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Sobreviventes do atentado no Bataclan voltam ao cenário do massacre

"Deixei no Bataclan um monstro sanguinário com caninos que tentavam me devorar", lembra a vice-presidente da associação de vítimas Life for Paris, Caroline Langlade

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postado em 19/10/2016 22:31 / atualizado em 19/10/2016 22:43

France Presse

Houve quem estivesse paralisado, quem tivesse chorado e refeito o trajeto daquela noite para fugir dos extremistas que atiraram contra o público na casa de shows parisiense Bataclan; meses depois, os sobreviventes voltaram aos locais do atentado de 13 de novembro de 2015.

"Deixei no Bataclan um monstro sanguinário com caninos que tentavam me devorar", lembra a vice-presidente da associação de vítimas Life for Paris, Caroline Langlade. "E, afinal, era só uma sala com paredes onde aconteceu algo trágico. Não é o prédio que é trágico", continuou.

Em sua memória, as escadas que subiu para se refugiar nos camarins tinha forma de caracol e eram de madeira. Durante a visita, se dá conta de que são "como sempre foram: retas e de cimento".

Junto com outra associação de vítimas, a associação de Langlade organiza desde março "momentos de recolhimento, confidenciais e íntimos" para os sobreviventes do atentado cometido por um comando extremista que entrou no Bataclan durante o show da banda de rock americana Eagles of Death Metal.

 

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Na primeira sessão, no começo de março, participaram cerca de 130 pessoas. A segunda, no início de outubro, reuniu 260. Algumas vieram de longe: Estados Unidos, Holanda, Escócia ou Espanha.

Naquele 13 de novembro, 90 espectadores foram massacrados pelos três extremistas durante uma tomada de reféns interminável, enquanto outros dois comandos semeavam a morte em outras partes de Paris e no Stade de France, em Saint-Denis. No total, 130 pessoas foram assassinadas nos piores atentados já cometidos na França.

"A saída de emergência estava a sete metros, mas nas minhas lembranças, parecia uma distância infinita", conta Maureen, de 28 anos, que esteve no Bataclan porque precisava "recuperar a posse do lugar". "Estou voltando, ninguém me obrigou, e esta é uma forma de vitória sobre o que vivemos aquele dia", afirma.

Segundo uma organizadora, "alguns inclusive se deitaram no 'fosso' da sala, se arrastaram e refizeram o caminho percorrido, se posicionaram ali onde tinham se escondido".

Esta recuperação do espaço tem um "efeito tranquilizador", constata Florence Deloche-Gaudez, da célula de emergências médico-psicológicas, presente em cada visita. Isto "pode fazê-los reviver o momento, voltar a sentir as sensações: os barulhos, os cheiros, as imagens, o medo... Alguns paralisaram, outros iam e vinham, refaziam o caminho percorrido".

Mas, explica, os sobreviventes "puderam se preparar" e estavam acompanhados de psicólogos. Também "podiam trocar com outras vítimas presentes", em particular "com agentes de segurança do Bataclan, que respondiam suas perguntas", explica Deloche-Gaudez.

Reconstruir a vivência
Ela considera que "para eles, que viveram uma experiência de morte, isto os ajuda a sair da impotência e atenuar o trauma". Alguns, "em sinal de luto, queriam posicionar-se no mesmo local em que morreu seu familiar".

Desde janeiro, algumas vítimas expressam o desejo de voltar ao Bataclan. Um pedido ao qual responderam as associações de vítimas, com total discrição. Em grupos de cinco ou seis, as vítimas ou familiares de pessoas falecidas puderam entrar na sala ainda em obras de restauração. No local, há uma dezena de psicólogos e bombeiros e vítimas que às vezes ficam por "até uma hora", explicam na Life for Paris.

Algumas velas, cartas e flores são depositadas no local. No Bataclan, que reabrirá em novembro, contam que "tentaram respeitar os diferentes pedidos das vítimas e responder assim que possível".

Alguns tinham dúvidas sobre o efeito deste retorno. "Quando se faz algo assim, não se sabe o que vai acontecer. Ao sair, me senti mais tranquila... Pode parecer macabro, mas a reconstrução ajuda" na recuperação, admite Maureen.

Deloche-Gaudez lembra também a "todos aqueles que não podiam ou não queriam vir", "aos que dizem, 'não voltarei a pisar no Bataclan, para mim é um cemitério, um túmulo'".

Há também os que preferem outras circunstâncias, como Anthony, de 37 anos: "quero voltar ao Bataclan para ver shows e, sobretudo, não estar cercado de vítimas. Cada um o vive à sua maneira".

Depois dos atentados, algumas vítimas adquiriram o hábito de se aproximar diariamente do Bataclan para um momento de recolhimento. Pedestres, turistas e vizinhos também vão como peregrinos em frente à sala e deixam flores, desenhos, bichos de pelúcia e mensagens na calçada.

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