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Talento brasileiro e experiência internacional

O Programa Ciência sem Fronteiras forma doutores com o objetivo de colocar o Brasil no mapa mundial da pesquisa científica. Vivência no exterior pode ser crucial para o ingresso dos profissionais no mercado de trabalho

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postado em 04/05/2014 11:11 / atualizado em 04/05/2014 11:13

Paula Rafiza

Contar com pós-graduação, especialização, mestrado ou doutorado no currículo representa diferencial na luta por uma posição no mercado de trabalho. O Programa Ciência sem Fronteiras (CsF) tem oferecido essa oportunidade a quem já se formou nas áreas de engenharia, tecnologia, biologia e saúde, e os primeiros profissionais já começam a voltar e a disputar um emprego.

De acordo com o Painel de Controle do Ciência sem Fronteiras, desde a criação do programa, em 2011, até o fim de março deste ano, já foram implementadas mais de 8 mil bolsas para cursos de doutorado pleno e sanduíche nessas áreas, e a meta até o fim o programa é que sejam concedidas 15 mil bolsas para doutorado sanduíche e 4,5 mil para doutorado pleno. No Distrito Federal, por exemplo, mais de 200 estudantes, principalmente da Universidade de Brasília (UnB), participaram do programa. A meta global é enviar 101 mil bolsistas de graduação e de pós para estudar em outros países.

Segundo Cristiano Melo, diretor de Pesquisas do Decanato de Pós-Graduação da UnB, a internacionalização dos profissionais é muito importante para o país. “A importância não está somente na vivência que essas pessoas adquirem, principalmente em países desenvolvidos, mas na possibilidade de analisar e entender como funcionam as pesquisas no exterior. O Brasil é 14º entre 200 países em termos de publicação científica, e essa posição só tende a crescer com o investimento do governo nesse programa”, afirma. Melo relata que a universidade recebe delegações e embaixadas interessadas nos estudantes mais preparados. “Estão surgindo polos tecnológicos no DF, e é necessário contar com mão de obra extremamente qualificada. Uma temporada no exterior é um diferencial no currículo no mercado brasiliense.”

Mercado

Para o coordenador do CsF no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), João Manoel Gomes da Silva Júnior, a formação de doutores no exterior contribui para que eles tenham contato com pesquisadores de diferentes nacionalidades e linhas de pensamento. “Além disso, a academia tem uma grande demanda por esses profissionais de excelência, que são os que formarão os próximos estudantes em diversas áreas”, diz. O coordenador lembra ainda que a indústria absorve cada vez mais trabalhadores com esse tipo de formação. “A indústria brasileira está crescendo, principalmente no desenvolvimento tecnológico e na inovação, e precisa de trabalhadores capacitados. O doutorado forma pessoas para desenvolverem pesquisas inéditas, e isso ajuda bastante na criação de produtos, por exemplo.”

O doutor em física atômica e molecular Igo Tôrres participou do doutorado sanduíche pelo programa durante um ano nos Estados Unidos e, nesse período, pôde ampliar a rede de relacionamentos com outros grupos de pesquisa e professores que são referência na área. “Eu consegui trabalhar com equipamentos e ferramentas que nunca tive oportunidade de usar antes, e isso é um diferencial também”, ressalta. Tôrres foi aprovado no concurso da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) para o cargo de professor e pretende seguir carreira acadêmica, mas diz que já recebeu ofertas de emprego em outros estados. “Sempre quis lecionar nessa área, então, meu foco era para o concurso. Por isso, não aceitei nenhum convite”, diz. Ele afirma também que o período em que estudou fora o ajudou a trabalhar melhor em equipe e foi um fator decisivo para a aprovação no concurso. “Não era critério, mas a metodologia de trabalho utilizada no meu doutorado me deu uma visão diferente sobre algumas questões da prova”, completa.

Aqui ou lá fora?
A possibilidade de um doutorado no exterior é atraente, mas os profissionais encaram um grande dilema: é melhor se especializar no exterior e, dessa forma, ficar de fora do mercado brasileiro durante algum tempo, ou dar continuidade à carreira aqui e optar por não voltar a investir nos estudos? Se o intuito é trilhar para o mundo acadêmico, tal grau de especialização é imprescindível, mas se a ideia é entrar para o mercado de trabalho, é importante aliar conceitos teóricos com vivências mais práticas e reais. De acordo com Ticiana Tucci, psicóloga e sócia da Questão de Coaching, as áreas que mais contratam profissionais com alto grau de especialização são as de tecnologia e de inovação, como as indústrias farmacêutica e alimentícia. “Quando o profissional consegue aliar os anseios do mercado de trabalho à formação acadêmica, ele conquista mais destaque. O aprofundamento de um conhecimento específico é muito valorizado”, afirma.

Em relação às diferenças entre realizar um doutorado no exterior e no Brasil, Ticiana diz que, geralmente, as instituições de ensino brasileiras apresentam um viés teórico mais rígido e voltado para a carreira acadêmica. Já no exterior, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, explora-se mais a parte prática, para a consolidação de uma carreira na iniciativa privada, por isso, se oferece um diferencial no currículo.

Na visão do diretor da Michael Page no Rio de Janeiro, André Nolasco, a área corporativa valoriza quem tem doutorado, mas a qualificação não se revela um grande diferencial no ato da contratação. “A maior preocupação é com a experiência profissional e, em certos momentos, esse possível contratado fica em desvantagem por ter passado alguns anos direcionando os estudos para a parte teórica, enquanto um concorrente estava realmente no mercado de trabalho”, afirma.

Entretanto, o diretor destaca que a curva de crescimento de um profissional com mais conhecimento teórico costuma ser mais acentuada, pois a capacidade de absorção de conteúdo adquirida durante a qualificação torna-se um diferencial. O que os doutores devem ter, segundo ele, é paciência. “É muito possível que, em questão salarial, o doutorado não seja um fator que vá diferenciá-los daqueles quem não têm a qualificação. Mas, com o tempo, a organização vai valorizá-los”, conclui.

O estudante de doutorado em administração e finanças Gustavo Basso, 29 anos, seguiu o conselho de professores que tinham feito doutorado no exterior e de outros que tinham feito no Brasil, e decidiu participar do doutorado na UnB. “Achei melhor fazer aqui mesmo, porque muitos professores me disseram que seriam cinco anos de contatos, reconhecimento profissional e atuação no mercado profissional brasileiro perdidos”, conta. Gustavo quer aliar a carreira de professor de universidade com consultoria financeira, e explica que o custo-benefício desses cinco anos que passaria fora contou na hora da decisão. “O fator experiência é mais importante na minha área. O que eu penso em fazer é tentar balancear as duas coisas e fazer um doutorado sanduíche em algum país de referência”, completa.

Conhecimento
A possibilidade de a experiência contar mais do que vários anos de estudo direcionado reflete bem o caso de Rafael Freitas, 25 anos. Ele participou do CsF no ano passado e, durante o período, além de estudar e de explorar a vivência do intercâmbio cultural com jovens de todo o mundo, participou de um estágio na Amgen, empresa de biotecnologia. Ao retornar do intercâmbio, entrou no processo seletivo na filial da empresa em São Paulo e, mesmo disputando vagas com candidatos que tinham pós-graduação, foi contratado como analista, justamente pela experiência que obteve no exterior na área de farmacoeconomia. “Não tive contato com esse conteúdo na minha faculdade, é uma matéria que não existe na grade curricular. Eu me interessei pela área e acho que foi o diferencial na hora do processo seletivo,” conta.

Participe

O Ciência sem Fronteiras oferece bolsas nas categorias pós-doutorado, doutorado pleno, doutorado sanduíche, mestrado profissional e graduação. As modalidades doutorado sanduíche, doutorado pleno e o pós-doutorado estão com chamadas abertas, até 22 de agosto, pelo site www.cienciasemfronteiras.gov.br. Uma das oportunidades é a 3ª chamada para concessão de bolsas de estudo na Suécia. São15 bolsas de estudos,10 para pós-doutorado e cinco para doutorado sanduíche.

“Estão surgindo polos tecnológicos no DF, e é necessário contar com mão de obra extremamente qualificada. Uma temporada no exterior é um diferencial no currículo no mercado brasiliense”
Cristiano Melo, diretor de Pesquisas do Decanato de Pós-Graduação da UnB

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