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Turismo: vinho verde é produzido com capricho em casas dos mais diferentes tipos e tamanhos em Portugal Quatro dias de passeios permitem ao turista conhecer bem essa diversidade

Otávio Oliveira

Publicação: 28/10/2009 08:00 Atualização: 28/10/2009 08:24

A partir do Porto, de carro, rodando poucos quilômetros — Portugal é um país pequeno, com cerca de 92 mil km2, um sexto da área de Minas Gerais —, o viajante pode passar o dia nas sub-regiões de Amarante, Ave, Baião, Basto, Cavado, Lima, Monção, Paiva e Sousa e principalmente nas freguesias, ou aldeias, povoações semelhantes às nossas vilas e distritos. No alto dos morros, sempre há uma igreja católica, com o inconfundível repicar de sinos ao meio-dia e às 18h.

Parreira com uvas da casta arinto: primeiros registros da fabricação da bebida mais típica do noroeste português remontam ao século 12 (Otacílio Lage/EM/D.A Press - 11/10/09)
Parreira com uvas da casta arinto: primeiros registros da fabricação da bebida mais típica do noroeste português remontam ao século 12
Em quatro dias de visitas por 16 casas, foi possível conhecer propriedades de diferentes dimensões, a maioria administrada e tocada pela própria família, sem empregados. Mulher, marido e filhos plantam, cuidam, colhem, fabricam, engarrafam e vendem o vinho verde. Em algumas delas, a recepção é feita com delícias, como costelas de carneiro assadas, defumados de porco, muitos petiscos como entrada e, claro, vinho verde à vontade.

Há também propriedades mais estruturadas, de famílias abastadas, como a Aveleda, a 20 minutos de carro do centro do Porto, nos arredores de Penafiel. É a maior produtora de vinho verde da região demarcada. Tem estrutura para acolher grupos de visitantes ao longo do dia, para degustação de vinhos e passeios na reserva nativa. Em quase todos os lugares visitados, há enólogos para falar sobre as bebidas que produzem e sobre as uvas cultivadas nos vinhedos próprios — ou adquiridas de pequenos plantadores. Entre as castas brancas, estão arinto, avesso, azal, loureiro, trajadura e batoca; na lista das tintas, Amaral, espadeiro, vinhão, borraçal, padeiro, rabo de anho e pedral.

Bebida ímpar
O vinho verde é único no mundo: leve e fresco, produzido numa área demarcada no noroeste de Portugal, uma região costeira geograficamente bem localizada para a produção de excelentes vinhos brancos. Berço da carismática casta alvarinho e produtora de vinhos de lote únicos, essa parte do país lusitano festejou em 2008 o centenário da sua fixação. O vinho verde é frutado, fácil de ser bebido, ótimo como aperitivo (1) ou em harmonização com pratos delicados: saladas, peixes, mariscos, carnes brancas, tapas, sushi e sashimi, entre outros (2).

A flagrante tipicidade e originalidade desses vinhos é o resultado das características do solo, do clima, dos fatores socioeconômicos locais, das peculiaridades das castas autóctones da região e das formas de cultivo da vinha. Desses elementos, resulta uma bebida ímpar, diferente das demais do gênero, produzidas mundo afora.

Foi no noroeste, na região mais povoada de Portugal, desde os tempos asturo-leoneses (entre os séculos 10 e 12), que a densa população cedo se espalhou pelas leiras de uma terra muito retalhada. Já no século 12, existiam muitas referências à cultura da vinha, cujo incremento partiu da iniciativa das corporações religiosas, com a contribuição decisiva da Coroa. A viticultura permaneceu incipiente até os séculos 12 e 13, altura em que o vinho entrou definitivamente nos hábitos das populações que habitavam as terras cortadas pelos rios Douro e Minho. A expansão demográfica e econômica, a intensificação da mercantilização da agricultura e a crescente circulação de moeda fizeram do vinho uma importante e indispensável fonte de rendimento.

Embora a exportação fosse ainda muito limitada, a história revela que os verdes tornaram-se os primeiros vinhos portugueses conhecidos nos mercados europeus (Inglaterra, Flandres e Alemanha), principalmente os das regiões de Monção e da Ribeira de Lima. Já no século 20, a área foi expandida, agrupando-se em sub-regiões: Monção, Lima, Bastos, Braga, Amarante e Penafiel. Em 1973, a Organização Mundial da Propriedade Intelectual, com sede em Genebra, na Suíça, expediu o certificado de reconhecimento da denominação de origem ao vinho verde português, com características únicas internacionalmente.

1 - Combinação perfeita
De intensos aromas frutados (maracujá, morango e outros), o vinho verde é particularmente apreciado como aperitivo por ser pouco alcoólico (entre cinco e 12 graus) e, portanto, menos calórico que as bebidas convencionais. Também tem acidez muito equilibrada, nunca passando dos 7g/l. Experimente o rosado, de aromas jovens, que lembram os de frutas vermelhas.

2 - Doces do noroeste
Entre as sobremesas da região, pode-se saborear receitas ricas e variadas, como São Gonçalo, papos de anjo, doce de travessa, arroz doce e a aletria, rabanadas, sonhos, mexidos, o delicioso pão de ló e os doces à base de gema de ovo e de massa de amêndoa. Depois delas, no fim da refeição, normalmente é servida a bagaceira, uma espécie de conhaque de uva. A bebida custa caro, mas é deliciosa.

O jornalista viajou a convite da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes

» Viagens diárias

Apesar de o trabalho de divulgação feito pela Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes — com apoio da União Europeia e do Instituto de Financiamento da Agricultura e Pesca de Portugal — ser pertinente, há detalhes que dificultam a viagem pelo noroeste do país. Um deles é a falta de estrutura de hospedagem nas cidadezinhas. Poucas vinhas têm estrutura de alojamento. Isso exige que o visitante fique baseado no Porto e se desloque até os vinhedos a cada dia.

É aconselhável que o interessado no passeio procure a Associação para o Desenvolvimento da Rota dos Vinhos Verdes, da qual fazem parte 55 vinhas. Ela não organiza diretamente tours para as empresas associadas, mas indica quem pode fazê-lo — o emaranhado de estradas secundárias que dão acesso às vinhas, muitas delas situadas em áreas urbanizadas (freguesias), dificulta a localização sem a orientação de guias. Outro motivo para buscar a entidade é o ótimo site que informa sobre rotas temáticas (www.vinhoverde.pt/rotasTematicas/index.html), como a das cidades e vilas ou a das praias. Em todos os links, você descobre o que exatamente há para visitar e contatos importantes em cada local.

E, já que falamos de barreiras, uma que cai é a do preço dos vinhos verdes. No Brasil, a garrafa de um bom Alvarinho não chega por menos de R$ 40. Já na região de origem, custa no máximo 5 euros (R$ 13,50).

 

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