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Correio Braziliense

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Suposta imprudência é apurada

Para o delegado responsável pelas investigações, o motorista do ônibus escolar tentou transpor o alagamento sem ter condições para isso. Se a hipótese ficar comprovada, ele poderá responder por homicídio culposo

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postado em 10/10/2013 18:48 / atualizado em 10/10/2013 19:21

Amanda Maia , Gabriella Furquim

Breno Fortes/CB/D.A Press
Em meio ao drama das famílias, uma pergunta continua sem resposta: como um ônibus escolar entra em um viaduto alagado e fica submerso em poucos minutos? Para a polícia, uma falha mecânica está praticamente descartada. Os investigadores esperam apurar, com o depoimento dos alunos, se houve imprudência do condutor. Militares que fizeram o resgate tiveram de nadar até as crianças, que contaram apenas com uma saída de ar no teto para deixar o veículo.

Mauro Leite, delegado-chefe da 15ª Delegacia de Polícia, responsável pelo caso, colheu um depoimento preliminar do condutor do veículo na noite do acidente. “O motorista disse que estava chovendo e que ele tentou transpor um pequeno alagamento, na altura do meio-fio. Ele diminuiu a marcha e o carro apagou no caminho. A água começou a invadir o ônibus, subiu muito rápido, e eles não conseguiram tirar todas as crianças”, relata. O investigador reconhece que o inquérito é prioridade, mas acredita que não deve ser concluído em 30 dias devido à necessidade de obter todos os laudos e colher os depoimentos de quem estava no transporte escolar.

A partir daí, o delegado-chefe acredita que terá condições de apontar uma possível responsabilidade do condutor. “Quando ele se compromete a levar as crianças, é para levar com segurança até o local de destino. Se ele faz isso de forma inadequada, eu entendo que agiu com imprudência. O comportamento dele, nessa hora, é decisivo. Ele tentou transpor um alagamento sem ter condições para isso”, argumenta Leite. Se comprovada a irresponsabilidade, o condutor pode ser indiciado por homicídio culposo (sem intenção de matar), crime com pena de detenção de 2 a 4 anos.

Professor do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Brasília, o especialista Dickran Berberian destaca que as causas da tragédia se repetem em toda época de chuva. “São os problemas de manutenção da rede de drenagem pluvial, a insuficiência de pontos de escoamento e a impermeabilização do solo. No caso do viaduto, ele está topograficamente bem abaixo do mínimo adequado para a região. Não se pode deixar de citar a falta de educação da população”, critica.

Socorro

Quando o Corpo de Bombeiros chegou ao local da tragédia, havia algumas crianças do lado de fora, outras em cima do teto e dentro do coletivo. “Nós usamos uma escada para acessar o ônibus e retirar aquelas que estavam lá ainda. Infelizmente, só dava para sair uma de cada vez na parte de cima do teto, e isso retarda o socorro”, explicou o coronel Góes. Cerca de 25 militares participaram da ação.

A saída de ar por onde as crianças eram resgatadas, próxima ao banco do motorista, é pequena. Além disso, o coronel destaca outras dificuldades, como o acesso dos bombeiros ter sido feito a nado e o fato de o ônibus estar dentro de um viaduto, sem espaço para estacionar as viaturas em um ponto próximo. “São obstáculos intransponíveis, Não teríamos vencido com maior aparato ou planejamento. Não havia como melhorar essa situação. Se tivéssemos mais escadas ou mais pessoal, ainda assim, as crianças sairiam uma a uma de dentro do ônibus.”

Desespero
O estado em que ficou o ônibus evidencia os momentos de desespero dos pequenos. Há lama até no teto do veículo da empresa Rodoeste Transportes e Turismo LTDA, contratada pela Secretaria de Educação para fazer o transporte de estudantes na região de Ceilândia. Ao observar o coletivo por dentro, é possível notar que apenas a parte dianteira não foi completamente tomada pela água.

No piso, um sapato de criança, folhas, restos de cadernos, barro, garrafas vazias e lixo arrastado pela enxurrada para dentro do veículo que carregava os estudantes de volta para casa. Em diversas cadeiras, os cintos de segurança continuavam afivelados, fator que teria complicado o resgate de Geovana. De acordo com a Secretaria de Educação, o veículo envolvido no acidente é de 2008.

Por fora, o ônibus verde, placa CSK-5428 (Brasília-DF), aparenta bom estado. Os pneus estavam em condições adequadas de uso, assim como as cadeiras. O painel do veículo é moderno e conservado. A Secretaria informou, por nota, que o contrato com a empresa tem validade até fevereiro de 2014. A Rodoeste Transportes apresentou toda a documentação dos veículos, bem como a qualificação dos profissionais que trabalhariam no transporte das crianças. A nota ainda informa que a pasta aguarda o resultado da perícia para tomar as providências necessárias.


Palavra de especialista
Carlos Vieira/CB/D.A Press

Bueiros subdimensionados


“Os problemas de manutenção da rede de drenagem pluvial, a insuficiência de pontos de escoamento e a impermeabilização do solo contribuem para esses alagamentos. Não se pode deixar de citar a falta de educação da população, que descarta lixo, garrafas PET e sacos plásticos de forma inadequada nas ruas. Esse material obstrui o sistema de drenagem. Esta região (de Ceilândia) tem muito concreto, muito cimento e podemos verificar o avanço das construções para a calçada. Isso reduz a infiltração da água da chuva. No caso do viaduto, ele está topograficamente bem abaixo do mínimo adequado para a região. Posso arriscar que ele deveria ser, pelo menos, oito metros acima do que está. A linha do metrô causou esse desnível exagerado, mas isso é normal. É o que acontece em obras dessa natureza e é perfeitamente contornável. O que não é normal é ter uma rede de drenagem que não funciona. As bocas de lobo estão em número suficiente, mas subdimensionadas. Elas deveriam ser maiores, uma vez que a água se concentra toda na parte de baixo do viaduto. É preciso verificar se não há obstruções na rede de drenagem, porque, se a água regurgitou, deve haver lixo em pontos mais avançados.”

"Sinto que falhei porque ela não sobreviveu"
Carlos Vieira CB/D.A Press

Terça-feira era um dia de folga para o sargento da Polícia Militar Etelmo Sousa Rodrigues, 44 anos. Ele tomava café numa padaria próxima à QNN 5/7, por volta das 18h. Uma criança entrou assustada, chorando tanto que nem conseguia pedir ajuda. Quando a fala finalmente saiu, traduziu um pedido de socorro de dezenas de crianças que se afogavam dentro de um ônibus escolar inundado sob um viaduto nas proximidades. Sob chuva intensa, o policial correu cerca de 250 metros até chegar ao local do incidente. Encontrou estudantes de ensino fundamental no teto do veículo, já completamente tomado pela água. Faltava alguém. Era Geovana Moraes Oliveira, 6 anos.

Etelmo, servidor há 22 anos do Batalhão Escolar da PM, caiu na água. Nadou até o ônibus e, depois, entrou na carcaça inundada e escura do coletivo na tentativa de resgatar a menina. Tentou uma, duas, três vezes. Tateando, encontrou o corpo de Geovana. “Ela estava presa a alguma coisa. Fiz uma força e puxei. Aí, ela se soltou e consegui tirá-la de dentro”, contou o sargento. A pequena aluna do 1º ano da Escola Classe 8 já não respirava. Etelmo massageou o coração, fez respiração boca a boca até o Corpo de Bombeiros chegar e removê-la ao hospital, onde ela sofreu outra parada cardíaca e morreu.

“O desespero é muito grande. Já vivi muita coisa na Polícia Militar, mas essa ocorrência me marcou demais. A primeira coisa que pensei foi nos meus filhos (Matheus, 18 anos, e Gabriel, 5). Sinto que falhei porque ela não sobreviveu”, desabafou Etelmo. O policial se encontrou com os pais de Geovana. “Meu coração apertou. Fiz o que pude, mas não foi suficiente”, lamentou. Na hora de entrar no ônibus, ele bateu a costela e ficou com uma luxação, mas passa bem e deve ficar mais dois dias de atestado.

Piauiense de Parnaíba, município de quase 150 mil habitantes, Etelmo sempre quis ser policial. A admiração pela profissão veio ainda criança, por conta dos desfiles de Sete de Setembro. O sonho teve início quando ele foi à escola pela primeira vez, aos 10 anos, logo após a família trocar o sertão pela capital brasileira. Mesmo começando tarde, Etelmo concluiu o ensino médio, fez curso técnico em segurança pública e passou em concurso da Polícia Militar.

PM o tempo todo
A farda, para ele, é um símbolo do compromisso com a proteção da sociedade. “Sou policial 24 horas por dia, estando em serviço ou não. Sei como as pessoas são carentes de segurança”, afirmou. Lotado desde sempre no Batalhão Escolar, ele faz rondas principalmente em Ceilândia, no Setor O e na Espansão do Setor O. Mas vai onde chamam, na verdade. Mora por ali, de aluguel na sobreloja de um comércio. Faz tempo que se inscreveu em um programa habitacional do governo, mas nunca teve a chance de comprar a casa própria.

A imagem de Etelmo tentando reanimar a criança esteve por todos os cantos. “Você viu o meu pai salvando a menina?”, perguntou Gabriel, agarrado na mochila, pouco antes de ir para escola. A reportagem pergunta o que o filho do policial achou da atuação do pai. “Ele ‘tava’ fazendo só o serviço dele”, sorriu o menino.
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