle emocional, respiração, meditação, flexibilidade e alongamento muscular — essenciais para a aquisição do autoconhecimento”, comenta. “Esse processo foi muito importante, porque passei a me sentir mais confiante e, assim, consegui me expor”, lembra.


A empolgação foi tamanha que André mudou de carreira e passou a ministrar treinamentos do método. “Aprendendo a me comunicar melhor, percebi como a timidez fechava portas para mim. O mundo, ainda mais o superconectado, é mais fácil para quem não é tímido”, pontua. Hoje, a exposição passou a ser algo natural: André fala em público com bastante frequência. A partir da experiência, enumera três pilares para uma boa palestra: “Domínio do assunto, controle emocional e projeção da voz”. A dica que ele deixa para tímidos que querem deixar os dias de inibição e sofrimento interno para trás é, simplesmente, se expor. “Comece numa mesa de amigos ou de familiares. Peça a palavra e tente lidar com a atenção de todos voltada para você. Aulas de dança, teatro e esportes em grupo também podem ajudar muito”, aconselha.

 

 

Três perguntas para

 

 

 

Davi Lopes
Palestrante, apresentador, mestre de cerimônia, locutor e formador de palestrantes. Ao longo da vida, foi gerente de acampamento educativo, estudou reiki, psicanálise, física quântica, inteligência emocional e atuou como
diretor de teatro

Qual o seu segredo para impactar o público?
Ser a mesma pessoa do dia a dia no palco é a principal regra. Subo no palco para amar, não para ser amado. Essa doação é uma habilidade ligada à empatia.

Qual a importância de conseguir se apresentar bem?
Comunicação é importante até para comprar pão na padaria ou para conquistar uma namorada. Meu objetivo no mundo corporativo é trabalhar a inteligência emocional e expandir a consciência dos funcionários das empresas por meio de palestras dinâmicas e cativantes

Quais são as características de um bom palestrante?
Palestra é uma costura que envolve o audiovisual, a postura do palestrante, a entrega da informação, a interação com o público, a luz e a música: é uma grande obra. Timing (momento certo, em inglês) é uma habilidade essencial: é a hora exata de fazer cada coisa pontuada pelo estado emocional do público. Depois do almoço, é melhor fazer uma palestra mais dinâmica, por exemplo, senão todo mundo vai dormir. Manter a atenção do público é fundamental. Conhecer o perfil das pessoas que vão assistir a apresentação também é necessário: o objetivo é abrir o público emocionalmente para causar a reflexão desejada. Quando a plateia for cheia de jovens, é bom apostar no humor e em atividades mais enérgicas. Presença de palco, carisma e saber o que é preciso transformar nas pessoas presentes são os últimos ingredientes para ter sucesso no palco.

 

 

 


*Estagiário sob supervisão de Ana Paula Lisboa