Macron e Merkel assumem liderança para fortalecer Zona do Euro

Presidente da França, e a chanceler da Alemanha têm a missão de preservar a integração e refundar o bloco, envolto em forte crise

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postado em 29/05/2017 06:15 / atualizado em 28/05/2017 23:50



A saída do Reino Unido, a crise migratória sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial,  a ameaça terrorista, o lento crescimento da economia, o desemprego que afeta principalmente os jovens, a política expansionista da Rússia, a crescente dívida dos 27 países remanescentes. Uma conjunção de fatores coloca em xeque a existência da União Europeia (UE) enquanto bloco calcado na integração e no livre trânsito entre as fronteiras. Depois de assumir a Presidência da França, o banqueiro e ex-ministro Emmanuel Macron começou a ensaiar uma ampla reforma da UE. No primeiro encontro com a chanceler alemã, Angela Merkel, ele propôs uma “refundação histórica da Europa” — o que incluiria a criação de um único parlamento para os países do euro, a nomeação de um ministro das Finanças central e a adoção de um orçamento autônomo para a concessão de empréstimos. Pela primeira vez em 60 anos, franceses e alemães admitem modificar o Tratado de Roma para garantir fôlego à União Europeia. Macron também se reuniu com Jean-Claude Juncker e com Donald Tusk, respectivamente presidentes da Comissão Europeia e do Conselho Europeu.

Sebastian Dullien, professor de economia internacional e especialista do Conselho Europeu sobre Relações Exteriores, acredita que as chances de refundação da União Europeia são melhores do que em qualquer outro momento da história. “Macron e Merkel firmarão um compromisso para reformar o quadro de governança da Zona do Euro. O líder francês prometeu recuperar a economia de seu país, incluindo os mercados de trabalho fortemente regulados. A chanceler, por sua vez, pode mais facilmente vender um compromisso à opinião pública da Alemanha”, afirma ao Correio. Ele não descarta que as reformas na França possam ser combinadas com a criação de um orçamento comum para a área do euro. “Para alcançar um acordo nesse sentido, Merkel terá que convencer os conservadores de seu partido União Democrata-Cristã (CDU, pela sigla em alemão)”, alerta.

Segundo Dullien, a Zona do Euro precisa concluir a união bancária e criar um mecanismo centralizado de estabilização fiscal. “Isso poderia incluir fundos de investimentos a serem desembolsados centralmente ou algum tipo de seguro-desemprego, que apoiaria as nações em situações econômicas extremas”, observa. O estudioso acha pouco provável que outros países imitem o Reino Unido e ativem o seu próprio “Brexit”. “Em primeiro lugar, as mudanças necessárias para o bloco se aplicariam somente à Zona do Euro, não à UE  como um todo, e os países mais eurocéticos estão fora da Zona do Euro. Em segundo lugar, algumas das transformações devem ser  implementadas para os Estados que buscam uma maior integração”, comenta. Ele aposta que Merkel exercerá grande influência sobre as demais nações em relação à postura a seguir.

Niklas Helwig, especialista do Centro para Relações Transatlânticas da Universidade Johns Hopkins, explica que a vitória de Macron contra a ultradireitista Marine Le Pen foi, definitivamente, um sinal de esperança de que a França desempenhará um papel mais incisivo na  reforma da UE, nos próximos anos. “Fortalecida pelo sucesso nas recentes eleições regionais e menos vulnerável às críticas domésticas, Merkel é capaz de fazer concessões à França, em relação a possíveis reformas do bloco. Mas, não podemos  nos enganar. Uma  ‘histórica refundação da União Europeia’ é um longo caminho. Merkel foi cuidadosa em suas  declarações, ao sustentar que encorajará as reformas, ‘se elas fizerem sentido’”, lembra. De acordo com ele, a decisão sobre as mudanças demandará um processo de longa negociação entre os países-membros, com a realização de referendos em alguns deles. “Para Merkel, o custo de Macron falhar em sua  agenda pró-UE é extremamente alto, pois a França poderia cair nas mãos dos populistas em uma eleição futura”, alerta.

Sem contenção
Ao ressaltar que a  eurozona não é à prova de crises, Helwig recorda que não existem mecanismos automáticos capazes de ajudar um membro que escorrega para a turbulência econômica e financeira. “Várias reformas contribuiriam com a UE durante um choque econômico. Os eurobonds — títulos com valor nominal expresso em dólares ou em outras moedas e vendidos a investidores fora do país de origem — manteriam reduzidas as taxas de juros para empréstimos de governos a Estados afetados por crises”, exemplifica. No entanto, a Alemanha e outros países devedores argumentam que o artifício reduziria incentivos para as reformas econômicas. Helwig diz que um seguro-desemprego europeu seria outro mercanismo para automaticamente baixar os custos aos países em dificuldades. “Seria um sinal de que a UE se importa com o povo e com a igualdade social. Por sua vez, o orçamento único defendido por Macron permitiria a reinicialização das economias, por meio de investimentos”, observa. Na opinião de Helwig, a UE precisa demonstrar mais flexibilidade se quiser se recuperar.

Reforma em questão

Como Merkel e Macron veem as possibilidades de mudança para “salvar” a União Europeia e como pretendem tratar os principais temas do bloco

Zona do euro

A ideia de Angela Merkel e de Emmanuel Macron é tornar a zona do euro mais resistente a crises econômicas.

Integração

Merkel acredita que, com o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), os 26 países-membros remanescentes devem pensar sobre como fortalecer a UE e, especialmente, a zona do euro.

Tratados

A chanceler alemã se disse disposta a mudar os tratados da UE, “se for útil”. “Do ponto de vista alemão, é possível modificar o tratado, se isso fizer sentido. Eu estaria pronta a fazê-lo, mas, primeiro, trabalharemos sobre o que queremos reformar”, disse Merkel após o encontro com Macron, no último dia 15.


Burocracia

Macron defendeu um bloco com mais pragmatismo e menos burocracia. Também cobrou uma Europa que proteja os próprios cidadãos.

Eurobonds

O presidente francês disse se opor aos eurobonds, títulos que permitiriam a países do euro emitirem dúvidas conjuntamente, com alguns deles se beneficiando de prêmios de risco mais baixos.
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