Com muita diplomacia, Brasil e Estados Unidos discordaram sobre os rumos das negociações sobre o programa nuclear iraniano, mas acertaram o passo em relação a questões da América Latina e à cooperação com a África. A secretária de Estado Hillary Clinton veio ontem a Brasília mandar o recado do presidente Barack Obama — inclusive ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem se reuniu à tarde. Ao contrário do Brasil, os EUA consideram que as negociações para impedir os iranianos de enriquecer urânio falharam, portanto o caminho é aprovar mais sanções contra o regime islâmico. A diferença pública foi minimizada pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim: “No nosso caso, divergência é diálogo, é discussão, é troca de pontos de vista”.
“Assim que a comunidade internacional falar em uníssono, os iranianos virão e negociarão novamente”, disse Hillary na entrevista coletiva que concedeu ao lado do colega brasileiro, no Itamaraty. “Só depois que aprovarmos sanções no Conselho de Segurança da ONU é o que o Irã negociará de boa-fé”, argumentou. A posição é a mesma defendida pelo número dois da diplomacia israelense, Rafael Barak, que visitou Brasília na semana passada.
Antes mesmo de receber a visitante, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já tinha reafirmado, pela manhã, a opção brasileira por dialogar com Teerã. “O Brasil mantém sua posição. O Brasil tem uma visão clara sobre o Oriente Médio e sobre o Irã. O Brasil entende que é possível construir outro rumo. Eu já disse para o Obama e o (presidente francês Nicolas) Sarkozy: não é prudente encostar o Irã na parede. O que é prudente é estabelecer negociações”, disse Lula.
Na coletiva do Itamaraty, Amorim foi ainda mais incisivo sobre o tema. “Não se trata de se curvar simplesmente a uma opinião que possa não concordar (com os EUA). Nós não podemos ser simplesmente levados. Nós temos de pensar com a nossa cabeça. Nós queremos um mundo sem armas nucleares, certamente sem proliferação”, afirmou. Segundo o ministro, o governo brasileiro considera que ainda há espaço para negociar com o presidente Mahmud Ahmadinejad. “Acreditamos que há oportunidade de chegar a um acordo, talvez exija um pouco de flexibilidade de parte a parte”, acrescentou.
MentirasHillary, por sua vez, disse que respeita “a crença brasileira” nas negociações, mas insinuou que o governo iraniano mente à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a outros interlocutores externos sobre os propósitos de seu programa nuclear. “O que observamos é que o Irã vai para o Brasil, a China e a Turquia e conta histórias diferentes, para evitar as sanções. Nós continuaremos a discutir essas questões”, afirmou a secretária. Amorim lembrou que o mesmo tipo de acusação sobre a existência de armas de destruição em massa foi feito ao Iraque e não se confirmou, mas causou uma “destruição enorme” — uma referência à invasão norte-americana, em 2003.
O governo Lula se posiciona na questão levando em conta que o Irã — como o Brasil — é signatário do Tratado de Não Proliferação (de armas nucleares), e portanto tem direito a dominar plenamente o uso civil da energia atômica, inclusive o enriquecimento de urânio. “Eu quero para o Irã o mesmo que quero para o Brasil: utilizar o desenvolvimento da energia nuclear para fins pacíficos. Se o Irã tiver concordância com isso, terá apoio do Brasil. Se quiser ir além disso, irá contra ao que está previsto na Constituição brasileira e, portanto, não podemos concordar”, disse o presidente.
No encontro que teve com Hillary, Amorim seguiu a mesma linha e ressaltou indiretamente características que poderiam se referir também ao Brasil. “O Irã é um país grande, complexo. É um país que não vai se conformar com algo totalmente imposto a ele”, disse o chanceler. No fim do dia, depois de receber a secretária no Centro Cultural Banco do Brasil, sede provisória do governo, Lula mencionou que o assunto poderá ser retomado nas visitas a Jordânia, Palestina e Israel neste mês e na visita ao Irã em maio, uma “oportunidade de falar com os países para uma solução pacífica”.
» Ajuda à América Latina e África
Se a questão iraniana mostrou as divergências entre Brasil e EUA, a situação no Haiti, no Chile e na África permitiu com que Hillary Clinton e o chanceler Celso Amorim acertassem os ponteiros. Os dois assinaram memorandos de entendimento nas áreas de mudança climática, questões de gênero (promoção dos direitos das mulheres) e cooperação com terceiros países — para incentivar o desenvolvimento da África e da América Latina. Sobre Haiti e Chile, Hillary afirmou que “precisam de socorro em tempos de crise”, e que a ajuda a ambos deve ser mantida e aumentada.
A secretária reconheceu os progressos de Honduras a favor da democracia, com a eleição do presidente Porfirio Lobo. “Queremos trabalhar com o Brasil para o retorno (de Honduras) à Organização dos Estados Americanos (OEA)”, disse. Amorim ponderou que “um golpe de Estado (como o que derrubou Manuel Zelaya, em 28 de junho) não é uma coisa que possa ser facilmente absolvida”, mas acenou que “um fato muito simbólico seria a criação de condições” para o retorno seguro de Zelaya ao país.
Hillary e Amorim também opinaram que o presidente venezuelano, Hugo Chávez, deveria “olhar mais para o sul”. Questionada por um jornalista americano, a visitante reiterou que seu governo “não está envolvido em nenhuma atividade para prejudicar a Venezuela”, e qualificou como “improdutivas” as repetidas acusações de Chávez contra os EUA. Para ela, o governo de Caracas deveria seguir o exemplo do Brasil e do Chile, países que ela considera bem-sucedidos e respeitadores da liberdade de expressão. Chávez acusa os EUA de terem “plantado” as denúncias da Justiça espanhola sobre um suposto apoio de seu governo ao grupos terrorista basco ETA e às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Esta matéria tem: (1) comentários
Autor: neide aguiar
Quem será que está soprando nos ouvidos do ventríloquo? Não deve ser o o Amorim, ou será? | Denuncie |