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Especialistas elogiam redução de arsenal nuclear

Rodrigo Craveiro

Publicação: 09/04/2010 07:00 Atualização: 09/04/2010 02:40

Dois especialistas em não proliferação nuclear consultados pelo Correio são unânimes em afirmar que o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (Start) -- assinado ontem pelos presidentes Barack Obama (Estados Unidos) e Dmitri Medvedev (Rússia), em Praga -- pode conduzir o mundo a um desarmamento ainda mais eficiente. Confira a entrevista com o russo Nikolai Sokov, especialista do Centro para Estudos de Não Proliferação (em Monterey, Califórnia), e com o norte-americano Miles A. Pomper, do Centro para Estudos de Não Proliferação James Martin (na mesma cidade). Sokov participou das negociações do Start I e do Start II.

Qual é a real importância da redução em 30% dos arsenais nucleares de Rússia e EUA? Não é uma redução mínima?

NIKOLAI SOKOV: A redução é modesta, mas eu me aventuraria a dizer que os números não são a característica mais importante do novo tratado. O novo Start serve a duas metas muito importantes. Em primeiro lugar, mantém o regime de transparência (troca de dados e verificação) que expirou com o Start-1, em dezembro de 2009. Sem ele, as partes teriam informações escassas e pouco críveis sobre outras forças nucleares. A falta de informação (ou informação imprecisa) pode deflagrar crises; serve como uma das mais importantes razões para a desconfiança, a corrida armamentista e outros desdobramentos negativos. Agora que um novo sistema de transparência está em vigor, ambas partes têm o conforto de um conhecimento crível e verificável, e podem proceder rumo a um novo estágio de debates sobre redução de armas. Em segundo lugar, o novo Start representa uma ponte para uma nova geração de tratados sobre redução de armas nucleares. Todos os tratados previamente assinados desde 1970 se concentraram na redução de armas posicionadas em mísseis e bombardeiros. Isso era algo lógico durante a Guerra Fria. Agora, é necessário diminuir o número de armas guardadas, verificar o desmantelamento de ogivas e controlar a disposição de materiais de fissão nuclear retirados das ogivas durante a eliminação. Tais tarefas demandam negociações difíceis e relativamente longas, simplesmente porque elas nunca foram realizadas antes. Os Estados Unidos e a Rússia têm uma experiência considerável em contabilizar e verificar armas posicionadas, mas não aquelas armazenadas ou desmanteladas. É absolutamente necessário ter um ambiente estável e transparente, enquanto as partes se engajam nesse desafio novo e muito mais ambicioso. Em um certo sentido, o novo tratado é relativamente modesto, mas isso não diminui sua importância. Apenas pense -- é bem legal dirigir em alta velocidade sobre uma estrada e rapidamente ir de um ponto a outro. Mas antes de você começar a dirigir, alguém precisa pavimentar a estrada. Os negociadores do novo Start pavimentaram aquela estrada para nós e, agora, podemos embarcar em uma jornada rumo a reduções mais radicais e profundas. Tomara que a viagem seja mais rapida agora, que temos as condições certas para isso.

MILES POMPER: Eu não diria que esses cortas são muito mínimos, ainda que eles ainda deixem muitas armas nas mãos dos Estados Unidos e da Rússia. Eu acho que a Rússia não quer deixar a redução de suas armas nucleares irem muito longe, porque suas forças convencionais são mais fracas do que costumavam ser. E se a Rússia não deseja cortar suas forças com mais intensidade, os EUA também não o farão.


Quais as consequências dessas ações em termos de iniciativas de não proliferação?


Nikolai Sokov (Arquivo pessoal/ Divulgação)
Nikolai Sokov
NIKOLAI SOKOV: O novo tratado pretende demonstrar à comunidade internacional que os EUA e a Rússia levam a sério suas obrigações sob o Artigo 4 do Tratado de Não Proliferação. É difícil prever como isso surtirá efeito na Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação (TNP), em maio. Eu temo que o significado real do novo tratado seja perdido, porque os números não são radicais o bastante. Sob meu ponto de vista, os dois países devem também complementar o novo tratado com uma declaração conjunta sublinhando o próximo tratado. Como eu disse, algo mais ambicioso, que se refira a arsenais inteiros e inclua armas nucleares táticas. Eu também gostaria que Obama e Medvedev digam claramente que pretendem embarcar nessas novas negociações em breve -- de preferência, ainda este ano. Eu também acho necessário apontar que o estado do regime de não proliferação nuclear seja uma variável importante na equação do desarmamento. Eu gostaria de comentar a iniciativa recente do Brasil em resolver o conflito relacionado ao programa iraniano. Eu espero que essa iniciativa ocorra, e isso poderia ser um importante auxílio de seu país para o desarmamento nuclear.

MILES POMPER: As consequências reais são duplas. Em primeiro lugar, deveriam melhorar a relação entre os EUA e a Rússia, que deveriam ajudar a avançar nas iniciativas de não proliferação e a criar maior consenso entre os membros permanentes do Conselho de Segurança sobre assuntos, tais como o Irã. Em segundo lugar, se os dois país tivessem falhado em alcançar o acordo, seria desastroso para a Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação, em maio, em Nova York.


Por que os EUA e a Rússia mantêm um imenso arsenal de nuclear? O uso dessas armas não seria contraproducente, à medida que provocaria uma reação similar de outras nações?

NIKOLAI SOKOV: Os arsenais são um legado da Guerra Fria. A intensificação dos arsenais foi um processo irracional. Não se tratava de ganhar a guerra, mas de negar a capacidade de o outro lado teoricamente ganhá-la. Essa era a realidade da Guerra Fria. Eu estou grato pelo fato de estarmos, finalmente, nos retirando desse modo inaceitável de pensamento, rumo ao ponto de vista diametralmente oposto: o caminho da redução dos arsenais nucleares com o objeto de eliminá-los. Deve ser notado que várias tentativas para um concluir um novo tratado desde o Start-1 -- assinado em 1991 -- falharam. O Start-2, firmado em 1993, nunca entrou em vigor. As consultas do Start II, mantidas entre 1997 e 2000, nunca levaram a um tratado. O Tratado de Redução de Arsenais Nucleares Estratégicos (Sort), assiando em 2002, foi altamente deficiente em tantos modos, que se tornou quase irrelevante. O tratado assinado neste 8 de abril por Obama e Medvedev deveria ter sido pactuado 15 anos atrás. Tivemos uma série longa de tentativas frustradas. Isso torna o novo Start particularmente importante para os dois países. Depois de um longo período de atrasos e fracassos, estamos de volta aos trilhos.

MILES POMPER: Há poucas razões para eles manterem essas armas. Em primeiro lugar, elas são um legado da corrida armamentista da Guerra Fria. Ninguém construiria tais arsenais hoje. Mas é difícil desistir delas, uma vez que elas existem. Em segundo lugar, ambos países querem ter armas suficientes para a capacidade de "um segundo ataque" -- armas suficientes para a retaliação.

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