Venezuelanos se preparam para greve em ultimato a Maduro

A rejeição à Constituinte - segundo a Datanálisis de mais de 70% - aumentou ainda mais as manifestações, que começaram há quatro meses para exigir a saída de Maduro e já deixaram mais de 100 mortos

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postado em 25/07/2017 19:51

RONALDO SCHEMIDT

 
Com medo de um caos maior, os venezuelanos se preparam para uma greve de 48 horas que será realizada pela oposição nesta quarta (26/7) e quinta-feira (27/7), em um ultimato ao presidente Nicolás Maduro para que suspenda a eleição, no domingo (30/7), de sua polêmica Assembleia Constituinte.
 
 
A coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) pediu que abastecessem suas casas de comida visando a greve, que foi convocada junto com bloqueios das ruas em todo o país, o que gera preocupação de possíveis casos de violência.

Rumores que circulam nas redes sociais causam nervosismo.

"Comprei comida extra, que não estraga: enlatados e congelados [...]. Temos que nos preparar para não morrer de fome", disse à AFP Eugenia Santander, moradora de Montalbán, oeste de Caracas.


"Tivemos que adiantar [a viagem] porque as eleições são no domingo e, de verdade, não sabemos o que vai acontecer e para estarmos mais seguros preferimos vir", disse à AFP María de los Angeles Pichardo, que nesta terça-feira entrou na Colômbia com seu esposo e um filho.

A rejeição à Constituinte - segundo a Datanálisis de mais de 70% - aumentou ainda mais as manifestações, que começaram há quatro meses para exigir a saída de Maduro e já deixaram mais de 100 mortos.

Para sexta-feira, a MUD convocou uma grande manifestação em Caracas, advertindo que se Maduro insistir na eleição tomará ações mais contundentes no sábado e no domingo em um "boicote cívico eleitoral".

"Queremos viver dignamente"

Leonor Cardozo, administradora de 56 anos que vive em El Cafetal (sudeste de Caracas), comprou frango e verduras para 15 dias, para não ter que ir à rua.

As principais centrais sindicais anunciaram que se juntarão à greve. Entretanto, o governo controla a estratégica indústria petroleira, fonte de 96% das divisas do país, e o setor público, de mais de três milhões de funcionários.

"Exigimos que Maduro pare com a Constituinte porque irá trazer mais fome e miséria. Só queremos viver dignamente, que o salário dê", assegurou o sindicalista Miguel Quiroz, da Confederação de Trabalhadores da Venezuela (CTV).

A convulsão política se deve a uma severa crise econômica com escassez de alimentos e remédios, e um alto custo de vida. O FMI calculou em 720% a inflação para este ano e em 12% a queda do PIB.

"Maduro está mais duro do que nunca"

A MUD não participará da Constituinte alegando que não foi convocada em referendo e o sistema de eleição dos 545 legisladores foi feito para que o governo a controle e possa impôr -segundo dizem - um "sistema comunista".

"Se for imposta a fraude constituinte, Maduro levará à quebra do país [...], isolará a Venezuela do mundo", afirmou o líder opositor Henrique Capriles.

Maduro, no entanto, assegurou que no domingo haverá uma "vitória popular da Constituinte".

"Suportamos mil cargas do fascismo, e aqui estamos, Maduro está mais duro do que nunca", afirmou durante um ato em Caracas.

Em uma reunião na segunda-feira com o ex-chefe do governo espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, o opositor Leopoldo López, em prisão domiciliar, advertiu sobre "o grave conflito" que será desatado pela Constituinte.

Rodríguez Zapatero, que promoveu em 2016 um frustrado diálogo, quer aproximar posições, mas a MUD rejeita conversar sem que a Constituinte seja detida.

Aumentando as tensões, dois magistrados da Suprema Corte paralela designada pelo Parlamento foram detidos nesta terça-feira, chegado a três juízes presos.

"Maquinário 4x4"

O governo começou a realizar o seu chamado "maquinário 4x4": cada membro das organizações de base do partido da situação e dos movimentos sociais deve levar 10 eleitores às urnas.

Os outros dois eixos são um censo para a distribuição de alimentos subsidiados e uma identificação em massa dos beneficiários de programas sociais, o que é visto pela MUD como um mecanismo de controle e pressão para votar.

Segundo o analista Benigno Alarcón, uma alta abstenção diminuiria a legitimidade da Constituinte, diante dos 7,6 milhões de votos que, de acordo com a MUD, obteve o plebiscito simbólico realizado em 16 de julho contra essa iniciativa.

Essa legitimidade também está afetada por um crescente chamado dos governos da América Latina e da Europa para que Maduro desista de seu projeto. O presidente americano, Donald Trump, foi mais longe ao ameaçar com sanções econômicas.

"O tempo dos impérios e dos que se acreditam donos do mundo acabou", respondeu Maduro, que acusa os seus adversários de orquestrar um golpe de Estado com o apoio dos Estados Unidos.
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