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Artigo: Uma só eleição para muitos escândalos

Diferentemente de outras campanhas presidenciais da história recente dos EUA, o processo eleitoral de 2016 segue marcado por uma série de elementos que colocam em dúvida as biografias de ambos os postulantes

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postado em 09/11/2016 18:45 / atualizado em 11/11/2016 12:39

Se há uma palavra que pode definir a atual eleição nos Estados Unidos da América, ela é escândalo. A título de definição, esse texto compreende escândalo como sendo indignação, perplexidade ou sentimento de revolta provocados por atos que violam convenções morais e regras de decoro. E, especificamente, em se tratando de uma eleição que decidirá os rumos da nação mais importante do planeta pelos próximos quatro anos, a sucessão de denúncias que causam perplexidade entre os cidadãos é, sem sombra de dúvida, o elemento mais aparente da atual campanha eleitoral.

Diferentemente de outras campanhas presidenciais da história recente dos EUA, o processo eleitoral de 2016 segue marcado por uma série de elementos que colocam em dúvida as biografias de ambos os postulantes. De um lado, tem-se Donald Trump com sua narrativa de negação e autopromoção pelo não pagamento de impostos, acompanhada de uma série de gravações, nas quais suas descrições acerca do gênero feminino levaram a um novo nível a percepção de conversa de vestiário. Do outro, tem-se Hillary Clinton e a infindável questão do uso de um provedor particular de e-mails para estabelecer comunicações altamente sigilosas do Departamento de Estado.

Inequivocamente, cada um dos militantes constrói em torno de si uma série de aparatos narrativos que serve para diminuir o nível de escândalo daquilo que envolve o seu candidato e, paralelamente, tentam aumentar o impacto do que envolve seu rival. De maneira clara, tais questões são até naturais em termos de campanha eleitoral. Contudo, o que chama atenção no atual momento é o fato de que não se tem notícia de uma campanha em que ambos os candidatos chegassem às vésperas do processo eleitoral tão imersos em denúncias dos mais diversos tipos e matizes.
De fato, pode-se afirmar que no atual momento, os maiores rivais de Hillary Clinton e Donald Trump são suas próprias biografias e narrativas.  Enquanto para os democratas pesam denúncias graves acerca da idoneidade da Sra. Clinton em lidar com assuntos de interesse público, para os republicanos o discurso claramente autoritário e o visível descaso de Trump com os prédios e travas institucionais causam pânico em muitos de seus opositores.

Tal situação gera, efetivamente, uma situação na qual vencerá a eleição aquele que desanimar menos seus eleitores a comparecerem às urnas. Em Ohio, por exemplo, onde é permitido o voto com antecedência, a mobilização de ambos os partidos tem sido feita no sentido de estimular ao máximo tal prática, contudo, ao observar o processo “in loco”, percebe-se que há um enorme desânimo entre aqueles que de fato decidem qualquer processo eleitoral, os moderados de lado a lado.
Na tentativa exaustiva de captar eleitores indecisos ou desestimulados de comparecerem às urnas, as campanhas assumiram na sua reta final a estratégia de desqualificar o adversário – com a dúvida de que isso ainda seja possível. E, como consequência desse processo, o nível do debate político, ou melhor, a falta de bom nível no debate político, impõe ao cidadão comum uma enxurrada de insultos, denúncias e alegações das mais diversas.

Chega-se, portanto, ao fim do processo eleitoral nos EUA com a nítida sensação de que esta é, sem sombra de dúvidas, a eleição mais peculiar da história recente deste país. E pode-se afirmar que, independentemente do resultado, a democracia americana sai desta eleição ferida e a própria percepção de avanço irrefreável deste sistema como ideia e processo entram em cheque. Faz-se necessário, portanto, a construção de um amplo processo de reconciliação nacional. Afinal, como afirmou Barack Obama, em discurso recente na cidade de Cleveland, “O progresso é um objetivo duro de ser alcançado”. Nestes termos, ambos os candidatos conseguiram, em algum sentido, criar barreiras para a consolidação do mesmo.

 

Creomar Lima Carvalho de Souza é professor de Relações Internacionais na Universidade Católica de Brasília e está acompanhando as eleições norte-americanas a convite do Departamento de Estado do Governo dos Estados Unidos da América.

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