Ashraf Al-Ashhab, 25 anos, sabe que o seu futuro e os de outros 250 mil palestinos estão numa encruzilhada. Morador de Jerusalém Oriental — ou Velha Jerusalém —, esse pós-doutorando de microbiologia em tratamento de água teme o plano de construção de 1,6 mil casas no assentamento judaico de Ramat Shlomo, perto de sua casa. “Estamos rodeados por assentamentos, e a maior parte se expande de modo contínuo. O principal deles é o Bizgat Zeiv”, afirmou ao Correio, por telefone.
“Esse projeto de (Benjamin) Netanyahu (premiê de Israel) é ruim para todos os palestinos e para os vizinhos árabes. Os governos desses países jamais confiarão no primeiro-ministro”, alertou. “Cada vez que um assentamento toma um pedaço de nossa terra, rouba um pouco do nosso direito de existência”, acrescentou. Pelo segundo dia consecutivo, o vice-presidente americano, Joe Biden, deixou de calibrar as palavras, ao se dirigir a Israel.
“Todos devem saber hoje que não existe alternativa à solução de dois Estados (israelense e palestino), como parte integrante de qualquer plano de paz global”, declarou o número dois da maior potência do planeta, em visita ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas, em Ramallah (Cisjordânia). “A decisão do governo israelense de avançar a construção de novas casas em Jerusalém Oriental compromete essa confiança, da qual precisamos agora para iniciarmos negociações frutíferas”, acrescentou o vice de Barack Obama. Segundo ele, os Estados Unidos prometem desempenhar um papel ativo e sustentável no diálogo entre Abbas e Netanyahu.
No entanto, Biden reforçou que os palestinos precisam de um Estado independente, “viável e contíguo”. Por sua vez, Abbas também acusou Israel de “destruir a confiança” e de desferir um “duro golpe” na tentativa de retomada do diálogo. E reafirmou o compromisso com a solução do conflito baseada em “um Estado de Israel que viva em segurança e em paz ao lado de um Estado Palestino, nas fronteiras de 6 de junho de 1967, tendo Jerusalém Oriental como capital”.
Às vésperas de viajar para Israel, Catherine Ashton, representante máxima da União Europeia para a política externa, instou Netanyahu a reverter a decisão, que poderia “estrangular” as negociações de paz. “Os assentamentos são ilegais sob a lei internacional”, afirmou ela.
DesculpasO anúncio da expansão de assentamentos deixou ontem Israel em maus lençóis. O gabinete ministerial teve de se submeter ao constrangimento de pedir desculpas públicas pelo momento inoportuno. “Isso não deveria ter ocorrido durante uma visita de um vice-presidente dos Estados Unidos”, afirmou Isaac Herzog, ministro do Bem-Estar de Israel, à Rádio do Exército. “Agora temos de expressar nossas desculpas por essa séria gafe”, acrescentou. O analista político Stephen Zunes, diretor do Programa de Estudos do Oriente Médio da Universidade de San Francisco, não vê qualquer anacronismo na postura israelense. “Há poucas indicações de que Netanyahu ou o chanceler Avigdor Lieberman, ainda mais linha-dura, tenha sérios interesses em permitir avançar os esforços de paz”, admitiu. “Eles parecem determinados a expandir a colonização judaica dos territórios árabes ocupados, a fim de tornar virtualmente impossível o surgimento de um Estado palestino ”, concluiu Zunes.
Para o especialista israelense Gerald Steinberg, professor de gerenciamento de conflitos e negociação da Universidade de Bar Ilan, em Ramat Gan, a Casa Branca não se demoveu do desejo de impulsionar rapidamente as negociações entre árabes e israelenses. Ele entende que as críticas de Joe Biden ao governo de Netanyahu foram meticulosamente planejadas para garantir a participação do presidente palestino, Mahmud Abbas, nesse processo político. Steinberg associa o anúncio da expansão dos assentamentos judaicos a um incidente registrado na semana passada. “Palestinos atacaram judeus que oravam no muro ocidental do Monte do Templo. Isso foi extremamente perigoso e poderia ter deflagrado uma violência ainda maior”, lembra. “O projeto de construção israelense é uma resposta a esses ataques.”
Al-Ashhab teme que a situação se agrave mais. “Essa terra não pertence a eles. Como eles podem vir aqui e construir? Não temos direitos sobre nossas terras, de acordo com as leis humanitárias internacionais. Isso criará mais sofrimento e poderá detonar uma nova intifada (revolta palestina), disse.
Ouça entrevista com o palestino Ashraf Al-Ashhab (em inglês)
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