Rodrigo Duterte tem aval de 86% da população, índice sem precedentes

Especialistas avaliam que líder reduziu a burocracia e adotou estilo contrário às elites

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 24/10/2016 06:00


Em pouco mais de 100 dias de governo, o presidente filipino, Rodrigo Duterte, enfureceu organizações em defesa dos direitos humanos; rompeu relações de mais de um século com os Estados Unidos, depois de chamar o colega Barack Obama de filho da p... ; e se comparou ao líder nazista Adolf Hitler. Polêmico e de temperamento explosivo, o líder, que ficou famoso por defender a execução sumária de usuários e de traficantes de drogas que resistirem à prisão, mantém altos índices de popularidade. Para muitos dos 102,6 milhões de filipinos — um quarto vivendo abaixo da linha de pobreza —, Duterte destoa de antecessores provenientes das elites e encarna a figura de um líder que se aproxima dos miseráveis. Para especialistas, a receita de sucesso envolve, justamente, a espontaneidade nas palavras.

Professora de ciência política da Universidade Ateneo, de Manila, Alma Maria O. Salvador afirma ao Correio que a gestão de Duterte conta com o aval de 86% da população. “Os seus índices são mais baixos na região metropolitana da capital, que abriga apoio ao ex-presidente Noynoy Aquino entre as elites políticas. Além delas, os empresários e os professores universitários condenam o método ‘atirar para matar’ adotado por Duterte”, explicou. As Filipinas enfrentam a explosão da droga conhecida como shabu, que se impõe como grande desafio à saúde pública. “As elites atacam a falta de postura de estadista de Duterte, refletida em sua retórica inflamada. Mas o apoio dele nas ilhas de Mindanao e de Visayas continua muito alto”, acrescenta Alma.


 

De acordo com Aries Arugay, cientista político da Universidade das Filipinas-Diliman (em Quezon City), o índice de 86% de aprovação é “surpreendente” e “sem precedentes”. “Os filipinos veem o governo de Duterte como uma gestão que trabalha pelo cidadão comum, ao focar atenção nos problemas da lei e da ordem. Algumas coisas feitas em 100 dias, como o aprimoramento dos processos burocráticos, podem ser vistas como triviais pelas elites filipinas, mas são temas de grande importância para a maior parte da população”, disse à reportagem.

Arugay lembra que, em recente entrevista à emissora árabe Al Jazeera, Duterte revelou que utiliza a tática do medo ao abordar a questão das drogas. “Por isso, ele ameaçou assassinar criminosos e cometer uma pequena violação dos direitos civis. No entanto, a maioria dos filipinos crê que o governo é eficiente na guerra contra as drogas, segundo as pesquisas de opinião pública. Eu acredito que a fase crítica será mudar a atenção das operações letais da polícia para a reabilitação e para métodos que vislumbrem o problema das drogas sob a perspectiva de saúde pública e da economia”, observa. Ele afirma que Duterte tem se esforçado para construir centros de reabilitação por todo o país.


 

Assassinatos
Os números, entretanto, assustam e preocupam. Desde a posse de Duterte, em 30 de junho passado, os vigilantes — grupos de extermínio aliados ao governo — mataram mais de 3,8 mil pessoas. Desse total, 1,5 mil morreram durante operações policiais. “Nós temos 3 milhões de viciados em drogas e esse número cresce. Se não interviermos nesse problema, a próxima geração terá um grave problema. (...) Vocês destroem meu país, eu matarei vocês. E é algo legítimo. Se vocês destruírem nossos jovens, eu matarei vocês”, ameaçou o presidente, que prometeu “encher a Baía de Manila” de corpos de traficantes, “para alimentar os peixes”.

Richard Heydarian, professor de ciência política da Universidade De La Salle e da Universidade Ateneo de Manila, explicou ao Correio que a alta popularidade de Duterte pode ser justificada pelo fato de ele estar na fase de lua de mel com o eleitorado, mas também pela aceitação de sua vontade política e de seu poder de decisão. “A sua guerra às drogas também foi saudada pela maioria da população, ainda que mais de 70% dos filipinos discordem do assassinato de suspeitos de usá-las. Uma reabilitação em larga escala parece o único caminho adiante”, previu. Heydarian admite que as relações diplomáticas com os EUA estão tensionadas por causa das tiradas de Duterte e do flerte aberto com a China. “Eu duvido que os laços militares fundamentais sejam interrompidos ou reduzidos de modo significativo.”

Epidemia do vício

Conhecido no Ocidente como “gelo”, o shabu é uma forma pura e potente de anfetamina nas Filipinas e em outras partes da Ásia. A droga pode ser fumada, injetada, inalada ou dissolvida na água. O país é a base para a produção em laboratório de toneladas de shabu, que depois são distribuídas pela Ásia, ao preço de US$ 22 o grama. Duterte afirma que o shabu se tornou uma epidemia e listou 150 oficiais, policiais e juízes supostamente ligados ao tráfico da substância.

Sem papas na língua
Comparação com Hitler

Em 30 de setembro, durante discurso em Davao, cidade onde atuou como prefeito e foi acusado de avalizar os esquadrões da morte, Rodrigo Duterte se comparou ao líder nazista, Adolf Hitler, e causou repulsa mundial. “Hitler massacrou 3 milhões de judeus. Agora, há 3 milhões de viciados em drogas. Eu ficaria feliz em matá-los”, afirmou.

Diplomacia às avessas

Em 5 de setembro, ao responder a críticas do presidente norte-americano, Barack Obama, sobre direitos humanos, o líder filipino esqueceu os bons modos. “Você deve ser respeitoso. Apenas não lance questões e declarações. Filho de uma p..., vou amaldiçoá-lo neste fórum”, declarou Duterte, às vésperas do encontro da Associação de Nações do Sudeste da Ásia.

Desprezo pela vida
Duterte defendeu a execução extrajudicial de traficantes de drogas, durante pronunciamento feito em 21 de agosto passado. “As vidas de 10 desses criminosos realmente importam? Se eu sou o único enfrentando todo esse pesar, as vidas de 100 idiotas significam algo para mim?”, questionou.


Pontos de vista
Por Alma Maria O. Salvador

Em defesa do tratamento

“As elites filipinas questionam os assassinatos de traficantes, classificados por elas de ‘execuções extrajudiciais’. O Senado investiga esses crimes, mas não está provado que esses homicídios são autorizados pelo Estado, apesar de conduzidos pelas gangues de vigilantes. Os simpatizantes de Rodrigo Duterte, do interior das elites intelectuais, propuseram uma mudança na estratégia antidrogas, com foco na saúde pública. Eles defendem que as pessoas envolvidas com drogas sejam enviadas a centros de reabilitação, não a prisões.”

Professora de ciência política da Universidade Ateneo de Manila

Por Aries Arugay
Espontaneidade pouco comum

“Rodrigo Duterte  busca implementar uma política externa independente e crê que a aliança com os EUA estava fortemente pendente a favor dos interesses dos norte-americanos. Não é sua personalidade explosiva o fator prejudicial, mas as declarações espontâneas, muitas vezes levadas ao pé da letra. A chave é fazer distinção entre a retórica e as ações políticas.”

Professor de ciência política da Universidade das Filipinas-Diliman, em Quezon City

Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.