Embaixador do Catar no Brasil defende diálogo sobre tensão no Golfo

Para Mohammed Ahmed Hassan Alhayki, os países da região do Golfo Pérsico estão engajados em uma manobra para estrangular a economia de Doha

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postado em 07/06/2017 08:00

Para o embaixador extraordinário e plenipotenciário do Catar no Brasil, Mohammed Ahmed Hassan Alhayki, os países da região do Golfo Pérsico estão engajados em uma manobra para estrangular a economia de Doha. Em entrevista ao Correio, na sede da embaixada, ele minimizou as consequências da crise, mas não escondeu a surpresa com a ruptura das relações diplomáticas e o fechamento de acessos via terra, mar e ar com o emirado. Alhayki classificou de “falsas alegações” as acusações de Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Egito de que o seu país apoia o terrorismo. “Nós somos um grande ator regional no combate ao terrorismo”, assegurou. O diplomata garante que a rede de TV Al-Jazeera é o pivô do imbróglio, por disseminar a liberdade de imprensa no Oriente Médio. 

A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein acusam o Catar de patrocinar grupos terroristas salafistas, como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, além da Irmandade Muçulmana. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Nós fomos surpreendidos por esse comportamento político sem precedentes que foi sucedido por uma feroz campanha midiática, baseada em eventos falsificados e fabricados. Sua Alteza emir Xeque Tamim Bin Hamad Al-Thani esteve em Riad, em 1º de maio, e se reuniu com o rei. Nenhuma dessas acusações sem fundamento foi levantada. Os ministros de Relações Exteriores dos países do Golfo se reuniram em Riad, em 17 de maio. Nada disso foi abordado. Depois, houve a cúpula, que contou com a presença do presidente norte-americano, Donald Trump, em 21 de maio. Nada disso foi mencionado ou dito ao Catar.  Em 23 de maio, dois dias depois, nós nos confrontamos com essa campanha midiática sem precedentes, nos acusando com falsas alegações, que não se suportam em nenhuma evidência. Nós estamos pedindo que eles forneçam qualquer evidência. O Catar precisa desempenhar um papel com todos os partidos políticos, especialmente a Irmandade Muçulmana, que ascendeu à Presidência do Egito por meio das urnas. Precisamos ter algum tipo de diálogo com partidos políticos moderados.

Qual foi o objetivo dessa campanha midiática?

Essa campanha visou principalmente desestabilizar a segurança do Catar e confiscar sua independência política. Ela foi seguida por esse inédito rompimento de laços diplomáticos com o Catar e pelo fechamento de fronteiras terrestres, aéreas e marítimas. Isso é um comportamento irracional. Tal comportamento normalmente é visto entre inimigos e não entre amigos e irmãos que partilham de laços familiares e que são membros de uma mesma organização (Conselho de Cooperação do Golfo). Nós somos um grande ator regional no combate ao terrorismo. A maior base norte-americana fora dos Estados Unidos está sediada no Catar. Uma das principais razões para permitirmos essa base lá é o combate ao terrorismo; ela utiliza dezenas de milhares de soldados todos os dias para lutar contra o terror na Síria e no Afeganistão. Não patrocinamos o terrorismo. Uma das razões para a atual crise é que introduzimos um novo fenômeno na região, a rede de TV Al-Jazeera. A região não está acostumada com a liberdade de imprensa. Por isso, países como o Egito, governado por uma ditadura militar que depôs um governo eleito pelo povo, não entendem e não gostam da Al-Jazeera.

Quais as consequências da crise diplomática?

É claro que eles esperam que isso tenha consequências para a economia e a segurança nacional do Catar. Nós somos uma nação financeira e economicamente forte e estável. Não haverá nenhuma grande consequência. Eles estão sentindo o fracasso das medidas, pois a Qatar Airways está embarcando todos os passageiros em outras rotas. Os alimentos e suprimentos que vêm da Arábia Saudita podem ser facilmente substituídos. Durante o Ramadã, nós temos pessoas presas na Arábia Saudita, em peregrinação a Meca, que não puderam embarcar pela Qatar Air-ways para retornar aos seus países. Eles tomaram voos da Oman Airlines para voar até Muscat e, de lá, tentaram voar até Doha, passando pelo espaço aéreo dos Emirados Árabes Unidos, e tiveram de retornar. Estão tentando estrangular nossa economia para influenciar nossas decisões políticas. Isso provavelmente vai falhar, pois estamos tomando passos para responder a isso.

Que setores da economia podem ser os mais prejudicados?

Nós somos grandes exportadores de petróleo e de gás natural. De fato, o Catar é o maior exportador de gás do mundo. Temos a maior frota de grandes navios-tanques para transportar gás natural a qualquer lugar do mundo. Mas as consequências são de via dupla. Muitos catarianos passam os fins de semana nos Emirados Árabes Unidos, visitam suas famílias na Arábia Saudita e no Bahrein. Esses países também estão perdendo e vão perder mais do que nós.

O senhor poderia detalhar que providências estão sendo tomadas para responder a essa crise?
Há outras fontes de suprimentos para superar essa imposição de fraudes. A entrada no Golfo Pérsico é um acesso livre internacional. Podemos importar e exportar bens. Por exemplo, o frango. Nós somos os maiores importadores de frango do Brasil. Se podemos importar do Brasil, que fica a milhares de quilômetros, podemos importar da Turquia e de outros países. Esperamos contornar essa crise. Há esforços na região, por parte do emir do Kuwait e do sultão de Omã, para desarmar essa situação, que não contribui para a paz e a estabilidade. Todos estão perdendo com esse comportamento político sem precedentes, inclusive a comunidade internacional. 
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