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Chefe das Farc condena o "continuísmo" do governo na Colômbia, mas convida ao diálogo Exército reforça as operações para capturar o líder máximo da guerrilha

Isabel Fleck

Publicação: 31/07/2010 07:00 Atualização: 30/07/2010 21:40

A chegada à Presidência do homem que esteve por três anos à frente da luta contra a guerrilha na Colômbia foi o momento escolhido pelo líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), Alfonso Cano, para abrir a guarda. A uma semana da posse de Juan Manuel Santos, que foi ministro da Defesa entre 2006 e 2009, foi divulgado pelo blog da revista dos paramilitares colombianos Resistencia um vídeo no qual Cano propõe ao novo governo “conversar” e buscar uma “saída política” ao conflito armado. Esta é a primeira vez desde que Álvaro Uribe assumiu, em 2002, que uma autoridade das Farc oferece abertamente uma saída diplomática com o governo.

Cano, como é conhecido Guillermo León Sáenz, disse esperar que o governo “não engane mais o país”, como alega que foi feito nos dois mandatos de Uribe. “O que estamos propondo hoje, mais uma vez, é conversarmos. Continuamos empenhados em buscar saídas políticas. Desejamos que o futuro governo reflita”, disse o intelectual que comanda as Farc desde 2008, quando seu fundador, Manuel Marulanda “Tirofijo”, morreu de ataque cardíaco. O vídeo de 36 minutos teria sido gravado neste mês, “nas montanhas da Colômbia”. Para evitar que seu paradeiro seja reconhecido, no entanto, Cano, aparece em frente a um tecido camuflado.

Ele propõe que, nas conversas com o governo, sejam abordados assuntos que “precisam ser tocados”. “Temos de buscar o ponto de confluência, onde possamos, com a maioria dos colombianos, identificar as dificuldades, os problemas, as contradições, e gerar a partir disso perspectivas, caminhos, saídas, possibilidades. (…) Falaremos da falta de dignidade que representa ter na Colômbia sete bases com tropas militares dos Estados Unidos”, declarou um Cano visivelmente envelhecido em comparação com as imagens mais recentes, de dois anos atrás.

Mas, ao mesmo tempo em que estende a mão ao diálogo, o líder da guerrilha afirma que a vitória de Santos — aliado de Uribe — garante à oligarquia colombiana a continuação de suas políticas e estratégias, e deixa ao novo mandatário a missão de “ blindar o governo que sai da ação da justiça nacional e internacional”. “Este regime político está cheio de ilegitimidade, porque foi permeado profundamente pelo narcotráfico, pela corrupção administrativa e pela impunidade”, acrescenta.

Caçada
O anúncio de Cano coincide com intensas operações militares para capturar o líder das Farc. As Forças Militares têm se concentrado nos comandantes responsáveis diretamente pela segurança do líder máximo. Para isso enviaram uma força-tarefa de 5 mil homens para os departamentos (estados) de Tolima, Nariño, Huila e Cauca. Uma das maiores perdas para Cano ocorreu no último dia 11, quando Angie Marín, conhecida como Mayerly, e os outros 11 rebeldes que ela liderava, morreram em um bombardeio aéreo ao acampamento em que se encontravam, no município de Planadas (Tolima).

Em entrevista à revista colombiana Semana, o general Juan Pablo Rodríguez, comandante da 5ª Divisão do Exército, comemorou as conquistas recentes das operações no sudoeste do país, apesar de admitir que não será fácil chegar a Cano. “As informações que temos estão nos levando ao local certo, mas é uma área inóspita, difícil de penetrar”, disse. “Temos de continuar, o êxito vem da perseverança”, completou, indicando que, para Santos aceitar a oferta de diálogo das Farc, terá antes de convencer o Exército a frear as operações.

Para o cientista político León Valencia, diretor da Corporação Novo Arco Íris e guerrilheiro desmobilizado do grupo M-19, seria interessante para o novo presidente considerar o convite de Cano ao diálogo. “Esse seria o momento perfeito para achar uma saída negociada para acabar com o conflito”, destaca, em referência à mudança de governo e ao enfraquecimento da guerrilha. Ele acredita, contudo, que o avanço militar não pode parar.

ONU denuncia impunidade
O Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas denunciou ontem a impunidade dos esquadrões de direita que cometeram graves violações dos direitos humanos na Colômbia, nos últimos anos. “Entre os mais de 30 mil paramilitares desmobilizados, a grande maioria não se enquadrou à Lei nº 975 de 2005, e falta clareza sobre sua situação jurídica”, indica uma resolução publicada em Genebra. “Conseguiu-se apenas uma sentença condenatória contra duas pessoas e foram abertas poucas investigações, apesar da sistemática violência revelada pelos paramilitares em declarações informais”, acrescenta o documento do comitê, que vigia o cumprimento do Pacto de Direitos Civis e Políticos da ONU.

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