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Em geral, universitários encontram pouco estímulo e apoio para empreender. No DF, o cenário tem mudado, pelo menos na UnB, que ficou em oitavo lugar em ranking que mapeia a capacidade do ensino superior de transformar ideias de estudantes em microempresas inovadoras. Em 2016, a instituição estava na 18ª posição, o que revela que houve avanços

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postado em 07/01/2018 12:29 / atualizado em 07/01/2018 13:57

Empreendedorismo engatinha nas universidades

 

 

Ana Rayssa/Esp. CB/D.A. Press

 

 

Em comparação mundial, as instituições de ensino superior brasileiras apresentam poucas ações de estímulo à atividade empresarial. Em ranking internacional, a USP é a única que aparece. Em estudo nacional, a UnB subiu 10 posições desde a última edição do levantamento, ficando em oitavo lugar

 

Quando o assunto é empreendedorismo, as instituições de ensino superior do Brasil não apresentam desempenho satisfatório em comparação mundial. Em rankings universitários que levam em conta esse quesito, a presença brasileira ainda é incipiente. Na última classificação da revista inglesa Times Higher Education, referência no assunto, a Universidade de São Paulo (USP), instituição brasileira mais bem colocada e única a aparecer no rol, figura apenas na 250ª colocação. Nacionalmente, a Confederação Brasileira de Empresas Juniores (Brasil Júnior) elaborou a segunda edição do Índice de Universidades Empreendedoras, maior mapeamento de práticas de empreendedorismo do país. O índice coletou dados de 55 universidades brasileiras e ouviu  mais de 11.500 estudantes sobre o que eles pensam da abertura das instituições para o tema. O ranking geral é, pela segunda vez, liderado pela USP, com nota 7,26 pontos (a avaliação varia de 0 a 10). Em seguida, estão a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com nota 6,9 pontos; e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com 6,84 pontos. A Universidade de Brasília (UnB) aparece na oitava posição, com pontuação de 5,86.


“O índice é um projeto voluntário, que contou com a colaboração de embaixadores em cada instituição analisada. A coleta de dados desses participantes gera parâmetros gerais e a opinião coletada com os alunos alimenta indicadores específicos. Partimos da premissa de pensar as universidades como ecossistemas empreendedores”, explica Klynsmann Diogo Bagatini, coordenador geral da pesquisa. Ecossistema, explica ele, é um conceito que leva em consideração seis grandes indicadores: cultura empreendedora, inovação, extensão, infraestrutura, internacionalização e capital financeiro. Os três primeiros, análogos ao tripé educacional “ensino, pesquisa e extensão”, avaliam o que substancialmente influencia o empreendedorismo da faculdade. Os outros três medem os meios proporcionados pelas instituições para o protagonismo do mundo acadêmico junto ao terceiro setor. “Acredito que é uma discussão que está se fortalecendo aos poucos e o nosso trabalho surge no sentido de dar alguma base concreta à discussão. Na própria construção do índice, percebemos não haver, por parte das instituições, o cuidado ideal em manter, organizar e disponibilizar dados para a avaliação”, afirma Klynsmann.

 

Integração entre academia e sociedade

 

Guilherme Capanema, 20 anos, graduando em turismo e embaixador da Brasil Júnior na UnB, acredita que se faz necessária mudança geral de mentalidade para alavancar o empreendedorismo na instituição. “Apesar de estarmos rompendo essa barreira com inovação e criatividade, ainda existe uma cultura muito forte do funcionalismo público aqui. A burocracia que isso gera para coisas aparentemente simples é prejudicial para alcançarmos uma educação empreendedora”, diz. “Meu curso, por exemplo, trata muito das esferas governamental e acadêmica, mas apresenta poucas possibilidades de criação junto ao mercado privado”, avalia. Integrante da Polaris Jr., empresa júnior de consultoria turística, Capanema enxerga em trabalhos como os desenvolvidos pela organização elementos que merecem mais espaço dentro do dia a dia acadêmico. “Acredito que as graduações devem incluir mais disciplinas que estimulem o empreendedorismo, motivando os universitários a resolver os problemas que existirão quando se formarem e entrarem no mercado.”


Coordenador do projeto de extensão Dextra, citado no índice como caso de destaque em inovação pelo trabalho de capacitação de microempresários, Eduardo Souza Rodrigues também enxerga dificuldades em implantar uma cultura empreendedora local. “Ficamos um pouco atrás em Brasília, onde predomina certa zona de conforto social e econômica. Isso talvez se dê pela cultura da região. Empresas juniores e aceleradoras de negócios surgiram há pouco tempo e os universitários têm, aos poucos, enxergado melhor esse viés”, comenta. Ainda que concorde com os colegas, Gleyciane Reis, diretora administrativa e financeira do projeto Integrar, enxerga demanda por mudanças no DF. “Definitivamente, não temos uma tradição de educação empreendedora em Brasília, mas os jovens dessa geração estão inquietos frente ao que tem acontecido no mundo em relação aos modelos de trabalho”, avalia. “Existem iniciativas concretas na UnB e em faculdades particulares. Não se trata de criticar o funcionalismo público, de maneira alguma, ele também é importantíssimo para o país. O problema acontece quando as pessoas começam a acreditar que essa é a única alternativa”, aponta.

 

UnB sobe 10 posições em ranking

 

 

Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press

 

 

Referência no Centro-Oeste, a Universidade de Brasília ocupa a oitava posição no ranking geral da Brasil Júnior — 10 a menos que na primeira edição do estudo, em 2016, quando foi listada na 18ª classificação. No entanto, o levantamento também gerou classificações específicas. A instituição figura em oitavo lugar no quesito capital financeiro; no 10º, em extensão; no 11º, em internacionalização; e no 13º, em infraestrutura. Para Sanderson Cesar Macêdo Barbalho, diretor do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico (CDT/UnB), o resultado revela que a universidade vem retomando o crescimento nessa área. “Considero que é uma colocação boa, à medida que nós e aqueles à nossa frente temos traçado caminhos sem descontinuidade. Fizemos muitos eventos ao longo deste ano, reunindo mais de 2 mil estudantes ao todo. Penso que o resultado está muito vinculado a isso”, relata. “Levamos exitosas startups criadas por alunos ao público, estimulando o ecossistema de inovação. Os estudantes anseiam por isso”, avalia. Em quase três décadas de atividade no apoio do desenvolvimento tecnológico, a multincubadora abrigou cerca de 170 empresas e, atualmente, hospeda 25. Rafael Bitter, 24 anos, e Caio Vivan, 24, são jovens que procuraram, durante os anos na universidade, conhecimento e suporte para criação de uma empresa.


Participando do Movimento Empresa Júnior, os dois estudantes de relações internacionais encontraram na educação formacional o campo em que queriam desenvolver um trabalho. Dessa forma, nasceu a Enkrateia, grupo de facilitadores focado em realizar experiências intensas que abordem o subconsciente. A empresa foi incubada no CDT. “A educação informacional propõe absorção e sistematização de uma infinidade de informações. No nosso trabalho, formacional, o foco é outro: formar pessoas por meio de experiências com o poder do subconsciente. Utilizamos técnicas variadas, de neurolinguística à hipnose, de modo a ajudá-las a encontrar, em momentos de indecisão quanto à vida profissional e pessoal, o melhor caminho”, explica Rafael. Oferecendo cursos esporádicos e trabalhando junto a empresas juniores da UnB, como a Nutrir (nutrição), Engenet (engenharia de redes) e a Facto (de jornalismo), os jovens desenvolveram portfólio e hoje, como microempreendedores, buscam consolidar a atividade no mercado. “Hoje, sou quem sou e tenho o trabalho que amo graças às atividades de empreendedorismo na universidade, que me possibilitaram noções de responsabilidade, criatividade e poder de ação em contato com o mercado de trabalho. Aplicamos tudo o que vimos em teoria na faculdade na prática dentro de uma empresa.”

 

 

Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press

 

Parceria nos negócios

Foi no Laboratório de Inovação Tecnológica da UnB, ligado ao CDT, que Gabriel Andrade, 23, encontrou espaço para desenvolver a startup de gamificação Mad Pixel, que mantém com seis colegas. “Entrei em meu primeiro curso em 2012 e encontrei amigos que compartilhavam dos mesmos interesses que eu e buscavam disciplinas na universidade que tivessem conexão com o mundo dos games virtuais”, explica. Ele chegou a estudar parte do curso de ciências da computação na UnB e hoje é aluno de administração. Gabriel encontrou ainda fonte de inspiração em matérias que tratam, direta e indiretamente, de jogos, música e design. “Juntos, buscamos desenvolver nossos primeiros aplicativos, jogos e ferramentas de gamificação, que foram ganhando destaque em eventos regionais e nacionais. Logo, ainda dentro da universidade, fomos abordados por empresas querendo desenvolver jogos”, conta. Para o estudante, o meio acadêmico ainda engatinha na relação com o empreendedorismo. “O trabalho junto ao CDT nos possibilita contato com pesquisadores e progredir no desenvolvimento das ferramentas e produtos. Contudo, falta orientação no sentido de lançar um produto final e criar uma empresa”, afirma. “Mudei para o curso de administração justamente para conhecer um pouco melhor esse processo e colaborar dentro da startup de outra forma.”

 

Não basta ficar em sala de aula

 

 

 

 

 

Dos alunos que responderam ao Índice de Universidades Empreendedoras, 30% declararam nunca ter participado de projetos para além da sala de aula. Mais de 50% acreditam que a grade curricular do curso não proporciona espaço e flexibilidade para competências empreendedoras e 64% avaliam que as instituições de ensino superior não contribuem, de modo geral, para tal atividade. A falta de cultura empreendedora, acreditam os especialistas, fortalece a visão pessimista dos discentes.


“O sentimento que fica é de que os alunos ainda não conseguem mensurar a importância dos projetos de extensão. Existe uma preocupação muito grande em seguir o fluxo do curso e se formar rapidamente”, analisa Gleyciane Reis. Por parte dos docentes, segundo Eduardo Souza Rodrigues, também há necessidade de abraçar melhor essa cultura. A visão de certa “pureza intelectual” do acadêmico atrapalha. “O papel do ensino superior no desenvolvimento do país é enorme, especialmente em tempos de crise como este. Há divisão muito forte entre o ensino superior e o mundo dos negócios”, percebe.

 

 

 

 


“Nossos projetos de conclusão, por exemplo, são engavetados. Ainda estamos longe da tradição de, como ocorre nos Estados Unidos e em outros países, ver nas pesquisas possibilidades de startups”, afirma. “As empresas juniores são importantes para a conexão do mundo acadêmico com o empresário, oferecendo serviços com preço acessível. A universidade tem todo um aparato para gerar valor para a sociedade. Muitas das pesquisas não visam um produto final ou inovação, faltando aos docentes e discentes idealizar uma universidade cujo conhecimento é aplicado no mundo”, acrescenta Klynsmann Bagatini. “Estamos muito aquém do ideal. As faculdades formam pesquisadores que produzem artigos que poucas pessoas vão ler. Essa é uma barreira que precisa ser superada. Se temos toda a tecnologia avançada vinda de outros países é porque as universidades de lá estão incluídas no setor produtivo”, sintetiza Sanderson Macedo.