Mediação dos EUA muda cenário da crise no Golfo Pérsico, diz embaixador

Em entrevista exclusiva ao Correio, Mohammed Ahmed Hassan Alhayki afirmou que o protagonismo dos EUA reverteu o jogo político, pressionando os países que impuseram o bloqueio diplomático e tentaram 'estrangular a economia' catariana

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postado em 13/07/2017 10:48 / atualizado em 13/07/2017 11:04

Antonio Cunha/CB/D.A Press
Há 38 dias, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos — membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) — e Egito romperam relações diplomáticas com o Catar e bloquearam o acesso terrestre, marítimo e aéreo ao país, após acusar o governo do emir Tamim bin Hamad Al-Thani de apoiar extremistas. À exceção do Egito, as demais nações deram prazo de duas semanas para que os catarianos abandonassem seus territórios. Os moradores desses Estados foram proibidos de viajar ao Catar. 

Em 22 de junho, os vizinhos entregaram a Doha uma lista com 13 demandas, prontamente rejeitadas e classificadas de violações à soberania. Entre outras coisas, exigiam o fim das relações diplomáticas com o Irã, o fechamento da rede de TV Al-Jazeera e a desativação de uma base militar turca. Na tentativa de encerrar uma das mais graves crises a atingir o Golfo Pérsico, o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, se reuniu ontem, em Jidá (Arábia Saudita), com os chanceleres do quarteto anti-Catar, um dia depois de selar pacto com Doha sobre a luta contra o financiamento ao terrorismo. 

Em entrevista exclusiva ao Correio, Mohammed Ahmed Hassan Alhayki, embaixador extraordinário e plenipotenciário do Catar no Brasil, afirmou que o protagonismo dos EUA reverteu o jogo político, pressionando os países que impuseram o bloqueio diplomático e  tentaram “estrangular a economia” catariana. “Nós sempre temos mostrado sinceridade em abordar qualquer preocupação dessas nações beligerantes, mas elas rejeitaram todos os nossos esforços sinceros para negociar”, lamentou. “As demandas apresentadas por elas nada mais foram do que ordens, que tivemos de rejeitar. Nós apelamos ao diálogo como um meio civilizado para resolver qualquer problema político.”

Que resultados o senhor espera da reunião entre o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, e os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG)?

O secretário Rex Tillerson se reuniu com a Sua Alteza, o emir Tamim bin Hamad Al-Thani, ontem (terça-feira), em Doha. Também houve um encontro bastante frutífero com o ministro das Relações Exteriores do Catar, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al-Thani. Tillerson elogiou o papel do Catar como um importante ator no combate ao terrorismo. É uma boa notícia contra a campanha fabricada para atingir o Catar. O momento para esses países é de retroceder e de refletir sabiamente que essa crise instigada e perpetrada por eles não funcionará. Ela representará um desastre para a região e para o mundo. Seria bom que eles retomassem o juízo e ouvissem as vozes mais sábias do Golfo Pérsico, especialmente Kuwait e Omã, que não partilham dessa campanha perversa e cruel de mentiras e de invenções contra o Estado do Catar. A maré, agora, está a nosso favor. Nós damos as cartas neste momento e usamos nossos recursos, que foram subestimados por eles. Nossos esforços foram baseados em fatos; os deles se situam em falsificações. Eles nos acusaram de tudo, mas não apresentaram uma única evidência que apoiasse tais acusações. Não se pode levar uma campanha de falsificações por um longo tempo.

Então, o senhor crê que Tillerson será capaz de reverter a crise?

Nós acreditamos que a pressão e a maré se colocarão contra o lado deles. Cabe a eles derrubarem as 13 condições que ditaram a nós. Essas demandas se provaram inconsistentes com o direito internacional e afetam gravemente a nossa soberania. A intenção deles nada tem a ver com terrorismo. O terrorismo foi um terreno forjado nesses países que nos acusam de apoiá-lo. Particularmente, a Arábia Saudita, que sempre tem sido um ambiente nutritivo para a criação do terrorismo. Isso por causa de seu sistema educacional: oito universidades sauditas ensinam o ódio e a violência. A produção (de terrorismo) é natural. A título de comparação, o Catar abriga algumas das melhores universidades do mundo: Texas A&M, Georgetown e muitas outras, para produzir estudantes capazes de contribuirem com a modernização de nossas sociedades. Essa é a grande diferença de pensamento entre nós e eles. Nós temos um programa chamado “Ensine uma criança”, com a realização de conferências no Catar a cada ano. Isso se concentra particularmente na educação de crianças de países pobres. Nossa meta é atingir 5 milhões de estudantes. Temos esse programa inclusive no Rio de Janeiro. Também introduzimos um novo programa — “Esportes para a prevenção de crimes” — na Declaração de Doha. Se você olhar para o outro lado, o da Arábia Saudita, por exemplo, na segunda-feira passada, os conselhos de ministros baniram a prática esportiva em escolas. O nosso papel é desempenhar um exemplo de modernidade em toda a região e tentar civilizar sociedades, como a da Arábia Saudita. É algo difícil, enquanto eles tiverem universidades que ensinam a violência e o ódio. Os países do CCG não têm escolha a não ser se unirem aos esforços do secretário Tillerson e se sentarem à mesa de negociações. Isso é o que temos sempre apelado a eles.

O Catar e os EUA assinaram um acordo de combate ao financiamento ao terrorismo. Qual é o simbolismo desse pacto em um momento em que Doha é acusada de apoiar os extremistas?

A assinatura desse acordo nos dá uma clara indicação da relação estratégica entre o Estado do Catar e os EUA. Houve algumas posições contraditórias no governo norte-americano, que foram mal interpretadas pelos bloqueadores (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito e Bahrein) e os influenciaram. Eles não sabiam que os Estados Unidos são uma nação de instituições, não são uma praia de um homem só. O ministro da Defesa do Catar, Khalid bin Mohammed Al Attiyah, foi convidado a Washington seis dias depois do bloqueio e assinou um acordo para a compra de 36 caças F-15. Depois disso, dois navios de guerra foram enviados ao nosso país e houve exercícios militares entre o Catar e os EUA. Foram sinais claros aos bloqueadores de que eles deveriam ter outras intenções. Trata-se de uma evidente indicação da relação estratégica entre Washington e Doha, além da existência de soldados norte-americanos baseados em nosso país para combaterem o terrorismo. O sinal desse acordo é a continuação dessa aliança estratégica entre as duas nações (EUA e Catar) e um indicativo de que nada temos a esconder e que somos muito sérios no combate ao terrorismo.

As nações do Conselho de Cooperação do Golfo avaliam o acordo como insuficiente...

Essas nações não representam o CCG, mas falam por si mesmas. O CCG é composto de seis países — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein, à frente dessa campanha contra o Catar; Omã e Kuwait. Elas não têm o direito de falar em nome do CCG, pois Omã e Kuwait não partilham desse comportamento perverso. Não cabe a eles julgar se o acordo é insuficiente ou não. As instâncias decisórias políticas são quem devem decidir sobre isso. São os Estados Unidos, não a Arábia Saudita, o Bahrein ou suplentes, como o Egito.

Depois de Doha rejeitar a lista das 13 demandas apresentadas por essas nações, qual foi a resposta dos vizinhos do Catar?

Eles se reuniram no Cairo, um local bizarro para o encontro... Eles sempre têm afirmado que problemas internos no Golfo devem ser resolvido em países do Golfo. O Egito é um intruso, está fora do Golfo Pérsico. A estratégia deles foi um fracasso. Eles tentavam levar adiante as ações draconianas contra a economia do Catar, mas me parece que há muita pressão sobre eles vinda de grandes potências, como França, Reino Unido e EUA. A campanha deles terminou em ponto morto, em fracasso. As demandas violam a soberania do Estado do Catar, o direito internacional, a Carta da ONU e os direitos humanos.

Os Emirados Árabes Unidos acusaram hoje (ontem) a rede de TV Al-Jazeera de antissemitismo e de incitar o ódio. Como vê isso?

Isso é uma piada. Nós, enquanto árabes, somos semitas. Os israelenses estão restringindo esse antissemitismo somente a eles mesmos. Não podemos ser antissemitas. Os Emirados Árabes Unidos têm se posicionado como porta-vozes dos israelenses. Eles utilizam todas as táticas para silenciar a TV Al-Jazeera. O mundo civilizado não aceita o silenciar da liberdade de expressão. Esses caras têm que aceitar o fato de que vivemos em um mundo diferente do que eles vivem. Eles são capazes de impor leis draconianas aos seus cidadãos, condenando-os a 15 anos de prisão apenas por exporem sentimentos nas mídias sociais. Isso é muito bárbaro, e nenhuma civilização na Terra aceitaria tais leis draconianas.
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