COMUNICAÇÃO »

O que falta para a mão de obra ser bilíngue?

A solução para melhorar a proficiência em inglês envolve políticas públicas, formação de professores e revisão metodológica. Contudo, trabalhadores precisam procurar instrução por conta própria, pois não há tempo para esperar mudanças estruturais nem capacitação da empresa

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 14/01/2018 16:15 / atualizado em 15/01/2018 15:39

Inglês é régua de corte

 

Seleções de emprego cobram o domínio do idioma como pré-requisito, no entanto, a mão de obra nacional, do nível operacional ao executivo, tem baixo desempenho na língua estrangeira, o que faz o país perder oportunidades de negócio. Em levantamento internacional sobre proficiência, o Brasil foi rebaixado e saiu do grupo das 40 nações com melhor desempenho.

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 

Se quiser ganhar projeção internacional, ter clientes e parceiros ao redor do globo e crescer mundialmente, uma empresa precisa ter mão de obra que fale inglês. Quando se trata de um país, a proficiência na língua está associada a maior competitividade econômica, desenvolvimento social, inovação, salários mais altos, qualidade de vida e investimento em pesquisa e desenvolvimento. Para se desenvolver, o Brasil e suas instituições ainda precisam correr bastante atrás do prejuízo, já que o domínio da população local nesse que se tornou um idioma universal é baixo. O diagnóstico é do Índice de Proficiência em Inglês (EPI, na sigla original) da EF (Education First) de 2017.

 

Na sétima edição do levantamento, o Brasil caiu uma posição em comparação com 2016, saindo do grupo dos 40 países mais bem colocados, apesar de ter tido pontuação ligeiramente maior. Em 2017, os brasileiros atingiram 51,92 pontos e, no ano anterior, 50,66. Há quatro anos, o desempenho dos tupiniquins permanece no nível de proficiência considerado baixo; em 2012, estávamos no quadrante muito baixo.


Se há uma boa notícia nisso tudo é que, nacionalmente, o Distrito Federal foi a unidade da Federação com melhor desempenho e Brasília, a cidade mais bem avaliada no estudo da EF. O ranking avalia, por meio de testes on-line, habilidades em gramática, leitura e compreensão. Mais de 1 milhão de adultos de 80 países participaram da pesquisa. Na América Latina, 10 pontos separam a Argentina, a melhor colocada no continente, de El Salvador, último colocado no grupo.

 

Uma das conclusões do relatório é de que a educação, como um todo, é o grande desafio da região, já que boa parte dos sul-americanos não têm nível básico de matemática ou sequer foram alfabetizados. No bloco, o Brasil ficou em quarto lugar em termos de proficiências, atrás de República Dominicana, Costa Rica e Argentina. Luciano Timm, responsável pela pesquisa no Brasil e vice-presidente da EF, empresa focada no ensino de idiomas, observa que, no nosso país, o problema é generalizado e independe de classe social. “Vai do operacional até executivos. Há grupos que fazem MBA nos Estados Unidos com tradução simultânea. São pessoas com boas condições que buscam formação de ponta lá fora, mas não conseguem fazê-la sem esse intermédio.”


Isabela Villas Boas, superintendente acadêmica da Casa Thomas Jefferson, tem ressalvas quanto ao levantamento da EF, mas concorda que a situação do Brasil é crítica. “A pesquisa é questionável em termos de metodologia porque a amostra é voluntária, mas, de qualquer forma, é verdade que o nível de proficiência dos brasileiros em inglês é muito aquém do de outros países, até emergentes. A EF tem os dados apenas de quem fez o teste dela. Então, a situação pode ser até pior do que a apontada”, explica.


Outros estudos também diagnosticaram contexto problemático: pesquisa do British Council revelou que só 5,1% dos brasileiros falam o idioma. Entre esses, 47% disseram ter nível básico na língua; 32%, intermediário; e 16%, avançado. A defasagem acarreta consequências graves, como observa Luciano Timm. “O domínio da língua inglesa afeta tudo: é fundamental para a economia, gera reflexos no mercado de trabalho, afeta a ciência (uma universidade precisa ter professores que publicaram em inglês para ser listada em rankings internacionais como relevante), as línguas de programação se baseiam no idioma, inovação acontece em inglês…”, elenca.

 

Dados cruzados
A conclusão é da análise da EF sobre a situação socioeconômica dos países e a correlação com a performance no teste linguístico.

Sonde seus conhecimentos
A prova de inglês padronizada é gratuita e está disponível em www.efset.org.

 

Exigência

No mercado de trabalho, inglês é régua de corte. “É requisito básico em muitas posições (especialmente as mais altas), mas, mesmo nas áreas que não pedem esse conhecimento, quem tem domínio da língua tem salário maior”, comenta Giselle Santos, coordenadora acadêmica da Cultura Inglesa. “A maior parte das empresas com processo de seleção estruturado pede esse conhecimento. Mas faltam executivos e profissionais fluentes”, afirma Luciano Timm, da EF. Para Felipe Arenhardt Tomaz, COO (executivo-chefe de operações) e cofundador da startup Configr, que fornece servidor para gerenciamento de sites, encontrar profissionais com bom domínio do idioma é um desafio.

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press
 

 

 

“É difícil encontrar mão de obra pronta por falta de incentivo do próprio país. As pessoas tomam ciência de que o inglês é muito necessário tardiamente”, diz o engenheiro de computação. Aos 25 anos, ele sentiu na pele a necessidade de aprender o idioma: terminou os estudos básicos na rede pública sem grandes conhecimentos em inglês e não tinha condições de fazer cursinho. “Precisei correr atrás, pesquisando, lendo, vendo filmes e séries”, conta.


A busca por esse conhecimento era mandatória, pois, na área de atuação de Felipe, o idioma é essencial. “Tudo gira em torno do inglês numa empresa de tecnologia”, comenta. Na Configr, esse conhecimento é necessário para fechar parcerias e, inclusive, conversar com colegas: a equipe de 16 pessoas faz reuniões diárias em inglês. “É para que a gente possa praticar”, explica Felipe. A estagiária Gabriela Guedes, 19, não teve dificuldades para participar das reuniões. “A startup visa a internacionalização, então é natural”, diz a estudante de engenharia de software da Universidade de Brasília (UnB).


Iniciativas como a da Configr, de promover reuniões no idioma estrangeiro, são muito válidas, já que a falta de prática, mesmo entre quem estudou a língua, é um problema. “Muitas empresas exigem inglês na porta de entrada, mas não usam no dia a dia. Daí quando o funcionário precisar utilizar o idioma, estará enferrujado”, comenta Rodrigo Bucollo, CEO da Best View. Apesar de positivas, atitudes de estímulo por parte das companhias são cada vez mais raras, como observa Luciano Timm. “Os trabalhadores terão de se atualizar com relação ao inglês e precisarão buscar isso por si próprios, já que as empresas têm cada vez menos tempo para investir na capacitação de empregados no Brasil”, avalia. Mas a questão não é simples. “A escola não é suficiente para a pessoa aprender e, para completar, a maior parte dos brasileiros não tem dinheiro para investir na segunda língua”, diz Bruno Herzog, coordenador pedagógico da My Target Idiomas, em Joinville.

Negócios perdidos

Segundo pesquisa da revista The Economist, 74% dos empresários brasileiros já perderam oportunidades de negócio pela falta de comunicação em língua estrangeira. De acordo com Bruno Herzog, se a mão de obra não domina outro idioma, também há prejuízos do ponto de vista de desenvolvimento pessoal e profissional. “Aprender uma segunda língua é essencial para se desenvolver frente a desafios e frustrações”, diz. “As companhias perdem ainda culturalmente: quem estudou outro idioma tem base diferente e traz soluções inovadoras.”

 

No caminho da mudança

“Se queremos ser competitivos, precisamos fazer com que entendam a importância de aumentar o nível de proficiência na língua. Mas como fazer isso se as provas e o ensino não valorizam a matéria?”, questiona o porta-voz da EF, Luciano Timm. “A estagnação do Brasil nisso reflete a falta de planejamento de políticas públicas sobre o assunto. Não podemos tratar o inglês como nada menos que fator estratégico para desenvolvimento”, decreta. O relatório cita como positivos os programas Ciência sem Fronteiras (que financiou 100 mil intercâmbios entre 2011 e 2015) e Idioma sem Fronteiras, criado em 2014 para preparar alunos de universidades federais para estudar fora. “Apesar de serem bons exemplos, o primeiro foi descontinuado. Além disso, o escopo de atuação de ambos é pequeno.”


As medidas também devem começar cedo. “É muito difícil consertar um gap de aprendizagem tão grande só na universidade. É preciso iniciar na primeira infância”, defende a superintendente acadêmica da Thomas Jefferson, Isabela Villas Boas. “Não adianta, porém, apenas implementar aulas da matéria: elas precisam ter carga horária que permita aprendizagem efetiva”, completa.


Marina Fontoura, CEO da Cultura Inglesa, pondera que não basta estender a quantidade de horas-aula sem gente qualificada para ensinar. “Sem bons professores, podem botar o tempo que for e não vai haver impacto. A formação deles deve ser prioridade”, diz. Rodrigo Bucollo, CEO da plataforma de cursos de inglês on-line Best View, está convencido de que “a baixa proficiência dos brasileiros em inglês é reflexo da metodologia” (ou da falta dela). Há muitas causas para isso. “Por um lado, pessoas que falam inglês, mas não têm formação pedagógica dão aulas em cursinhos; do mesmo modo, gente que fez letras (que salvo exceções, é um curso que não forma bons professores), mas sem capacidade de falar a língua trabalha em escolas”, observa. Outro problema é importar metodologias pasteurizadas de outros países que, não necessariamente, funcionarão aqui. “A falha principal é não gerar engajamento. Para isso, o educador deve trabalhar como um facilitar, dando feedback e guiando o aluno”, aponta.

 

 Inglês tecnológico

 

 

 

 

 

Para ajudar alunos a se interessarem e se encantarem pela língua inglesa, os cursinhos de mais atualizados têm buscado recursos diferenciados. Telas enormes, tablets, smartphones, óculos de realidade virtual, impressoras 3D, laboratórios e outros aparatos passam a fazer parte do dia a dia. Tudo para tornar o processo cativante para estudantes, sejam eles das novas (para as quais o formato de ensino que se baseia apenas no livro didático é ultrapassado) ou das antigas (público que percebe a importância de se adaptar à evolução digital) gerações. Entretanto, os recursos, por mais interessantes que sejam, só fazem sentido se forem usados com propósito didático.

 
“Tem que ter um cunho pedagógico. Não se usa por usar”, enfatiza Denise Fenelon, gerente da Cultura Spot, unidade da Cultura Inglesa inaugurada em outubro de 2017 no Plaza Norte, shopping na Entrequadra 110/111 Norte. A filial, com 1 mil m², tem, além de salas de aula comuns, espaços para o desenvolvimento de competências que vão além das linguísticas. Num deles, montado em parceria com a Google for Education (braço de educação da gigante de tecnologia), é possível fazer tours virtuais e interagir com pessoas em qualquer parte do mundo. Dois laboratórios (um gastronômico e um criativo), um anfiteatro (que ajuda a desenvolver a oratória) e um espaço lúdico multissensorial para crianças (que podem montar e desmontar blocos de espuma) completam o cenário que, por si só, desperta a curiosidade e a criatividade. “Isso dá um gás, um ânimo e evita que a rotina de vir à aula de inglês se torne cansativa”, aponta Denise. Trata-se da primeira escola do tipo na rede no país.

 

Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press

 

“Queremos mais do que formar alunos que falem inglês, temos a preocupação de formar cidadãos com habilidades importantes para o século 21, como criatividade e comunicação. Por meio da experiência vivencial, de botar a mão na massa, proporcionamos isso”, explica Marina Fontoura, CEO da Cultura Inglesa, rede de ensino com 83 anos de atuação que, em 2016, foi comprada pelo fundo de investimento em educação Gera Venture, que deu início a um processo de modernização na empresa (Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil em 2017 segundo ranking da revista Forbes, é um dos investidores). “A tecnologia é uma facilitadora, um fator aproximador que transforma o aprendizado em algo mais ágil e personalizado.

 

Vivemos uma era em que quase tudo acontece sob demanda, e essas inovaçõe ajudam a pedagogia a trazer o contexto de que o aluno precisa para aprender”, acredita Giselle Santos, coordenadora acadêmica da Cultura Inglesa. “A tecnologia agrega — e muito. Principalmente, no caso do público mais jovem, para quem esses recursos fazem parte da rotina. Para a parcela mais velha, é uma quebra de paradigma”, afirma Roberto Neves, professor de inglês.

 

Para dar sentido

 

Ana Paula Lisboa/CB/D.A Press

 

Uma novidade que veio com a Cultura Spot é a oferta de cursos temáticos. O workshop English learning labs: politics, ministrado em quatro aulas com uma hora e meia de duração cada, por exemplo, possibilita praticar inglês em situações relacionadas à política nacional e internacional e ampliar o vocabulário. Graduado em relações internacionais, Roberto foi um dos professores que ministrou a formação. “É tudo novo para mim também e foi uma experiência bastante rica. Toda a estrutura e as ferramentas diferentes engrandecem muito e ajudam a dar sentido para o que se faz em sala de aula, pois a gente se transporta para fora dela por meio da tecnologia”, comenta.


Na Casa Thomas Jefferson, inovações metodológicas também foram incorporadas ao dia a dia dos alunos. Por meio de aplicativo, estudantes têm acesso a vídeos, gravam áudios e recebem feedback de pronúncia. Há ainda cursos que envolvem culinária, projetos culturais, jogos e debates sobre filmes. O queridinho da rede é um laboratório, inaugurado em agosto de 2016 na unidade da 606 Norte, equipado com impressora 3D, máquinas de costura e cortadora a laser. O espaço é usado para ministrar cursos e oficinas. O método que vale ali é aprender fazendo. “Os novos recursos ajudam porque dão ao aluno mais opções de aprendizagem na escola e fora dela, mas não substituem a figura do professor, que tem de estar preparado para usar ferramentas atuais no processo”, afirma a superintendente acadêmica, Isabela Villas Boas.

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 
As ferramentas diferenciadas, em geral, segundo Isabela, são mais bem aproveitadas por crianças e jovens, que procuram aulas na rede, em muitos casos, visando trabalhar ou estudar fora, fazer intercâmbio, migrar… “Para essas oportunidades, não basta ter inglês macarrônico, de apenas saber se virar, pois o funil é grande. O nível de exigência é bastante alto”, aponta. “Os recursos diferentes tornam a aula muito mais interessante para um perfil como o meu”, percebe a aluna da escola Bárbara Costa, 29. Para ela, que é designer, o curso foi um jeito de retomar o aprendizado, já que começou um cursinho na 1ª série do ensino fundamental e terminou aos 14 anos.


“Só que nunca alcancei a fluência, então voltei a estudar, há dois anos”, conta a sócia da Oni Branding & Design. As viagens constantes foram a grande motivação. “É um incômodo não conseguir se comunicar lá fora”, diz. Colega de Bárbara, Alan Corrêa, 62, é só elogios para os recursos diferenciados: “Adoro!” Ele estuda na rede desde 2015. “Leio muitos artigos em inglês por causa da minha profissão, mas não falava nada”, relata o analista de sistemas do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados). A partir das aulas, percebeu, inclusive, melhora de performance no trabalho.

*A jornalista participou do workshop English learning labs: politics, a convite da Cultura Inglesa