Separados pela guerra, crianças iraquianas esperam rever seus pais

Segundo o coordenador do centro Terre des Hommes, Abdelwahed Abdallah, crianças e adolescentes estão expostos a transtornos psicológicos graves

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postado em 18/07/2017 10:55

Adel, de 15 anos, está há nove meses sem ver seus pais em um campo de deslocados perto de Debaga, nos arredores de Mossul. Não teve outra escolha, a não ser escapar do grupo extremista Estado Islâmico (EI). "O caminho era longo, caminhamos toda a noite, por cerca de 14 horas", lembra o adolescente que chegou ao Curdistão iraquiano depois de fugir da cidade de Hawija, controlada pelos extremistas, ao sul de Mossul.

"Claro que eu sinto falta da minha família. Nove meses é muito tempo", afirma Adel, que voltou para a escola. "Os professores nos tratam bem. Aqui, agora é como minha casa", acrescentou. Os combates em Mossul causaram a fuga de centenas de milhares de civis. E, atualmente, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mais de 18 mil crianças seguem separadas de seus pais.

Um de seus irmãos e vários primos se juntaram a ele. A ONG Terre des Hommes Itália abriga 17 adolescentes, incluindo Adel. No local, eles aprendem inglês, informática e educação física.

Celular e Facebook
A alegria é clara na sala onde os meninos, vestindo camisas e com cortes de cabelo da moda, brincam em duas mesas de totó e em uma de pingue-pongue. Sem perder o celular de vista, alguns adolescentes se acomodam em colchões no dormitório coletivo adjacente, enquanto a televisão transmite uma estridente música árabe.

Na cozinha, três adolescentes aprendem a fazer pão e ajudam a preparar o almoço. Os pais de Adel deixaram Hawija seis meses depois dele, em direção ao campo de deslocados da província de Kirkuk. "O único meio de comunicação é o telefone e, às vezes, o Facebook", diz o adolescente. "Quando tiverem passado as provas, vou me encontrar com eles", conta.

Segundo o Unicef, em Mossul há mais de mil crianças "separadas, ou desacompanhadas". "Separadas significa que estão com familiares, mas sem os pais. Desacompanhadas, que estão sozinhas", explica o órgão. "Conheci um garoto de 7 anos, que sofreu graves ferimentos na mão esquerda nos combates. Estava muito chateado, não falava e, mesmo quando demos uma pequena bola para que pudesse brincar, ele não tocou", relata um responsável local do Unicef, Maulid Warfa, citado em um comunicado.

- Transtornos psicológicos -
Segundo o coordenador do centro Terre des Hommes, Abdelwahed Abdallah, crianças e adolescentes estão expostos a transtornos psicológicos graves. "Sofrem de estresse pós-traumático, déficit de atenção, transtornos do sono causados pela ansiedade", enumera, acrescentando que "alguns sentem culpa, porque escaparam do EI, mas sua família, não".

Este não é o único desafio. Em alguns casos, devem reaprender os princípios básicos de convivência com as meninas, ou que a música não é "haram", ou seja, proibida pela religião. Ahmed, de 20 anos, refugiou-se em outro campo de deslocados em Debaga, com seus sete irmãos e irmãs pequenas. Uma delas tem dois anos de idade.

Há quase sete meses, ele deixou Hawija, onde seus pais ficaram. "Nós conversamos por telefone a cada dois, ou três dias. Não muito, apenas cinco minutos", diz Ahmed. "Se encontrarem o telefone deles, podem matá-los", ensina seu irmão Abdullah, de 15 anos, referindo-se aos extremistas.

Os mais velhos se armam de paciência com os pequenos quando reclamam, chorando por seus pais."Digo o que for preciso para que fiquem quietos: que virão hoje, que vou dar dinheiro a eles para comprarem doces", completa Ahmed.
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