PERFIS DE SUCESSO - MARIA DIVINA DA LUZ BENEVENUTO »

De escrava a joalheira

Dos 8 aos 16, ela foi submetida a trabalhos forçados numa fazenda em Goiás. Após fugir para Brasília, foi doméstica, servente, dona de um bar e fez congelados antes de encontrar sua vocação: vender e consertar joias

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postado em 07/01/2018 13:05

 

 

“Gosto muito do que faço. Tanto que o tempo passa e nem vejo”, conta a joalheira Maria Divina da Luz Benevenuto, dona da banca Ouro & Prata Mil, na Feira Permanente do Cruzeiro Novo. Sempre com um sorriso no rosto, ela trabalha de terça a domingo, vendendo e consertando peças. O negócio foi aberto em 1997 e, aos 63 anos, ela não pensa em parar. Quem a vê atrás do balcão, feliz da vida, não imagina que Divina teve de enfrentar dificuldades e sofrimentos graves. Na infância e na adolescência, foi submetida a trabalho escravo numa fazenda em Orizona (GO). “Fui escrava branca. Eu já não tinha pai e, aos 8 anos, minha mãe faleceu. Eu não tinha para onde ir e uma senhora me pegou para trabalhar”, lembra. Na casa, fazia de tudo: limpava, lavava, cozinhava. “Eu estava sempre trabalhando, de dia e de noite. Outras pessoas tinham folga aos sábados, mas eu, não. Quando terminava as tarefas, a senhora me mandava à casa da sogra dela para trabalhar mais.”


Além do cansaço constante, ela sofreu com assédio. “O irmão dela me bolinava.” Foi a gota d’água. Farta da exploração, a goiana enxergou uma luz no fim do túnel: fugir. “Parentes da família passavam férias na fazenda e alguns me davam trocados quando iam embora porque eu lavava, passava, engraxava sapato para eles… Então fui juntando.” Certa feita, ouviu empregadas dizerem que Brasília era um bom lugar para se trabalhar, pois aqui as pessoas ganhavam dinheiro e tinham folga aos domingos. Resoluta, decidiu vir para a capital federal, na esperança de uma vida melhor. “No dia 6 de janeiro de 1968, peguei um pau-de-arara que passava na fazenda e fui embora. Saí escondida, sem falar com ninguém, fugi mesmo. Vim com a cara e a coragem e um saquinho de roupas.” Na época, ela tinha 16 anos.


Ao desembarcar na Rodoviária do Plano Piloto, sem conhecer nada nem ninguém, pegou orientações e andou até a W3 Sul. O objetivo: arrumar emprego como doméstica. “Estava chovendo forte e, na primeira casa em que bati, consegui trabalho. Uma senhora chamada Ana Maria me contratou. Ela tinha duas filhas pequenas, Cláudia e Flávia, e viu que eu tinha jeito com crianças, pois, na fazenda, eu cuidava de meninos de 4 e 2 anos desde pequena”, afirma. “O que pensei naquele dia foi: Deus existe. Pois eram pessoas maravilhosas e me colocaram na escola. Eu tinha meu salário e trabalhava com o maior prazer”, rememora. Na casa da família, ficou cerca de quatro anos, até se casar, quando foi morar no Cruzeiro. Depois do casamento, foi servente em escolas da rede pública por sete anos. Saiu para abrir um bar com o esposo, que era servidor da antiga Telebrasília. “Trabalhamos muito e ganhamos bastante dinheiro”, diz.


Divina acabou fechando o negócio, depois de sete anos, por ter entrado em depressão, quando os traumas emocionais do passado cobraram seu preço. Mas, com força de vontade, tomou de volta as rédeas da vida. “Eu ficava em casa cuidando dos filhos, mas não estava satisfeita. Sempre gostei de ter independência, então comecei a fazer congelados para vender.” Por fim, acabou se cansando da atividade e, após ouvir uma conversa enquanto andava de ônibus sobre o setor de joias, resolveu apostar nele. “Era algo de que eu gostava, não por ter, mas por achar bonito: na casa onde fui criada, eu via muitas e admirava”, relata. Divina começou o empreendimento com R$ 500, investidos num leilão para arrematar joias. A loja funcionou na Multifeira até 2013, quando mudou para a Feira Permanente do Cruzeiro Novo. No negócio próprio, além de vender peças, Divina faz reparos primorosos tanto em ornamentos valiosos quanto em bijuterias.

 

 

Antonio Cunha/CB/D.A. Press

 


“No início, eu apenas vendia e, quando precisava de manutenção, contratava, mas o serviço nunca ficava do jeito que eu queria”, comenta. Por isso, se matriculou num curso e, com a prática, se tornou expert no assunto. Trocar pedras, emendar correntes, soldar em ouro se tornaram atividades do dia a dia e vocação. “Gosto muito de restaurar. De repente, pego um anel todo amassadinho, todo morto. Aí coloco pedras novas e ele fica com outra cara. Faço com zelo mesmo”, diz, toda contente. Na crise, inclusive, os reparos se tornaram carro-chefe. “Na atual conjuntura, a gente faz de tudo. A situação ficou mais difícil porque as pessoas têm menos dinheiro”, observa. Como a maior parte dos clientes da banca são servidores públicos e aposentados, não à toa, o movimento é maior no local no início do mês, quando esse público recebe pagamento. Por dia, Divina atende até 20 pessoas.

Superação
Ao longo das duas décadas trabalhando como joalheira, as dificuldades enfrentadas, como roubos, calotes e prejuízos, foram muitas. Contudo, para quem passou por desafios muito maiores, a persistência se tornou natural e trouxe resultados. “Para mim, 2017 foi um ano ótimo. Não falta serviço de jeito nenhum”, comemora. Mãe de três filhos, de 41, 37 e 34, todos concursados, Divina se sente realizada tanto no trabalho quanto na vida pessoal. “Meu pai era separado e casou com outra. Todo homem que chegava na fazenda eu pensava que era meu pai que iria me buscar. Era a minha esperança, mas ele nunca apareceu. Eu sonhava em ter uma família e consegui isso depois de crescer. Consegui a família que não tinha quando criança.” Não foi fácil superar a morte da mãe, o abandono paterno e a exploração na fazenda. “Cheguei a fazer terapia. Antes, eu tinha raiva por ter trabalhado de graça e ter sido humilhada. Eu tinha pesadelos, sonhava que ainda estava lá”, desabafa.


A libertação final veio quando ela aprendeu a enxergar o lado bom das coisas, mesmo nas piores experiências. “Hoje vejo que, apesar de tudo, adquiri valores naquela fazenda: por exemplo, sempre fazer tudo benfeito foi algo que aprendi lá”. Divina diz que a situação também a forçou a ser observadora. Foi assim que, sem frequentar escola, aprendeu a ler e a calcular. “A senhora tomava tabuada dos filhos, ensinava palavras e, enquanto eu trabalhava, prestava atenção”, recorda. Por tudo que passou, Divina se sente “uma guerreira” e não poderia ter mais orgulho de, hoje, ser dona do próprio negócio. O segredo para conseguir superar as dificuldades? “Nunca desistir”, ensina. Sonhar também faz parte da receita porque ela ainda tem objetivos a alcançar. Com segundo grau incompleto, a goiana quer voltar para a escola e, depois, fazer faculdade de psicologia.