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Vale a pena fazer uma segunda graduação?

Especialistas listam vantagens e desvantagens de começar outro curso superior. A dica é analisar bem o mercado e as suas aptidões e vontades, antes de entrar na faculdade novamente, para não perder tempo nem dinheiro ou se frustrar

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postado em 24/12/2017 15:13 / atualizado em 24/12/2017 15:19

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Após terminar a faculdade, conseguir emprego é sonho de quase todo recém-formado. O problema é que, com o desemprego em alta, pessoas iniciantes numa área de atuação têm mais dificuldades para serem contratadas. A situação se torna mais crítica se, depois de certo tempo da formatura, encontrar uma vaga continua sendo um desafio. Em outros casos, o obstáculo é se recolocar após uma demissão. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que a taxa de desemprego entre indivíduos com ensino superior completo aumentou cerca de 21% nos últimos anos. Diante de complicações no mercado de trabalho, há quem opte por fazer outra graduação e iniciar carreira diferente.



Mas será que é uma boa opção? Até que ponto vale a pena voltar aos bancos universitários? De acordo com Patrícia Pimentel, diretora de Marketing do Portal Bolsa de Estudos, quando uma formação complementa a outra, o candidato tem grandes possibilidades de se destacar dos demais em processos seletivos. “Se um jornalista também for formado em educação física e tentar uma vaga nas editorias de esporte ou saúde de um jornal, terá mais chances de ser contratado, pois terá mais domínio daquele assunto”, exemplifica. “Unir carreiras semelhantes pode ser um diferencial”, afirma. Foi essa a aposta de Maria Dara Ibiapina de Mesquita, 22 anos. Depois de se graduar em letras com habilitação em francês pela Universidade de Brasília (UnB), ela se matriculou na habilitação em português na mesma instituição.

A jovem acredita que as duas graduações farão com que o currículo dela se sobressaia. “A segunda faculdade aumenta o leque de competências de um profissional, que passa a ter mais oportunidades”, espera. Maria Dara ainda não conseguiu vaga na área de formação. No entanto, garante que o desemprego não foi o único motivo para iniciar a nova vida acadêmica: ela escolheu o segundo curso porque gosta de aprofundar o conhecimento em linguagens. “Ensino de língua estrangeira, revisão de textos, literatura... Tudo isso me atrai e acredito que uma nova faculdade vai me fazer entender mais esses temas.”

Moradora de Barreiras (BA), Fabíola Damasceno, 28, estudou áreas bem diferentes. Ela é bacharel em geografia pela Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob) e em direito pelo Instituto de Ensino Superior Unyhana. Ao terminar o ensino médio, ela queria entrar no ensino superior imediatamente. “Se eu esperasse muito para fazer graduação, perderia a vontade. Eu não tinha condições de pagar uma faculdade particular e passei no vestibular da universidade federal para cursar geografia. Não era o curso dos meus sonhos, mas queria entrar logo no ensino superior”, explica.

Pós ou faculdade?
Com MBA em gestão de pessoas e em gestão empresarial, Patrícia Pimentel observa, no entanto, que, quando existe dúvida sobre fazer novo curso superior ou uma pós-graduação, a segunda opção sai ganhando. Isso porque uma especialização ou mestrado se sai melhor no critério custo-benefício. “É mais proveitoso do que se arriscar numa nova formação acadêmica”, diz. Afinal, outro curso de ensino superior dura de três a quatro anos e, portanto, a pessoa pode perder certo tempo, já que algumas disciplinas não precisariam ser revistas. “A pós-graduação é mais valorizada pelo mercado e demanda menos tempo de estudo”, explica.

Para quem não quer se especializar, a dica é, antes de tentar uma nova vida profissional, analisar bem todas as possibilidades de emprego oferecidas na primeira área de formação. “O recomendável é fazer outro curso somente quando não há nenhuma oportunidade disponível”, destaca. Contrariando a opinião de Patrícia Pimentel, o coordenador do curso de gestão de recursos humanos do Centro Universitário Iesb, Ale Fall, destaca que nem sempre fazer especialização é melhor do que optar por uma segunda faculdade. “Se uma pessoa é formada em gestão de RH e tem pós em administração de empresas, terá dificuldade para encontrar emprego no ramo em que é especialista. Há corporações que pedem a expertise como graduação e não como especialização”, afirma.

Para ele, então, há dois pesos e duas medidas e tudo vai depender da situação da pessoa: “É necessário analisar o mercado, mas outra formação nunca é perda de tempo, pois quanto mais conhecimento, melhor”. Enfermeira formada pelo Instituto de Ensino Superior de Goiás (Iesgo) e odontóloga pela Universidade Paulista (Unip), Taymara Fernandes, 25, não quis fazer uma pós, que ela vê como limitada. Foi por isso que, depois de terminar a primeira faculdade, ingressou na segunda. “A especialização busca ensinar uma só área de atuação. A segunda faculdade traz, de forma bem mais ampla, novo campo de conhecimento”, afirma.

Taymara não se arrepende de ter feito os dois cursos, pois considera que um complementa o outro, uma vez que ambos são da área da saúde. “A enfermagem tem um vasto campo de atuação, como hospitais, clínicas e casas de idosos. Na odontologia, geralmente, os profissionais buscam o trabalho autônomo. Mesmo assim, acredito que uma auxilia a outra, pois tratam de um paciente. As duas faculdades ensinam os primeiros socorros, como cuidar, qual postura o profissional deve ter... Todo conhecimento vem para complementar a carreira”, completa.

A jovem entrou para o ensino superior aos 16 anos e se formou aos 21. Trabalhando há quatro anos como enfermeira num hospital particular de Brasília, ela tem procurado oportunidades para atuar como dentista. “Tenho algumas possibilidades de emprego nesta área, mas ainda não há nada combinado.” Taymara acredita que, na capital, as vagas na área de saúde não são tão escassas, pois tudo depende do nível de qualificação e da disponibilidade de quem está à procura de trabalho. “Um estudante que aproveita todas as oportunidades propostas pela universidade, como cursos extras e palestas, com certeza terá destaque.”

 

 

Falta de identificação 

 

 

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Os motivos que levam pessoas a tentarem uma nova carreira são muitos: ora porque não se identificam com o primeiro curso (e aceitam a vaga por pressão dos pais ou por conseguir bolsa de estudos na área), ora por não conseguirem oportunidades de trabalho ou até mesmo por se frustrarem com a primeira formação quando ainda estão em processo de formação. Para o coach Christian Barbosa, que dá palestras sobre desenvolvimento de carreiras, quando o estudante se arrepende da primeira graduação, ganha base para saber sobre qual será a outra faculdade pretendida. “Geralmente, o profissional descarta todas as faculdades relacionadas à primeira opção porque sabe que não tem afinidade ou facilidade com pontos específicos e isso facilita a escolha de uma carreira com a qual tenha mais intimidade”, explica.

Segundo Christian Barbosa, estudar áreas muito diferentes pode ser um equívoco e isso é resultado da ansiedade e da euforia. “Os estudantes querem entrar numa faculdade a qualquer custo, por isso, muitas vezes, fazem um curso com o qual não se identificam. Em diversos casos, isso gera frustração”, explica. A orientação do profissional é analisar as possibilidades de ingresso com calma e, se for necessário, dar um tempo a si mesmo para colocar as ideias no lugar, visto que muitos perdem tempo e dinheiro por causa de uma decisão errada.”A mineira Ana Aparecida dos Santos, 43, é exemplo disso: ela fez duas graduações, sem nunca trabalhar nas áreas de formação, e está partindo para a terceira. Ela construiu a vida acadêmica em São Paulo, onde se formou em letras com habilitação em português pela Universidade São Camilo em 2004. A intenção era voltar para a cidade natal, Vargem Grande do Rio Pardo (MG), e dar aulas para crianças.

“Sonhava em ajudar as pessoas de onde nasci”, afirma. Contudo, assim que terminou a graduação, Ana Aparecida e o marido montaram o próprio negócio e, com isso, a concretização do sonho teve de ser adiada. “A gente importa máquinas de costura e vende para confeccionistas e varejistas de São Paulo. O retorno financeiro é muito bom, então valeu a pena investir”, explica. Atuando como empresária, ela não procurou emprego na área de formação, tampouco voltou para a cidade natal, mas o sonho não havia morrido. Após alguns anos, Ana Aparecida decidiu fazer enfermagem e se matriculou na Faculdade Anhanguera para tentar a nova carreira profissional. “Eu me formei em 2010 com o objetivo de voltar para Vargem Grande e ajudar os moradores, cuidando da saúde deles”, relata.

Ela conta que na cidade mineira há mais ofertas de emprego para enfermeiros do que para professores. Entretanto, mais uma vez o sonho teve que ser adiado, já que ficou grávida, por isso, preferiu ficar em São Paulo a se arriscar numa nova vida profissional. “O futuro lá era incerto”, avalia. Sete anos depois, Ana Aparecida continua tocando o negócio de vendas de máquinas e afirma que os lucros continuam sendo altos. Hoje, o sonho de voltar para a cidade foi substituído por outro: “Quero fazer a terceira graduação. Vou cursar educação física”, conta. A escolha da nova formação é justificada pelo fato de que ela pretende trabalhar em academias como personal trainer. “Acredito que há muitas vagas de emprego nesse ramo.” Ela não almeja mais voltar para o interior.

Fabíola se tornou geógrafa, mas nunca procurou emprego na área. “Depois disso, comecei a trabalhar como auxiliar administrativo numa instituição de ensino e ganhei desconto para cursar direito, área que sempre quis”, conta. Ela se formou em 2016, mas continua trabalhando na mesma função. A pretensão de Fabíola, agora, é conseguir um emprego como advogada. “Essa área tem um mercado bem mais amplo aqui na minha cidade. Vou fazer especialização para diferenciar o meu currículo e acredito que assim vou ter êxito profissional”, conclui.

Motivos para

… fazer segunda graduação

Com duas faculdades, o profissional detém mais conhecimento em diversas áreas e, consequentemente, amplia o escopo de oportunidades em que pode ter êxito profissional e ganha mais chances de obter destaque no mercado de trabalho. Há chances de atuar em diferentes áreas numa mesma empresa e, dessa forma, haverá mais possibilidades para alcançar cargos de liderança. Há menos risco de desemprego.
Fonte: Ale Fall

… não fazer segunda graduação
Outra graduação não traz malefícios para a carreira de um profissional. Entretanto, é necessário analisar bem o mercado de trabalho antes de tomar qualquer decisão, sob o risco de investir tempo e dinheiro em algo que não será usado ou não dará retorno. Ninguém pode entrar numa faculdade apenas para ter o diploma de ensino superior: é preciso pensar no que fará com os conhecimentos adquiridos.
Fontes: Patrícia Pimentel,  Christian Barbosa e Ale Fall

Três perguntas para

Larriane Lopes /
Coach em holística e engenheira de produção

Fazer duas faculdades é visto com bons olhos pelos empregadores?
Primeiro é preciso analisar que um estudo não exclui o outro. Às vezes, você não vai aproveitar o conhecimento acadêmico, mas isso não é a única coisa que se aprende numa graduação. O estudo contínuo nos faz enxergar o mundo de um jeito diferente, ou seja, nos faz querer fazer um mundo melhor por meio do aprendizado. Geralmente, os empregadores analisam a postura do candidato. A pessoa que quer trabalhar numa empresa precisa mostrar para o contratante que é séria, responsável e de confiança. Essas são as principais características observadas.

O que é preciso ter em mente ao decidir mudar de carreira?
Antes de tudo, você precisa saber o porquê disso. É por causa da questão financeira? Então saiba que dinheiro não é a maior das satisfações de um profissional. Tem muita gente ganhando bem e, ainda assim, insatisfeita. Em outros casos, o problema é a vida pessoal. Tem muito trabalhador que enfrenta problemas particulares gravíssimos e isso interfere na profissão. Então, antes de iniciar uma nova carreira, o ideal é identificar o motivo e se realmente vale a pena começar tudo do zero.

Se um profissional iniciou nova carreira e obteve êxito, necessariamente, isso acontecerá com outra pessoa que tem a mesma pretensão?
Um caso é diferente do outro, não há uma fórmula padrão para falar se outra graduação atrapalha ou ajuda. É preciso fazer uma autoanálise e conhecer bem o mercado da primeira área de formação. Além disso, não é só iniciando a nova trajetória profissional que se consegue êxito. É preciso saber, também, se você aproveitou bem a primeira faculdade. As instituições oferecem cursos extracurriculares, estágios, projetos de iniciação científica... Tudo isso influencia na hora da contratação. Quem aproveita bem a graduação está mais propenso a se destacar no mercado.

 

Teste sua motivação

 

 

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Responda a estas perguntas antes de partir para a próxima

O coach Christian Barbosa elaborou um roteiro de perguntas que devem se respondidas antes de iniciar a segunda graduação. Ele ressalta que nenhuma atitude deve ser tomada sem análise sobre como está o mercado da nova área e sobre a vida pessoal de quem pretende mudar de área.

Existe demanda para a carreira que tenho em mente?
Há problemas por todo lado e para cada um deles pode haver uma solução pela qual as pessoas estejam dispostas a pagar. É preciso saber como está a demanda por profissionais do curso que você pretende iniciar. Quando identificamos as perspectivas de mercado, as chances de se frustrar novamente diminuem consideravelmente.

Estou preparado para começar tudo de novo?
Iniciar uma nova carreira demanda investimento de tempo e dinheiro. Ter recursos disponíveis neste momento é primordial. Analisar se você tem isso é fundamental antes de dar o primeiro passo rumo à segunda graduação.

Eu me vejo realizado atuando nessa área?
É sempre importante ressaltar que o nosso bem-estar deve sempre ocupar o primeiro lugar de nossas vidas. Pergunte a si mesmo quais são as motivações para começar a segunda carreira e identifique se a possibilidade de retorno te trará qualidade de vida. De nada adianta, por exemplo, exercer uma profissão que traga bom retorno financeiro e você não se identificar com ela.

 

 

 

*Estagiário sob supervisão de Ana Paula Lisboa