ENTREVISTA JOSÉ GALLÓ »

Presidente da Renner, José Galló, lança o livro O poder do encantamento

O diretor da rede varejista conta, em livro, os percalços pelos quais passou e as lições aprendidas no meio do caminho para tornar a empresa numa companhia com valor de mercado avaliado em US$ 6 bilhões

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postado em 11/02/2018 17:47 / atualizado em 12/02/2018 18:33

Jefferson Bernardes / Agência Preview

 

 

De origem italiana e neto de empreendedor, considerado por ele, nato, José Galló, 66 anos, diretor-presidente das lojas Renner, se destaca no meio varejista. Área essa em que atua há mais de 30 anos. Natural de Galópolis, na Serra Gaúcha, ficou órfão de pai aos 2 anos e foi criado pela mãe, Antonia, que o incentivou, desde pequeno, a ter espírito de liderança. Isso o motivou a cursar administração na Fundação Getulio Vargas (FGV). Depois de formado, trabalhou em algumas empresas até entrar para a Renner, em 1991, como superintendente. Na época, a empresa tinha oito lojas, 800 colaboradores e valor de mercado de menos de US$ 1 milhão. Sob o comando de Galló, o empreendimento se tornou uma das maiores varejistas de moda do Brasil, com 480 unidades no país e passando por processo de expansão para o exterior. É essa jornada que o gaúcho descreve no livro O poder do encantamento. A paixão, o foco, a persistência e a inquietação são algumas das características citadas como essenciais para formar um bom líder.



O que o motivou a escrever um livro contando sua história?
Eu vim para a Renner para fazer a virada da empresa. Depois ,ela foi vendida para uma subsidiária de uma loja de departamentos dos Estados Unidos. Foram várias mudanças que me fizeram ter uma grande experiência. E, poxa, por que não distribuir isso para as pessoas? Mostrar para elas toda essa bagagem. Principalmente, mostrando o processo de tomada de decisão e sacrifícios, coisas das que tive de abrir mão. Eu tinha o objetivo de proporcionar uma leitura agradável, que eu entendo que é começar a ler e não parar mais. Vendi mais de 10 mil exemplares e estamos indo para a terceira edição. Estou muito satisfeito com o retorno que tenho recebido. Um dia desses, estava em São Paulo e um senhor veio falar comigo: “Adorei o seu livro e dei para o meu filho porque ele está em início de carreira”. Não tem nada mais maravilhoso do que poder ajudar alguém. Isso me deixa muito feliz.

Qual o público-alvo do livro?
Confesso que pensei muito nos jovens. A minha intenção é ajudar pessoas a acharem suas carreiras e paixões e perceberem a importância de persistência, disciplina, errar e aprender.

O que despertou seu interesse pelo varejo?
Minha carreira sempre foi nessa área, desde meu primeiro estágio. E isso é excepcional: dos meus 40 colegas de turma da faculdade, nenhum está no varejo. Estou nesse ramo por ter paixão por ele. Se não fosse assim, eu não teria conseguido chegar aonde cheguei porque aconteceram muitas viradas de jogo, muitas situações extremamente difíceis e complicadas, ciclos diferenciados. A proximidade com o consumidor, o dinamismo e a velocidade com que as coisas acontecem despertam meu interesse. No varejo, a gente faz uma alteração em uma política de preços e, praticamente no outro dia, o resultado aparece. Na indústria, os ciclos são mais demorados.

Para conseguir sucesso em um ramo, é necessário trilhar a carreira toda nele, como
 foi o seu caso?

Nada é essencial, o importante é achar o que gosta. E se você mudar de gosto, vá atrás do que o faz feliz. Agora,se você encontra um grande amor, não tem porque abandoná-lo. Invista nessa grande paixão.

Qual foi o diferencial que fez você trilhar uma trajetória tão exitosa?
A primeira coisa foi a paixão. Acho que ninguém faz nada bem fazendo o que não gosta. Então você tem que descobrir qual seu propósito pessoal. Não é fácil fazer isso. Eu tive coragem de experimentar algumas coisas e entender o que eu não queria. É preciso tentar e, se não der certo, mudar. E quando você achar seu caminho, será necessário ainda ter obstinação, persistência, sempre querer melhorar, se esforçar, se atualizar. Eu sou muito insaciável em termos de informação. Desde o início da minha carreira, eu ia uma vez ao ano para os Estados Unidos para ver tudo de varejo lá. Não só na minha área de negócios: eu queria ver o que acontecia em todos os tipos de lojas. E fazia isso, como eu ainda faço, com o máximo de prazer.

Boa parte das empresas brasileiras fecham em estágio inicial. Saber lidar com desafios
é a capacidade que falta aos empresários brasileiros?

Sim. Eu pontuo muito essa questão do empreendedorismo no meu livro. Tem pessoas que dizem “eu tive uma ideia” e acham que isso é suficiente para ter sucesso, mas não é. Você tem que concretizar esse projeto e precisa ter mínima noção de gestão. Poucas coisas dão certo como foram projetadas na primeira vez. Diante de dificuldades e erros, pense: “Falhei, que coisa maravilhosa! O que foi que eu aprendi com isso?” Eu acho que qualquer empreendedor tem que ver no fracasso uma oportunidade de aprendizado.

O que você ainda deseja conquistar?
Acho que sempre tem algum lugar melhor aonde chegar. O mundo passa por transformações enormes em alta velocidade, estamos mergulhando numa economia bem mais digital, uma era de muitas tecnologias, quebras de paradigmas, novas formas de fazer as coisas... Isso afeta a todos, jovens e velhos. Mas qual é a atitude que eu posso ter diante disso? A primeira opção é adotar a política da avestruz e enterrar a cabeça na areia. A segunda é se maravilhar com as novidades, se redescobrir, se motivar. Eu adoto a segunda alternativa e até rejuvenesço acompanhando tantas coisas boas acontecendo.

Como você relata no livro, a Renner passou muito bem pela crise. Qual o segredo para isso?
A crise é um grande teste para ver se você tem uma proposta de valores e se tem uma empresa competitiva. Quem não tem essa proposta diferenciada fica pelo caminho. Quem diz isso é o consumidor. No momento de crise, as pessoas se tornam mais exigentes, quem encanta os clientes vai para a frente.

Qualquer pessoa pode chegar aonde o senhor chegou?
Todos nós temos potencial. É uma dádiva que a gente recebe quando nasce. Só que, infelizmente, 90% das pessoas passam por essa vida e só aproveitam 10% do potencial. Isso é uma tristeza e um desperdício. Digo mais, hoje, são 19 mil colaboradores aqui na Renner, e a minha missão maior é fazer com que cada um deles use o máximo possível do seu potencial. Mas essa decisão é do indivíduo.

 

 

Leia

O poder do encantamento — As lições do executivo que, partindo de oito lojas,
transformou a Renner em uma empresa de bilhões
de dólares
Autor: José Galló
Editora: Planeta
Estratégia
254 páginas
R$ 37,90

 

 

 

 

 

 

 

 

*Estagiária sob a supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa