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Três fortes réplicas do terremoto de 27 de fevereiro ofuscam a transferência de poder no Chile Alerta de tsunami é acionado e presidente declara área de catástrofe

Rodrigo Craveiro

Publicação: 12/03/2010 07:00 Atualização:

O presidente do Equador, Rafael Correa, pôs-se a mirar o teto do Congresso chileno, na cidade portuária de Valparaíso, a 120km de Santiago. Estava visivelmente assustado. Sentado ao lado do colega boliviano Evo Morales, o paraguaio Fernando Lugo não conseguia esconder o medo: a boca estava semiaberta e os olhos vasculhavam o alto, parecendo temer o desabamento do prédio. A argentina Cristina Kirchner não pensou duas vezes e procurou o rumo da saída, mas retornou ao seu assento. Às 11h39, um tremor de magnitude 6,9 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9) espalhou o pânico, meia hora antes da cerimônia de posse do novo presidente chileno, Sebastián Piñera.

Menos de 16 minutos depois, a terra voltou a sacudir forte — dessa vez, a intensidade do abalo foi medida em 6,7 na mesma escala. Um terceiro sismo (de magnitude 6) deu um tom ainda mais dramático à data histórica para Chile e trouxe à tona as lembranças do terremoto de 8,8, de 27 de fevereiro. Depois do susto, o presidente do Peru, Alan García, tentou se solidarizar com a população local e fez um comentário polêmico. “É uma honra dividir um tremor com o povo chileno”, disse.

Por medida de precaução, Piñera exortou os cidadãos a se refugiarem rapidamente em regiões mais altas. O Escritório Nacional de Emergências (Onemi, na sigla em espanhol) chegou a acionar um alerta de tsunami, retirado cerca de quatro horas depois, exceto para a Ilha de Páscoa. “Até este momento, não temos fenômeno de tsunami (…) é normal que se produzam, depois de um terremoto, alterações nas marés”, disse o ministro do Interior, Rodrigo Hinzpeter. Além das três grandes réplicas, o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, pela sigla em inglês) registrou ontem mais oito abalos secundários com magnitude maior que 5 na escala Richter. Enquanto Sebastián Piñera saudava o povo a bordo de um Ford Galaxie preto conversível, o Congresso terminava de ser esvaziado e muitas pessoas corriam rumo às montanhas.

Danos
O chefe de Estado empossado admitiu que os tremores deixaram “danos significativos” à cidade de Rancágua, a 270km de Valparaíso e a 90km da capital, Santiago. “Estamos deslocando nossas equipes de emergência”, afirmou o presidente, que decretou área de catástrofe a região de Libertador O’Higgins — epicentro das réplicas — e prometeu visitá-la ainda hoje.

Também em Rancágua, a estudante de jornalismo Pamela Vargas Vásquez, 25 anos, assistia à cerimônia de posse de Piñera. “Foi estranho. Vivi uma sensação de angústia, as réplicas tiveram a mesma intensidade do tremor do mês passado, ainda que tenham sido mais curtas”, afirmou ao Correio, por telefone. “Eu estava sentada diante da TV, no segundo andar, e imaginei que minha casa fosse cair”, relatou. Segundo ela, o centro comercial foi esvaziado imediatamente e a população está assustada.

A apenas 15km de Valparaíso, no povoado de Villa Alemana, o engenheiro chileno Miguel Severino Urrutia, 29 anos, teme pela vida de sua mulher e sua filha. “Os tremores de hoje (ontem) foram bastante fortes. Os objetos se moviam e pudemos perceber bastante o movimento, porque nossos escritórios ficam em contêineres”, comentou, por telefone. “Várias réplicas ocorreram em um curto espaço de tempo. E as imagens de pessoas em fuga, com medo de um possível tsunami, são impressionantes”, acrescentou. Desde o terremoto de 27 de fevereiro até as 19h de ontem, 283 réplicas de magnitude superior a 4,5 na escala Richter sacudiram o Chile. Miguel espera que Piñera tome as medidas necessárias para ajudar os chilenos desabrigados. “Tomara que ele consiga reconstruir a infraestrutura e a tranquilidade da população, em um curto prazo”, disse.

Em Santiago, o jornalista espanhol Fernando Gallardo, 54 anos, escrevia na manhã de ontem mais uma de suas colunas semanais para o jornal El País, de Madri, como faz desde 1987. “O monitor do computador começou a vibrar com força e, cinco segundos depois, o chão moveu-se, como se eu estivesse navegando em um veleiro. Com 20 segundos de duração, o temor ficou mais forte e ouvi as paredes e o teto estalarem”, relatou à reportagem, por e-mail. Quando saiu do prédio, Fernando teve a sensação de que as casas próximas “se despregariam do solo e voariam”. Foi tranquilizado pelos vizinhos, que fugiam apavorados de suas residências.

Emoção na despedida

Com a mão no coração, Michelle Bachelet apareceu ontem pela última vez na sacada do Palácio de La Moneda numa emocionada despedida a milhares de pessoas em frente ao prédio que gritavam seu nome. O fato ocorreu quando a ex-presidenta se dirigiu ao palácio para apertar a mão de cada um de seus assessores, mas a presença de populares do lado de fora acabou roubando a cena. Por meio de alto-falantes, era era transmitida uma canção de Isabel Parra (filha da emblemática cantora, compositora e folclorista Violeta Parra) com os dizeres “Cuatro años pasaron Michelle, se fueron volando”.

“Obrigada, presidenta, nos veremos em 2014”, afirmava uma faixa colocada em frente aos portões do Palácio. “Vim ver a presidenta. Estive aqui no dia em que assumiu o governo”, contou à agência de notícias France-Presse David Orellana, um admirador de 45 anos, em meio à multidão que se aglomerava na esplanada do La Moneda. “Ela foi recepcionada no governo com o drama do Transantiago (o serviço de transporte público que, no início de sua administração, trouxe sérios contratempos); no meio de sua gestão, foi golpeada pela crise, e termina com o terremoto. Que mulher resiste a isso? É uma presidenta de verdade”, disse Orellana.

Pessoas de todas as idades agitavam lenços brancos, bandeiras do Chile, do Partido Socialista, e mostravam cartazes com fotos da ex-presidenta sorridente. “Michelle é o máximo, sentimo-nos orgulhosos de que tenha sido nossa presidenta”, comentou a funcionária pública Luz Gálvez. Segundo as pesquisas, Bachelet deixa o poder com 84% de popularidade.

Os chilenos Pamela Vargas Vásquez e Miguel Severino Urrutia falam sobre o medo após abalos em seu paísEditar

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