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O temporário mais requisitado do Natal

Atuar como Bom Velhinho não é tarefa fácil - há várias regras de etiqueta a serem seguidas, como manter a higiene pessoal, ser simpático e compreensivo, conseguir lidar bem com crianças e adultos -, mas vale a pena. Além de ganharem o reconhecimento do público, dá para fazer um bom pé-de-meia nesse tipo de vaga

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postado em 17/12/2017 13:58 / atualizado em 17/12/2017 14:29

O emprego do Papai Noel

 

Entre novembro e dezembro, senhores que trabalham ocupando a função de Bom Velhinho podem
voltar para casa com mais de R$ 12 mil no bolso. Para representar o personagem, a idade é uma vantagem competitiva. Por isso, há muitos aposentados que se dedicam à tarefa 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 

Telmo Ximenes/Divulgacao

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 

Giselle Andreolla/Divulgação

 

 

Em ruas, casas, shoppings e lojas de todo o Distrito Federal, sinais de que o Natal se aproxima estão por toda parte. Luzes, árvores, anjos, enfeites vermelhos e canções que povoam o imaginário popular fazem lembrar que o tempo de celebrar com entes queridos chegou. Para o cenário ficar completo, não pode faltar a figura de um Papai Noel em carne e osso. São contratações temporárias preenchidas por quem busca ali a renda complementar para o fim de ano. Desde novembro, senhores fazem da ocupação um bico ou um retorno ao trabalho, no caso de aposentados. Calma, paciência e gentileza fazem a diferença ao lidar com gente e cativar a criançada.


A rotina é intensa. Os shoppings de Brasília começaram a preparação para o Natal logo na primeira semana do mês passado, de olho nos últimos momentos de aquecimento do comércio do ano. Para encarnar o Bom Velhinho, é preciso trabalhar de 45 a 50 dias seguidos, faturando uma quantia diária que pode chegar a R$ 250 — ao fim da temporada, é possível voltar para casa com mais de R$ 12 mil no bolso. A jornada diária varia de seis a oito horas por dia e pode aumentar na semana de véspera. “A variedade de pessoas interessadas em ocupar a posição é grande. Vai desde atores até profissionais liberais das mais variadas áreas. De jovens a pessoas com mais idade, aposentadas”, afirma Jorge Occhiuzo, 63 anos, dono da Papai Noel Brasil, uma das poucas agências especializadas nesse tipo de trabalho no país.

 

 


Ele próprio passou a atuar como o personagem por acaso, preenchendo vaga que surgiu na agência de um amigo há três décadas. Fundada oficialmente em 2011, a empresa conta hoje com 120 pessoas no casting, atuantes em eventos que, conta ele, começam a ser solicitados desde o início do segundo semestre. “Em agosto, já tem quem nos procure e vou encaminhando os profissionais, administrando datas, horários e perfis. A orientação é incorporar o espírito natalino, ou seja, ser gentil e educado, saber lidar com crianças e adultos. É preciso ter paciência e muita boa vontade para encarar com ternura e gentileza a rotina puxada”, explica.

 

Impecável na atenção aos detalhes

Conheça histórias de profissionais que trabalham como papais noéis no DF

 

 

Telmo Ximenes/Divulgacao

 

 

Fernando Xavier, 72 anos, é o que se pode chamar de veterano na atividade. Há 17 natais, o goiano de Alexânia deixa a pequena cidade anualmente para morar na Asa Norte por quase dois meses, período em que fica diariamente no Brasília Shopping. “A princípio, é claro, todos nós entramos nessa situação pela questão financeira.

 

Procurava alguma coisa para fazer e complementar a renda da família”, conta o sargento da Marinha aposentado há 20 anos. Pai de três filhos, ele procurava trabalho numa agência de empregos quando perguntaram: “Quem aí tem barba e facilidade em lidar com crianças?” Procurando complemento financeiro que ajudasse na formação dos três filhos, Fernando Xavier não hesitou em levantar a mão. “Eles me disseram que, por eu estar ‘cheinho’, servia”, brinca o aposentado.


“Mas o Papai Noel original não era exatamente barrigudo. O que é necessário mesmo é ter caráter, dedicação, estar sempre no horário e alinhado. Você nunca vai chegar aqui e me pegar desprevenido: estou sempre com luvas impecáveis, roupa bem passada, cuido de tudo”, diz. Ele conta com dois jovens assistentes, que se revezam na organização das atividades, especialmente quando está sendo muito solicitado. Embora as roupas sejam fornecidas e lavadas pelo contratante, Fernando observa que há detalhes que ele faz questão de cuidar por si próprio, como ombreiras, luvas — tem 50 pares delas, sempre impecavelmente brancas — e a manga da camisa, na qual costurou um elástico para que os braços não fiquem à mostra quando ele acenar.


Esses detalhes fazem a diferença, garante. “Além disso, é claro, é necessário ser carismático e respeitar a história de cada um, sempre tratando todos muito bem.” Fernando Xavier encontra tempo para, nos intervalos das longas jornadas no shopping, fazer aparições em eventos e festas de família e, assim, ganhar mais um dinheirinho. “Não tem muita diferença de trabalho. As pessoas chegam, contam suas histórias e pedem para tirar foto. Às vezes, tem até mais adultos do que crianças. Há quem venha todo ano me ver, pergunta pela minha família. Tem gente que tirou foto comigo há 17 anos, quando ainda era criança, e volta com o filho para tirar selfie”, relata.

 

Sou Papai Noel pela segunda vez 

Conheça histórias de profissionais que trabalham como papais noéis no DF 

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

 

Papai Noel pelo segundo ano consecutivo, Edson Luiz Neri, 59, conta que sempre foi apaixonado pela roupa vermelha e pelos sentimentos que o Bom Velhinho desperta no público. Formado em matemática e pedagogia, hoje ele é consultor de desenvolvimento tecnológico e inovação. Em 2016, ficou sabendo de uma vaga, enviou fotos, currículo e, após grande triagem, conseguiu o espaço que desejava. Agora encontra tempo para, pelo segundo ano, conciliar as duas atividades. “Sigo em ambas. Trabalho pela manhã normalmente e, como Papai Noel, fico das 16h30 às 23h no ParkShopping. É cansativo, mas é possível levar.” A recompensa, garante Edson, vai além do campo financeiro.


“Ensina mais ao ser humano do que qualquer graduação que eu tenha feito. Para mim, é um sonho que vem sendo realizado. Sempre admirei quem faz trabalhos como esse, que considero nobre”, afirma. “Antes de iniciar, imaginava que fosse algo complexo, mas não tanto! Pois, além da disponibilidade de acolher gente de modo simpático, você precisa acolher desejos e esperanças de crianças e adultos, sendo um pouco psicólogo também”, compara. Passam por ele casos como o de um menino autista, cuja condição o tornava extremamente introvertido. Edson o atendeu com delicadeza e, ao oferecer um pirulito na despedida, o garoto, que não falava há tempos, disse: “Obrigado, Papai Noel”.


O momento foi marcante para a família. “Neste ano, a mãe retornou aqui e contou que ele, de lá pra cá, não emitiu mais nenhum som”, lamenta. Em outra ocasião, uma jovem o desconcertou ao pedir um pai de presente. “Entendi que ela devia passar por problemas na família e fui cuidadoso em aconselhar que ela tivesse fé, que tudo poderia melhorar.” Outro caso, mais alegre, foi quando Edson recebeu a neta, então com 3 anos, devidamente fantasiado. A menina olhou desconfiada, mas nada disse. Ao fim do expediente, quando encontrou o avô em trajes normais, disparou: “Vô, tinha um Papai Noel muito parecido com você”.

 

Na carreira por acaso

 

 

Giselle Andreolla/Divulgação

 


Olídio dos Santos Pereira, 60, precisou personificar o espírito natalino de repente. Um colega da mãe dele procurava, às pressas, alguém que fizesse o Papai Noel em uma festa, pois a pessoa que usualmente interpretava o personagem estava doente e não poderia mais cumprir o combinado. Olídio se ofereceu para a posição e, 27 anos depois, ainda segue fazendo o trabalho anualmente. “Fiquei surpreso com a oportunidade, mas estava desempregado à época e topei. Eu, que não tinha experiência alguma, aprendi subitamente como é cuidar de crianças”, relembra.


Atualmente, o morador de Sobradinho, dono de uma empresa de câmeras de segurança e cercas elétricas, deixa o posto provisoriamente nos meses de novembro e dezembro para ficar no Iguatemi Brasília. O sobrinho, sócio no empreendimento, assume de modo integral nesse período. Antes de sentar no trono de Papai Noel, Olídio chega com antecedência e, depois de se arrumar e preparar, um ritual com duração de 40 minutos, cumpre a rotina diária das 12h às 21h, com dois intervalos.


“Financeiramente, vale a pena deixar a empresa um pouco e me dedicar mais a isso. O mais importante é ter muito carinho e saber lidar com tranquilidade com as crianças. Tem todo um jeitinho”, afirma. Mais que prometer o pé da árvore repleto de presentes, a missão é levar paz e bons ensinamentos. “Para mim, o Natal significa muito, do ponto de vista pessoal e profissional. Dou e recebo bastante carinho de todos. Além disso, em relação às crianças, procuro dar bons conselhos sobre como é importante estudar e se comportar bem. Os pais adoram quando pontuo isso”, conta.

 

É preciso ser um bom ouvinte

 

 

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O curitibano Paulo Roberto Pietrobelle, 61, também é Papai Noel de segunda viagem. Ele conta que, buscando algo que complementasse a renda, chegou a procurar a profissão de taxista, mas viu que não era bem assim que desenvolveria os melhores resultados. A dica de um tio, que exerce a atividade há alguns anos na capital paranaense, veio bem a calhar. “No ano passado, deixei a barba crescer, fui a uma agência e uma semana depois estava empregado”, conta. Contratado, ele aportou em Brasília, onde atende pessoas diariamente no Pátio Brasil. “Dá para tirar um dinheirinho extra no fim do ano, é o meu décimo terceiro”, brinca. “Mas é muito mais do que isso. Nesse época, chega muita gente crescida querendo contar histórias de vida. Sabemos que é uma época de festa, mas também é de pensamento, reflexão. Aqui em Brasília penso mais na vida e, em cada criança, vejo um pouco do meu neto, que ficou lá no Paraná.”