Partidos tradicionais passam por transformações em toda a Europa

O sólido sistema partidário exibe sintomas de fadiga extrema, abalado por crises econômicas, escândalos de corrupção e, mais recentemente, pelas ondas migratórias

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postado em 16/07/2017 08:00

Yann COATSALIOU/AFP
 

A ascensão meteórica de Emmanuel Macron, eleito presidente da França sem jamais ter disputado antes qualquer cargo pelas urnas, ilustra um fenômeno de maior alcance que se desenvolve nas últimas décadas nas democracias mais emblemáticas da Europa Ocidental.

 

O sólido sistema partidário construído no pós-Segunda Guerra Mundial e cultivado ao longo da Guerra Fria exibe sintomas de fadiga extrema, abalado por crises econômicas, escândalos de corrupção e, mais recentemente, pelas ondas migratórias — em resumo, por uma convergência de fatores decorrentes de mudanças profundas no tecido socioeconômico e político. Como resultado, legendas tradicionais desaparecem ou se reciclam.

 

Líderes carismáticos ocupam o lugar antes reservado a correntes de pensamento históricas. E a composição de maiorias governamentais torna-se um exercício mais desafiador a cada eleição.

 

 


A França, onde a disputa pelo poder se fez por mais de meio século entre campos ideológicos e legendas longamente estabelecidos — direita e esquerda, socialistas, comunistas e gaullistas —, assistiu a um terremoto político entre abril e junho. Macron, ex-banqueiro, tecnocrata com passagem discreta pelo governo do impopular François Hollande, saiu do quase anonimato para sucedê-lo sem contar com um partido para apoiá-lo.

 

Fundou, um ano atrás, um movimento político centrista que, há uma semana, formalizou a transformação no partido República em Marcha. No batismo eleitoral, conquistou a maioria parlamentar mais sólida da história da 5ª República, fundada em 1958 pelo general Charles de Gaulle.

“O que estamos testemunhando, na Europa, no longo prazo, é a emergência de novas questões que podemos descrever como transnacionais”, analisa o professor Jan Rovni, do Centro de Estudos Europeus do prestigiado Instituto de Estudos Políticos de Paris, mais conhecido como Sciences Po. Ele se refere ao comércio globalizado, às ondas migratórias e à própria construção da União Europeia (UE), com seu complexo de normas e instituições que se sobrepõem às fronteiras nacionais. “Até recentemente, os partidos tradicionais respondiam a questões domésticas, como gastos públicos, impostos, programas sociais e outros”, exemplifica. “São temas que continuam interessando os eleitores, mas os novos temas se impõem e perpassam o debate político, e as legendas históricas têm dificuldade para abordá-los sem sofrer fissuras.”

Mutação social


Stefan Seidendorf, diretor adjunto do Instituto Franco-Alemão (DFI, em alemão), sediado em Ludwigsburg, identifica fatores como a dinâmica demográfica e a desindustrialização por trás da desestruturação de correntes políticas de história mais do que centenária, como é o caso da social-democracia. “Em toda a Europa Ocidental, temos taxas elevadas de desemprego juvenil, e esse eleitorado já não confia nos partidos socialistas e afins”, analisa o estudioso. Associado à decadência também da democracia-cristã, que se opôs às forças de esquerda no pós-guerra, sobretudo na Itália e na Alemanha, esse quadro favorece “a ascensão dos populismos extremistas, a busca de soluções ditas ‘novas’, ou de um personagem ‘brilhante’ que se apresente como a síntese entre progresso social, reformismo econômico e mensagem pró-europeia, como o novo presidente da França.”

Na Alemanha, que terá eleições legislativas no fim de setembro, Seidendorf encontra outro exemplo com traços similares ao do fenômeno Macron. A chanceler (chefe de governo) Angela Merkel, da tradicional União Democrata Cristã (CDU), larga como favorita para conquistar o quarto mandato consecutivo de quatro anos (leia abaixo), embora seu partido venha perdendo eleitores para a recém-criada Alternativa para a Alemanha (AfD), formação de ultradireita com discurso anti-islã e anti-imigração, aparentado ao da Frente Nacional francesa. Mais até do que a CDU de Merkel, é o venerável Partido Social-Democrata (SPD) que parece em descompasso com a crescente apatia do eleitorado.

“Os grandes partidos populares, um fenômeno do pós-guerra, estão em vias de extinção”, aponta Seidendorf, que relaciona esse processo a mudanças sociais conexas ao novo debate político identificado pelo professor da Sciences Po. “Deixaram de existir os ambientes políticos que antes organizavam a sociedade”, explica o diretor do DFI. “Na Alemanha, por exemplo, quem nascia operário torcia para um time de massas, se sindicalizava, votava no SPD... Mas as sociedades se tornaram mais liberais e individualizadas, sem os mecanismos que mantinham cada um ‘no seu canto’, por assim dizer.”

“Movimentos semelhantes se desenrolam em todas as democracias desenvolvidas, cada uma com suas particularidades”, completa Jan Rovni, da Sciences Po. Itália e Espanha, onde a fragmentação política parece mais avançada (veja infografia), surgem como possível antecipação do que aguardam as duas locomotivas da UE. Ambos os países tiveram de repetir eleições legislativas, nos últimos anos, até que algum partido ou bloco político fosse capaz de compor maioria parlamentar — frágil e sujeita a abalos que tornam as trocas de governo mais frequentes.

“O que estamos testemunhando, na Europa, no longo prazo, é a emergência de novas questões (…) que se impõem, e as legendas históricas têm dificuldade para abordá-las sem sofrer fissuras”
Jan Rovni, professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po)

“Na Alemanha, quem nascia operário torcia para um time de massas, se sindicalizava, votava no SPD... Mas as sociedades se tornaram mais liberais e individualizadas, sem os mecanismos que mantinham cada um ‘no seu canto’”
Stefan Seidendorf, diretor adjunto do Instituto Franco-Alemão
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