Muro proposto por Trump faz cada vez menos sentido

Donald Trump mantém a promessa de erguer um muro na fronteira com o México. Mas o número de imigrantes vem diminuindo

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postado em 05/11/2016 11:23 / atualizado em 05/11/2016 12:34

John Moore/AFP


Os 3.141km da fronteira entre Estados Unidos e México protagonizam uma das ideias mais controversas da eleição presidencial da próxima terça-feira. A promessa do candidato republicano, Donald Trump, é empilhar 7 milhões de metros cúbicos de concreto para bloquear Arizona, Califórnia, Novo México e Texas do avanço de imigrantes ilegais. Num acordo-chantagem, caberia ao México arcar com os US$ 12 bilhões necessários à obra. Os EUA bloqueariam as remessas financeiras de imigrantes do país vizinho até que o pagamento viesse. De certa forma, a proposta de Trump ignora uma tendência mostrada pelas estatísticas: e se ninguém quiser atravessar o muro?

A entrada de imigrantes nos EUA — legalmente ou não — tem caído de forma consistente. Dados do centro de estudos Pew Research Center mostram que, de 1995 a 2000, entre chegadas e partidas, o país viu crescer em 2,27 milhões o número de imigrantes mexicanos. O saldo se tornaria negativo, uma década depois. De 2005 a 2010, os EUA passaram a ter 20 mil cidadãos nascidos no México a menos. O estudo será atualizado após o censo de 2020.

No ano passado, o Wall Street Journal relatou como fazendeiros na Califórnia e no estado de Washington perdiam parte dos cultivos por não conseguir encontrar trabalhadores para a colheita. A maior parte dos camponeses era de mexicanos, mas os dados não são exatos, devido à informalidade no setor. A construção civil, setor em que as informações são mais precisas, perdeu 600 mil trabalhadores mexicanos desde 2007.

Demografia


Parte da explicação está na taxa de natalidade, que diminui a cada década, em todos os países da América Latina e do Caribe. Há 50 anos, as mulheres do México tinham sete filhos, em média; hoje, são dois, segundo o Banco Mundial. No México, desde 1980, o número de casamentos por ano caiu 32%, e o de divórcios subiu 345%. Menos nascimentos, menos trabalhadores, menos gente disposta a tentar a vida no país mais rico do mundo.

A quantidade de imigrantes ilegais detidos, enquanto isso, chegou ao nível mais baixo desde os anos 1970. No ano passado, a patrulha de fronteira dos EUA encontrou 188 mil latinos nessa situação, na divisa com o México. Em 2000, ápice das apreensões, o número chegou a 1,6 milhão. A proporção de pessoas na ilegalidade caiu de 1 a cada 180 imigrantes para 1 a cada 1.900.

“O muro é um ataque ao povo latino. Hoje, a qualidade de vida é parecida em cidades americanas e mexicanas do mesmo porte. Dizer o contrário é preconceito. Eu não queria estar discutindo isso em 2016, mas, infelizmente, foi colocado à mesa”, critica Eduardo Sainz, diretor adjunto do Mi Familia Vota, organização não governamental (ONG) progressista que, neste ano, habilitou para votação 75 mil eleitores de ascendência latina — a maioria deles unida em um voto anti-Trump. “Para muitos eleitores que ajudamos, o espanhol é a primeira língua. Alguns mal falam o inglês. Nosso trabalho é educá-los para a cidadania americana que eles têm.”

“Malvados”


O compromisso de construir o muro na fronteira foi assumido pelo candidato republicano ao som de comentários xenófobos, nos quais Trump igualou os estrangeiros residentes no país a criminosos, ao declarar, no início da campanha presidencial, que o México tem exportado para os EUA “assassinos, estupradores e traficantes” — os “malvados”, como disse o candidato, em espanhol, em um dos debates com a rival democrata, Hillary Clinton. Na mesma época, prometeu expulsar os cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais e aumentar o custo dos vistos temporários e das taxas de entrada no país.

Apesar das palavras de Trump — “o muro pode ter entre 35 e 45 pés (10m a 14m), essa é uma boa altura” —, um dos apoiadores do projeto aponta que “a imprensa reagiu exageradamente”. “Quem acredita que ele vai colocar tijolos em cada centímetro por 2 mil milhas é uma pessoa que perdeu a noção”, diz o advogado Dan Stein, presidente da Federação para a Reforma da Imigração Americana (Fair).

Na visão de Stein, o muro prometido pelo bilionário é um recurso majoritariamente virtual. “Quando Trump fala sobre um muro, a linguagem que ele está usando é a que qualquer um usaria, em uma campanha política. É uma metáfora que muitos não entendem”, argumenta.

Nos questionamentos direcionados à população americana, os institutos de pesquisa têm se concentrado em uma estrutura mais tangível, erguida com arame e concreto. No mês passado, uma consulta divulgada pela Reuters/Ipsos mostrou que 47% dos eleitores do Arizona consideravam o muro um “desperdício de dinheiro”; 34% o avaliavam como uma “barreira eficaz” e 19% não souberam ou não quiseram responder. O estado, principal porta de entrada dos imigrantes ilegais, reflete o pensamento americano nacional: 49%, 31% e 20%, respectivamente.

 

Cidades Separadas 

 

Hoje, 30% da fronteira EUA-México é bloqueada por barreiras de extensão e altura variáveis. Muros, cercas e tapumes separam os dois países, em alguns setores, ao longo de 930km, no total. No restante da linha demarcatória, o controle se limita ao monitoramento de sensores e câmeras, por parte do governo norte-americano.

O principal acesso dos imigrantes ilegais se dá pelo Deserto de Sonora, que cobre boa parte dos estados americanos do Arizona e da Califórnia. Nesse trecho, não há barreiras físicas. No restante da fronteira, há 330 portões de entrada em 35 cidades, servindo aos quase 12 milhões de americanos e mexicanos que moram a menos de 10km do país vizinho.

Muitas vezes, os muros hoje existentes dividem cidades geminadas, muitas delas de nome igual. Uma estrutura de 3m de altura divide a Tecate com placas em inglês da Tecate com avisos em espanhol. Também há duas Nogales, uma em cada país. O município americano tem 20 mil habitantes. O mexicano, 20 vezes mais. As divisões também atingem metrópoles como Tijuana (México) e San Diego (EUA).

A construção das barreiras teve início em 1994, com a Operação Guardião, sob comando do então presidente dos EUA, Bill Clinton. O programa durou apenas quatro anos e foi cancelado após receber um orçamento de US$ 800 milhões, no período.
 

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Galdete
Galdete - 05 de Novembro às 15:16
Deus!!! Quando lembro de Presidentes que afirmavam que aqueles que ingressarem em território Norte Americano através do mar teria garantida cidadania. É um absurdo ouvir isso quanto orgulho!!! Vai ver nunca sentiu fome!!?