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Porteiro virtual

Entre as profissões que podem ser substituídas por aparatos digitais está a de quem monitora a entrada de visitantes em prédios, principalmente residenciais. Há condomínios em Brasília que trocaram o funcionário por assistência remota e interfones modernos

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postado em 04/02/2018 15:36 / atualizado em 11/02/2018 17:01

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 

 

O desenvolvimento cada vez mais acelerado de tecnologias, além de colocar em cheque algumas profissões — principalmente as que incluem processos repetitivos que tendem a passar a ser executados por robôs —, pode gerar dilemas cotidianos sobre aderir ou não a determinada novidade. As mudanças podem trazer impactos profundos para instituições que deixarem de ter um ser humano cuidando presencialmente de determinadas tarefas. A questão sai da esfera de fábricas e empresas e chega também a condomínios. Existem prédios que eliminaram a função do porteiro, passando a contar com um interfone moderno, com câmera, de modo que somente os próprios moradores possam permitir a entrada de alguém ao edifício.


“Um funcionário que tem apenas o papel de controle de acesso facilmente poderá ser substituído por recursos cognitivos com reconhecimento de imagem”, afirma Ronaldo Cavalheri, engenheiro civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e diretor-geral do Centro Europeu, instituição de ensino com foco em economia criativa. Ele pondera, no entanto, que, se esse profissional “tem um papel mais voltado para hospitalidade e receber bem as pessoas, ainda será importante”. Em muitos prédios, porém, esse não é o caso.

 

“Cansamos de ver porta aberta e porteiro dormindo”, desabafa Alessandro Bezerra, síndico do Residencial Águas de Manairo, em Águas Claras, onde foi implementado um sistema de portaria remota há um ano. “Havia alguns moradores contrários à troca do sistema, mas, hoje, as reclamações são quase nulas”, comenta. Antes, eram quatro porteiros no edifício. Hoje, o residencial emprega apenas um encarregado responsável por realocar cartas, fazer check-list e estar atento em caso de eventuais problemas. Por meio de monitoramento a distância do circuito de câmeras, uma equipe fiscaliza a movimentação do local, atende interfone, controla entrada e saída e contata o morador onde ele estiver. Os condôminos têm liberdade para entrar no espaço utilizando uma chave com codificação e os visitantes podem ter acesso ao local por meio de QR Code, (código lido por celular) enviado por proprietários.

Com a mudança, porteiros foram demitidos e vigilantes a distância, contratados. “Assim, temos uma área segura na qual só entra quem é credenciado”, explica o sócio-proprietário da Porter Portaria Remota, Douglas José de Oliveira, para quem a idade dos moradores não justifica o temor em aderir à tecnologia. A empresa coordenada por ele fornece serviço de portaria remota. Segundo ele, residentes dos 21 condomínios para os quais a Porter trabalham não tiveram problemas para se adaptar. “Tem muito idoso antenado. ‘Velho’ é o cara de 30 anos, bloqueado, cético, que se fecha às ferramentas recentes e às tendências de mercado”, defende.

 

Debate polêmico

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 

 

Moradores do condomínio Portal da Liberdade, em Águas Claras se depararam com esse dilema recentemente. O síndico, Eduardo Dória, 48 anos, propôs aos condôminos substituir o porteiro por tecnologia remota. Segundo ele, a tecnologia necessária, além de ajudar a aprimorar a segurança, não geraria custos extras e a tendência seria ainda cortar gastos ao longo dos anos, já que não seria preciso arcar com o salário de um trabalhador. “É um movimento de mercado por causa da redução de custo de pessoal, que envolve férias, décimo terceiro, rescisão contratual e uma série de valores agregados”, explica. Antes de levar a discussão aos condôminos, Eduardo pesquisou bastante. “Olhei vantagens e desvantagens”, relata. Apesar dos esforços, os moradores decidiram, em assembleia, por manter o profissional de carne e osso. Na visão de Eduardo, o resultado é fruto do receio que as pessoas têm de inovações. “O pessoal tem medo do novo, da mudança”, completa.

“Na época, fiquei pronto para sair e procurar outra coisa”, conta o porteiro do edifício, Flávio Alexandrino, 39, sobre o período de debate a respeito de aderir ou não ao aparato remoto. Ele fez curso técnico em administração durante o ensino médio e pretende fazer uma faculdade, ainda mais diante da possibilidade de a função dele sumir. “É preciso se reinventar e procurar estudar para não ficar sem emprego”, acredita. “Procuro sempre aprender a mexer em novas tecnologias, senão ficaria parado no tempo”, diz. Flávio defende que a função executada por ele é importante, pois o profissional da área pode agir imediatamente em casos de risco. “A gente precisa tomar atitudes muito rápidas para intervir em situações de perigo.” Além de a presença dele intimidar criminosos, o bastão para confrontos que carrega ajuda a inibir conflitos. “Eu trabalho com um cassetete que nunca precisei utilizar, mas, em algumas circunstâncias, deixei mais perto. Quando aparece alguém embriagado ou suspeito rondando o prédio, já me preparo”, relata.

Visão sindical

 

 

Lanna Silveira/Esp.CB/D.A Press

 

 

José Geraldo Pimentel, presidente do Sindicato dos Condomínios Residenciais e Comerciais do Distrito Federal (Sindicondomínio), defende a portaria tradicional. “A máquina jamais deve substituir o homem. Devemos ter a consciência de que nós precisamos ter bons prestadores de serviço, eles são fundamentais. Sou o defensor número um de que a relação humana deve ser preservada nas comodidades”, afirma. Apesar disso, ele acredita que a mudança será tendência nos próximos anos. No entendimento de Pimentel, a presença do porteiro inibe invasores. “Se não houver o sistema de ronda presencial, o morador será colocado numa linha de desconforto. A resolução de um problema levará horas”, completa.

 

 

 

 

*Estagiário sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa