Série de reportagens sobre ex-abrigados inspira peça teatral

Dramaturgia baseada na comovente série Depois do abrigo estreia neste sábado (7/10)

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postado em 06/10/2017 15:46 / atualizado em 07/10/2017 11:15

 
 
“Isso dá uma peça de teatro”, pensou Maria Carmen ao se deparar com sensíveis textos publicados sobre a vida de jovens que moraram em abrigos. A cenografista idealizou o espetáculo À margem do abrigo, inspirado em uma série de reportagens escrita por Conceição Freitas e publicada no Correio Braziliense. Assunto delicado, a jornalista conseguiu relatar aos leitores histórias cujos desfechos positivos contrariam expectativas sobre infâncias trágicas. São crianças que sofreram todo tipo de abuso e, órfãs, superaram os desafios. A sensibilidade escrita sai das páginas do jornal e é reinventada dramaturgicamente em peça dirigida por Sérgio Maggio, com estreia marcada para este sábado (7), às 21h, no Teatro Goldoni. 

Maria Carmen conta que ela e todos que liam os textos logo se apaixonavam. Não demorou para que convidasse Sérgio Maggio para adaptá-las ao teatro. O diretor, que coescreveu com Yuri Fidelis, optou por um roteiro fictício e não se prender às reportagens. “A decisão do Sérgio foi muito pertinente, porque, com as narrativas, ele recriou uma ação dramatúrgica. Não pegamos um personagem real e o reproduzimos no palco. Começamos a trabalhar e o reescrevemos. Consideramos uma ficção, pois são histórias terríveis, inacreditáveis, mas eram verdades relatadas por quem as tinha vivido”, diz a cenografista.
 
“Anotamos pontos em comum da reportagem e criamos outras histórias, outras relações, mas sempre partindo de algumas premissas que o trabalho da Conceição propõe. Cada personagem que ela entrevista tem uma noção de abrigo diferente. Cada um enxerga de maneira própria. Uns agradecem por se livrar, outros se mostram gratos pelo que conquistaram, outros têm relação de amor e ódio”, explica Maggio. 

A peça se passa num abrigo  interditado por conta da má conduta do gestor. “Três jovens de 18 anos estavam prestes a sair de lá e essa interdição, de certa maneira, afeta a retirada. Todas as crianças são levadas a outros abrigos, exceto eles, porque já completaram 18 e devem seguir a vida. A partir daí, essa urgência em atravessar aquela porta move toda a história”, conta o diretor.

Aproximação

 
Quem interpreta a vida dos jovens de destino incerto são os atores Micheli Santini, Pedro Mazzepas e Rodrigo Mármore. Eles tiveram dois meses intensos de preparação. Assistiram a materiais sobre o assunto, como documentários e entrevistas, e leram bastante. O que mais impactou, contudo, foi a visita a um abrigo. “Conhecer da fonte e poder conversar com aquelas pessoas deu outra perspectiva”, conta Pedro, 26 anos. Para Rodrigo, 30, foi um baque. “Eu senti uma falta de chão e um aperto no coração muito grande ao ver tudo de perto. A gente não pode fugir da realidade. São crianças que estão longe das mães, dos pais. Por vezes, são violentas, porque são carentes. É uma forma de chamar atenção, a gente sabe disso.”

Micheli, 32, surpreendeu-se com a experiência. “Às vezes, a gente tem um pensamento muito distante e burguês sobre aquilo. ‘Ah, é pobreza’, imaginam. São adolescentes que têm celular, se vestem bem, se cuidam e são vaidosos, mas notamos a agressividade em alguns. Por trás de muitos olhares, há pedidos de afeto, carinho, toque.” Ela também atenta para a importância da visita. “Quanto mais a gente se aproximar dessa realidade, mais valoroso fica o trabalho. Não se trata só de uma aproximação no sentido de beber dessa fonte, fazer entrevista, observar as características, mas muito mais uma relação de troca”, completa.

Afeto e carinho

 
A palavra “abrigo”, no espetáculo, carrega conotações — por vezes invisíveis ao senso comum — que são expandidas por Sérgio Maggio na tentativa de provocar o público. Para Rodrigo Mármore, “o espetáculo questiona o que é abrigo para cada um, a forma pela qual você pode também estar desabrigado”. Dessa forma, a peça propõe reflexão que aproxima o espectador. “Ele pensa: ‘Eu tive pai, mãe e estrutura, mas o que falta em mim que me deixa desabrigado?’. Abrigo sentimental, abrigo de afeto, abrigo de carinho”, afirma o ator.

O Centro de Ensino Médio 304 Sul foi o lugar escolhido para a pré-estreia, que ocorreu gratuitamente nos dias 2 e 3. “Foi uma proposta do Núcleo de Apoio Cultural (NAC) de levar o teatro a uma escola pública, porque, muitas vezes, eles não têm muito acesso ao teatro, então foi uma ação de plateia.” 

Depois do Abrigo

 
“São poucos, ainda, os meninos e as meninas que, crescidos, conseguem viabilizar uma vida cidadã depois da passagem pelo abrigo e do abandono anterior. Há os que dão o salto para além do que deles se esperava. São jovens com incrível capacidade de resiliência que aprenderam a transformar dor em afirmação, medo em coragem, perdas em conquistas”, escreveu, à época, Conceição Freitas em sua primeira crônica sobre o tema.

A série, intitulada "Depois do Abrigo", é formada por cinco reportagens, publicadas nas sextas-feiras de agosto em 2014 pelo Correio Braziliense. Nelas, Conceição Freitas descreveu olhares, gestos e reações dos entrevistados que passaram parte da vida longe da família consanguínea e, apesar das terríveis dificuldades, não sucumbiram a uma tragédia pessoal. “Foram meninos que, de alguma forma, se destacaram na construção do próprio destino e, infelizmente, são exceções, porque estavam já construindo o futuro”, conta a jornalista.

“Essas foram as matérias mais difíceis que já fiz na vida porque abordam temas muito fortes da vida dessas crianças”, diz. O trabalho exigia respeito e atenção para não prejudicar os envolvidos. “Tive cuidado como nunca tive antes. Uma palavra fora do lugar podia comprometer essas crianças, é uma situação muito delicada essa em que elas vivem. Portanto, eu mesma tive a consciência de protegê-las em muitos momentos para não as expor diante de uma sociedade tão punitivista e tão conservadora”, diz ela, que, mesmo após três anos, mantém cautela ao abordar a vida dos jovens.

Apesar do sucesso e repercussão das reportagens, Carmen acredita que é o teatro o lugar onde essas histórias cabem melhor. “Estou cada vez mais convencida de que a ficção é a forma mais aguda para se chegar ao real, porque a realidade é muito complexa, e, às vezes, por uma série de motivos, você não consegue reproduzir tal qual ela é. O teatro provoca reflexão, faz você pensar.”

Leonardo Almeida foi uma das pessoas que teve a vida contada pela jornalista. Hoje, aos 23 anos, está finalizando a graduação em ciências contábeis e tem planos de cursar mestrado no exterior. Entusiasmou-se com a ideia do teatro baseado nas histórias que incluem a dele, mas tem ressalva. Para ele, é importante que a obra “não mostre para a sociedade uma vítima, e sim a força desses jovens em superar obstáculos e problemas”.
 

Sinopse 

Uma em cada três crianças e adolescentes acolhidos em abrigo no Brasil tem entre 14 e 18 anos, idade-limite para permanência sob a tutela do Estado. Em números absolutos, são 14 mil meninos e meninas que, habitando uma casa de acolhimento, esperam por uma improvável adoção e se afligem diante da perspectiva de irem ao mundo sozinhos. Depois dos 18, se nenhuma família os adotou, terão de adotarem a si mesmos, para a vida adulta.
Dramas, angústias, lembranças, dilemas, buscas, afetos de quem ainda não chegou à idade adulta compõem À Margem do abrigo, com dramaturgia de Sérgio Maggio e Yuri Fidelis.
 
Serviço
À margem do abrigo
Data: De 7 a 22 de outubro. Sessões às sextas e aos sábados, às 21h, e domingos, às 20h. As sessões de 7 e 8 de outubro serão inclusivas para pessoas com deficiência visual e auditiva.
Local: EQS 208/209 - lote A Edifício Casa d'Italia - Asa Sul  
Ingressos: Preço promocional de lançamento, nas duas primeiras sessões, em 7 e 8 de outubro: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Nos demais dias, R$ 30 e R$ 15.
 
*Estagiário sob supervisão de Jairo Macedo
 
 

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