Comportamento de Trump no episódio 'conexão russa' é comparado a Watergate

Obstrução de Justiça invoca paralelos com o escândalo que derrubou Richard Nixon

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 17/05/2017 08:26 / atualizado em 17/05/2017 08:48

 AFP / SAUL LOEB


Em meio às tentativas de minimizar os relatos de que o presidente Donald Trump compartilhou informações confidenciais com autoridades russas, a Casa Branca sofreu ontem um segundo golpe, que pode colocar o presidente Donald Trump na mira de um processo de impeachment. Segundo o jornal The New York Times, James Comey, recém-afastado da direção do FBI (polícia federal), relatou em um memorando que o mandatário pediu o fim das investigações sobre o ex-conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn, que deixou o cargo depois de a imprensa americana revelar seus encontros reservados com o embaixador russo, Sergey Kislyak, durante a campanha eleitoral. A interferência do presidente no caso poderia configurar obstrução de Justiça, o mesmo motivo que levou à abertura do processo de impeachment contra Richard Nixon, em 1973, e à sua renúncia, no ano seguinte, como desdobramento do escândalo Watergate.


Comey teria registrado o suposto diálogo com Trump em um texto que faria parte de um pacote de documentos deixados pelo ex-diretor do FBI como possíveis provas da tentativa de Trump de influenciar a investigação. Embora Flynn tenha deixado o cargo assim que vieram a público as reuniões com Kislyak, ele não foi o único assessor próximo do presidente a manter contato com emissários do Kremlin. As relações entre a equipe de Trump e funcionários de Moscou são investigadas no âmbito das suspeitas de interferência russa em favor do republicano na eleição de 2016.

A confiabilidade do presidente estava em questão desde a véspera, quando o Washington Post revelou que ele teria passado detalhes sigilosos sobre uma ameaça terrorista durante encontro que teve, na semana passada, com o embaixador Kislyak e o chanceler russo, Sergei Lavrov. Segundo o Times, a informação citada por Trump foi fornecida pela inteligência de Israel, principal aliado dos EUA no Oriente Médio, que não autorizou o compartilhamento. O sucessor de Flynn, H.R. McMaster, tomou a dianteira dos esforços para convencer a imprensa de que a reunião com Lavrov e Kislyak foi “totalmente apropriada”.

Crise constitucional

Mesmo que o presidente não tenha violado normas sobre o manejo de informações sigilosas, o caso pode gerar receios entre aliados dos EUA, além de alimentar as turbulências que rondam a Casa Branca em torno da “conexão russa”. Para Anthony Gaughan, professor de direito da Drake University, em Iowa, Trump está em maus lençóis: “Os EUA estão a caminho de uma crise constitucional”.

O estudioso explica que o presidente está legalmente autorizado a retirar a classificação confidencial de qualquer informação, mas avalia que o último incidente foi um “grande erro político e estratégico”. Gaughan acredita que uma acusação por traição seja difícil de ser sustentada, mas ressalta que o presidente pode ver o fim de sua empreitada política se for culpado de obstruir as investigações do FBI. “Segundo a Constituição dos EUA, a obstrução de Justiça é crime grave e abre caminho para o impeachment.”

O comportamento de Trump no episódio da “conexão russa” começa a suscitar comparações com o caso Watergate e a renúncia de Nixon. Em 1974, a descoberta de que o mandatário fazia gravações secretas na Casa Branca sustentou a acusação de obstrução de Justiça. “Agora, há indicações de que o próprio Trump pode ter gravado conversas com Comey, o que sugere que a história está se repetindo”, observa o professor.

A intensificação da crise política pode forçar membros da maioria governista no Congresso e até aliados da Casa Branca a dar início ao processo de remoção do mandatário. “O comportamento de Trump tem sido cada vez mais instável e volátil. Então, é possível que a 25ª Emenda seja invocada pelo vice-presidente Pence e pela maioria do gabinete, se eles avaliarem que o presidente não tem capacidade de ocupar o posto.”

Liberdade para helsea Manning


Ao fim de sete anos de prisão, a ex-militar transexual que entregou ao site WikiLeaks mais de 70 mil documentos confidenciais dos Estados Unidos, causando um escândalo que estremeceu as relações de Washington com importantes aliados, deixa hoje a prisão militar de Fort Leavenworth, no Kansas. Com a identidade de Chelsea Manning e a condição de mulher transgênero, depois de submeter-se a uma cirurgia de mudança de sexo, ela beneficiou-se da comutação da sentença original de 35 anos, medida firmada por Barack Obama nos últimos dias de mandato. “Pela primeira vez, posso ver um futuro para mim como Chelsea. Posso imaginar sobreviver e viver como a pessoa que sou e, finalmente, posso estar do lado de fora no mundo”, escreveu na semana passada Manning — que, quando presa, era o soldado Bradley. Hoje com 29 anos, ela deve se hospedar incialmente na casa de uma tia, na região de Washington.


Esnobou o FBI

Depois de ter visto se frustrar no ano passado sua indicação para a Suprema Corte, obstruída pela maioria republicana no Senado, o juiz federal Merrick Garland mandou dizer, por meio de amigos, que não está interessado em substituir James Comey na direção do FBI. “Ele gosta de seu trabalho e não tem interesse em deixar o Judiciário”, disse uma fonte ouvida pelo jornal The Washington Post. Embora não tenha recebido um convite formal, Garland era cotado para o cargo e seu nome foi recomendado ao presidente Donald Trump pelo líder goverinsta no Senado, Mitch McConnell. A recusa do juiz se segue ao anúncio do senador John Cornyn, outro integrante da liderança da bancada republicana, que retirou seu nome de consideração, diante da resistência exibida pelos próprios correligionários.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.