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A paz na Colômbia é esperança para o mundo, diz Eamon Gilmore

Enviado especial da União Europeia a Bogotá afirma ao Correio que o acordo para encerrar conflito pode inspirar atores de outras guerras e ressalta importância da estabilidade para a região. Ex-chanceler da Irlanda vê o Nobel da Paz para Juan Manuel Santos como encorajador

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postado em 15/10/2016 06:00

Silvio Queiroz - enviado especial

Ricardo Clavello/Divulgação


Rio de Janeiro — O irlandês Eamon Gilmore incluiu nesta semana o Brasil no roteiro quase frenético que cumpre há quase um ano entre Europa, Cuba e Colômbia — desde novembro de 2015, quando foi designado como enviado especial da União Europeia (UE) para acompanhar o processo de paz entre o governo de Bogotá e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). “Assegurar a paz é do interesse de toda a região, e os países vizinhos têm contribuído”, disse, em entrevista ao Correio, pouco antes de falar sobre o difícil processo na 13ª edição da Conferência do Forte de Copacabana. O fórum se reúne anualmente no Rio de Janeiro, organizado pela Fundação Konrad Adenauer, pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e pela delegação da UE no país, e se tornou um dos principais eventos internacionais sobre segurança e defesa.

Gilmore seguiu de perto as negociações de Havana e assistiu à assinatura do acordo de paz definitivo, em Cartagena — uma semana antes de o texto ser rejeitado em plebiscito, por menos de 55 mil votos. Surpreso com o resultado, mas encorajado pela concessão do Nobel da Paz ao presidente Juan Manuel Santos, o ex-chanceler da Irlanda, que viveu há duas décadas o processo de paz na vizinha Irlanda do Norte, pondera que as feridas abertas por conflitos prolongados, como o colombiano, demoram para cicatrizar. E insiste na importância de contornar os obstáculos e concluir o processo. “Seria uma pena imensa perder essa oportunidade”, aconselha.


Depois de ter acompanhado as negociações de Havana, como o senhor recebeu a rejeição ao acordo de paz no plebiscito?
Bem, acho que, como para todos os envolvidos na campanha pelo “sim”, o resultado foi uma surpresa. Mas, é claro, ele tem de ser respeitado, foi a decisão dos eleitores. Acho que o mais importante foi a resposta ao plebiscito dentro da Colômbia. Foi uma resposta muito ponderada e construtiva, principalmente da parte do presidente Santos, que falou na mesma noite. Certamente, não era essa a expectativa, mas ele deixou clara a intenção de continuar buscando caminhos para levar paz à Colômbia, de construir a paz. Também os líderes das Farc reafirmaram a decisão de perseguir seus objetivos usando apenas as palavras como arma, e de manter o cessar-fogo. E houve, ainda, a resposta do ex-presidente Álvaro Uribe, que fez consultas com o presidente Santos e anunciou a disposição de entrar no diálogo nacional, a fim de que se consiga seguir em frente. Foram feitos muitos progressos no período decorrido desde a votação.

Como foi a reação da União Europeia?
A própria alta representante telefonou para Santos na manhã seguinte ao referendo para comunicar que a União Europeia continua comprometida com o apoio aos esforços pela paz na Colômbia.

Da sua experiência em Havana, qual a impressão sobre a disposição das Farc para aceitar alterações nos acordos?
Eu acredito que, sim, eles (guerrilheiros) aceitam mudanças. Isso se refletiu na declaração conjunta que fizeram na semana passada, depois de manterem conversações com os enviados do governo. Eles reafirmaram o cessar-fogo, aceitaram o resultado do plebiscito e se declararam dispostos a aguardar o resultado do diálogo nacional para analisar possíveis mudanças. Acho especialmente importante que esse diálogo se desenvolva rapidamente, sem sofrer retardo — é o que parecem esperar todos os que estão engajados.

As diferenças políticas entre Santos e Uribe podem prejudicar ou ameaçar a conclusão do processo?
Bom, eu tiro uma conclusão positiva do próprio fato de os dois terem se encontrado novamente, depois de praticamente seis anos. Foi uma reunião longa, o ex-presidente Uribe se mostrou disposto a se engajar construtivamente no diálogo. O importante é que não haja demora, pois isso pode ter implicações. As Farc estão em compasso de espera, com o processo de passar às zonas de concentração, e isso tem projeções para a operação de monitoramento do cessar-fogo pela missão das Nações Unidas. Ela tem um mandato de seis meses, o prazo original para que acompanhasse o processo de desarmamento, que passa a ser de monitoramento do cessar-fogo. E ele deve ser mantido ao longo do tempo que durar o diálogo nacional.

Nesse quadro, é boa notícia o anúncio de que o cessar-fogo foi estendido até o fim do ano...
Não existe, na verdade, um prazo para ele. Ambas as partes, o governo e as Farc, se comprometeram com um cessar-fogo definitivo, isso foi enfatizado numerosas vezes. A preocupação que tenho é com uma demora excessiva para se fazer progresso. Isso pode colocar tensão entre os que participam do processo.

Os comandantes das Farc que estão em Havana manifestaram receio pela segurança dos guerrilheiros nesse meio tempo?
Sempre houve essa preocupação deles com o pessoal no terreno. Isso tem uma história, vem das outras tentativas de paz em que muitos deles foram dizimados. Mas o tempo é um fator. Existe a compreensão de que é possível manter a segurança (dos guerrilheiros concentrados nas áreas de pré-agrupamento) por um período não muito longo. Se o diálogo se prolongar, isso pode colocar tensão em diversos aspectos do processo, por isso a importância de resolver rapidamente.

O senhor vê paralelos entre o processo de paz na Colômbia e outros recentes, como o do IRA, na Irlanda do Norte, ou da ETA, na Espanha?
Primeiro, temos de reconhecer que são países bem diferentes. Eu tive a experiência de lidar com o processo na Irlanda do Norte, na época em que era ministro de Relações Exteriores do governo irlandês. Há diferenças de escala e quanto às origens de cada conflito, mas também paralelos. É possível tirar lições do processo com o IRA. Porque, para a paz, não basta concluir um acordo e está tudo feito. Algumas vezes, há obstáculos, dificuldades a superar. Na Irlanda do Norte, o primeiro cessar-fogo do IRA foi acertado em 1994 — eu fui ministro na Irlanda em meados dos anos 1990. Essa trégua foi rompida em 1996, quando eles colocaram uma bomba no centro financeiro de Londres. Nós chegamos ao acordo definitivo em 1998, o chamado Acordo da Sexta-Feira Santa. Foi preciso construir outros vários acordos, que não o substituíram, foram acrescentados. A virtude está na paciência, na perseverança, em enxergar sempre qual é o prêmio que se pretende alcançar — colocar um fim na violência e assegurar que ela não retorne. Agora, passados 18 anos do acordo, o processo de paz na Irlanda do Norte ainda é um trabalho em andamento, ainda há coisas por fazer. Porque todo conflito como esse, em particular o da Colômbia, onde tanta gente foi morta, toma muito tempo para terminar. Porque as pessoas foram feridas, tiveram perdas. É preciso tempo para que todo esse sofrimento humano possa ser superado.

Estamos falando de um quarto de milhão de mortos...
Um pouco menos, a cifra mais aceita é de 220 mil. Mas, corremos o risco de ser muito frios quando falamos em números. Eu, por exemplo, penso em um menino de Cartagena, que estava jogando futebol com os amigos, e então a bola foi parar no mato. Quando ele foi buscar, pisou numa mina e foi despedaçado. Tinha 6 anos. Esse é o lado humano. Números são frios. Os 220 mil mortos são histórias individuais e um enorme sofrimento pessoal em cada uma delas. Seis milhões de pessoas foram deslocadas de suas casas. A Colômbia, hoje, é o segundo país mais minado do mundo, atrás apenas do Afeganistão. Essa, aliás, é uma das coisas práticas saídas do processo de paz: o trabalho conjunto que está sendo feito entre o Exército e as Farc para mapear os campos minados, e aqui há um problema, porque muitas das pessoas que seriam chaves nesse processo morreram. Esse aspecto do acordo, a remoção das minas, faz parte das medidas de confiança adotadas no processo. Uma das decisões tomadas em Havana, na semana passada, foi seguir com esse trabalho.

Os países vizinhos podem contribuir de alguma maneira para que o processo de paz siga em frente?
Os países latino-americanos têm apoiado o processo, em especial os que enviaram pessoal para a missão de monitoramento (do cessar-fogo). Assegurar a paz na Colômbia é importante para toda a região, e os países têm procurado contribuir, tanto quanto os países acompanhantes do processo (Chile e Venezuela). Eu estive nesta semana também em Brasília para conversar com altos funcionários do Ministério das Relações Exteriores, e sei que existe vontade de contribuir. É importante que os vizinhos façam isso, e vêm fazendo — seja no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), da Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac).

A decisão de iniciar conversações também com o Exército de Libertação Nacional (ELN) ajuda de que maneira a criar um
ambiente favorável?

Ajuda muito mesmo. Eu sempre fui da opinião de que trazer o ELN para o processo é um elemento importante para que se possa chegar a um acordo revisado com as Farc, que tem o potencial para conquistar amplo apoio na sociedade colombiana e, com isso, de ser implementado. E um acordo com o ELN representa colocar um fim à violência motivada politicamente no país. Claro que existe a violência ligada ao narcotráfico, e, por isso, uma parte importante dos acordos de Havana diz respeito a lidar com o problema das drogas ilícitas. Existe, agora, uma oportunidade de pôr fim a essa violência e propiciar um futuro brilhante para a Colômbia.

O prêmio Nobel da Paz favorece em qual medida o presidente Santos, nesse empurrão final?
Esse prêmio, pelo qual parabenizo o presidente Santos, é um manifesto, uma declaração de como o processo de paz na Colômbia é importante para o mundo. Não tenho dúvida de que o Nobel da Paz, ainda mais pelo momento em que foi concedido, representa um encorajamento, além do reconhecimento ao presidente pela perseverança. Ele investiu uma imensa quantidade de capital político nesse processo, e, com o resultado desfavorável do plebiscito, ele se pronunciou logo depois para dizer que seguiria buscando caminhos para a paz na Colômbia.

Em outras ocasiões, o Nobel da Paz foi conferido às diferentes partes do conflito, como no caso de Israel com os palestinos.
Como o senhor viu a ausência das Farc neste ano?

Voltando outra vez ao processo da Irlanda do Norte, o Nobel foi concedido às duas partes do conflito (partidários e opositores do domínio britânico), mas não foram incluídos líderes do IRA, nem de seu braço político, o Sinn Fein. A ausência das Farc, agora, não me surpreendeu.

 

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