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Calderón admite "guerra cada vez mais sangrenta" no México

Rodrigo Craveiro

Publicação: 03/09/2010 09:05 Atualização: 03/09/2010 09:58

Com 1,5 milhão de habitantes, Tijuana — no noroeste do México — é uma das portas de entrada para os Estados Unidos. Fica a apenas 27km de San Diego, na Califórnia. Destino final de uma das principais rotas de imigrantes, a cidade também desperta a ganância do narcotráfico pelo controle das drogas, no momento em que o Cartel de Tijuana sofre um processo de enfraquecimento. Quase duas semanas após o massacre(1) de pelo menos 72 latino-americanos no estado de Tamaulipas, a polícia mexicana agora se depara com o sequestro de 17 imigrantes. A denúncia de sequestro chegou ao conhecimento da polícia pelo ex-refém Leandro Martínez, 38 anos, libertado por seus captores. Ele contou que foi espancado e teve pés e mãos amarrados durante os 10 dias de cativeiro. Também foi obrigado a informar os telefones de parentes, dos quais foram exigidos US$ 4,5 mil de resgate. Leandro e outro imigrante foram abandonados anteontem perto de uma montanha, a leste de Tijuana.

O brasileiro Wagner dos Santos, 31 anos, mora em Tijuana desde 2002 e reclama do clima de insegurança. “A briga pela venda de drogas aqui é intensa. Como estamos perto da fronteira, o tráfico de pessoas e a prostituição são comuns”, admite o rapaz, que deixou o Rio de Janeiro para tentar se formar como professor. “Todos nós temos medo de sequestro ou que nos aconteça algo de ruim”, admite ao Correio, pela internet. De acordo com o mexicano Hector Dominguez-Ruvalcaba, professor da Universidade de Texas em Austin (EUA), a região noroeste do México é de “periculosidade média”. “Em Tijuana e em Ciudad Juárez, grupos de sequestradores têm operado em cumplicidade com a polícia local. Há vários casos de investigadores que, na verdade, estavam envolvidos nos sequestros”, afirma.

“A fronteira de Tijuana com San Diego é tradicionalmente palco de conflitos sociais e de crimes”, comenta Javier Oliva Posada, coordenador do Seminário de Segurança Nacional da Universidade Nacional do México (Unam). “Isso inclui a passagem de imigrantes ilegais, além do contrabando de armas e drogas”, acrescenta.

O sequestro em Tijuana é apenas mais um componente na violenta dinâmica do narcotráfico no país. “O México vive uma guerra cada vez mais sangrenta entre os grupos do crime organizado em sua disputa por territórios, mercados e rotas”, declarou ontem o presidente Felipe Calderón. Ele atribui as 28 mil mortes desde 2006 ao desespero dos cartéis, ante a perseguição das forças do governo. “A captura ou a morte de importantes líderes criminosos tem gerado nessas organizações expressões de maior desespero”, garantiu o mandatário, ao lembrar que 125 capos e testas-de-ferro morreram ou foram capturados em quatro anos.

O Exército atacou ontem um campo de treinamento de pistoleiros do narcotráfico em General Terviño, perto de Monterrey. A imprensa local informou que os combates deixaram 25 mortos.

Estatística
O instituto Pew Hispanic Center revela redução de 8% no número de imigrantes ilegais morando nos EUA. Em março de 2009, havia 11,1 milhões de pessoas nessas condições no país, contra 12 milhões em 2007. É a primeira reversão no crescimento da população de ilegais em 20 anos.

1 - Brasil oferece ajuda
O massacre de Tamaulipas ganhou um ingrediente de mistério. O equatoriano Luis Freddy Lala Pomavilla, um dos dois sobreviventes, contou que viajava com 76 pessoas quando o grupo foi interceptado pelos assassinos. O destino de dois imigrantes é desconhecido. Ontem, o Itamaraty confirmou ao Correio que o governo brasileiro colocou à disposição do México peritos e especialistas da Polícia Federal para ajudarem no reconhecimento de alguns dos 72 corpos. Ao menos 56 cadáveres foram transportados para a Cidade do México. Segundo a Agência Brasil, representantes do presidente Felipe Calderón se reuniriam ontem à tarde com o embaixador do Brasil no México, Sérgio Florêncio, com o cônsul-geral, Márcio Araújo Lage, e com diplomatas de Honduras, El Salvador e Guatemala para detalhar a identificação dos mortos.

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