Maduro, criticado pela ONU, enfrenta crescente isolamento internacional

100 pessoas participaram nesta terça-feira em Caracas de um bloqueio de ruas, dando continuidade aos protestos que já duram quatro meses

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postado em 08/08/2017 18:12

O governo da Venezuela foi acusado nesta terça-feira (8/8) pela ONU de usar "força excessiva" nos protestos opositores, aumentando o seu isolamento internacional após a instalação de uma polêmica Assembleia Constituinte que aprofundou a crise.
 
 
O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra'ad al Hussein, denunciou o "uso generalizado e sistemático da força excessiva e de detenções arbitrárias contra os manifestantes" e, inclusive, "torturas". O secretário-geral do organismo, António Guterres, disse estar preocupado de que a Venezuela esteja se distanciando da paz.

Maduro também enfrenta uma possível condenação de 17 países da América, cujos chanceleres avaliam a crise em Lima, três dias após o Mercosul suspender a Venezuela alegando uma "ruptura da ordem democrática".

Em Caracas se reúnem chanceleres da Alba, grupo de países aliados de Maduro entre os quais figuram Cuba, Bolívia, Nicarágua e Equador.

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, advertiu na segunda-feira que "não descarta" romper relações com a Venezuela.

A Constituinte foi instalada em meio a denúncias de fraude e sem o reconhecimento dos Estados Unidos, da União Europeia, de uma dúzia de países latino-americanos, da OEA e do Mercosul.

O governo de Donald Trump impôs sanções financeiras e jurídicas a Maduro e a 13 de seus funcionários e ex-colaboradores, e ameaça com medidas mais drásticas.

"O cerco internacional [...] é necessário para que haja uma mudança política na Venezuela", afirmou Luis Florido, chefe da comissão de política exterior do Parlamento.

Tomada do Legislativo

Em sessão nesta terça-feira no Palácio Legislativo, os 545 constituintes, todos do governo, aprovaram um acordo de apoio às Forças Armadas após o ataque ao quartel em Valencia, no domingo, por um comando de cerca de 20 homens, que deixou dois mortos, um agressor ferido e oito presos.

Ovacionado pelos constituintes, o ministro da Defesa, o general Vladimir Padrino, reafirmou da tribuna do salão protocolar o caráter "anti-imperialista" e "revolucionário" das Forças Armadas, que, segundo disse, "não tem militância política".

Militares impediram nesta terça-feira que 10 deputados opositores entrassem no recinto e na noite de segunda-feira "tomaram" com um grupo de constituintes o salão protocolar, denunciou o Congresso, que debate no hemiciclo e fará uma sessão na quarta-feira.

"Este governo invade os espaços que já não é capaz de ganhar legitimamente", assegurou Stalin González, chefe da maioria opositora.

Na continuação dos protestos contra Maduro, que deixam 125 mortos em quatro meses, apenas 100 pessoas participaram nesta terça-feira no leste de Caracas dos bloqueios das ruas convocados pela oposição, e foram dispersados com bombas de gás lacrimogêneo.

Imunidade parlamentar

A Constituinte abriu os trabalhos no fim de semana com a destituição da procuradora-geral, Luisa Ortega, chavista que rompeu com Maduro, e em suas próximas ações pode deixar sem foro parlamentar vários opositores para mandá-los à prisão.

"A Constituinte pode retirar a imunidade de Raimundo e de todo mundo", advertiu o poderoso constituinte Diosdado Cabello.

Segundo o ex-presidente do Parlamento Henry Ramos Allup, "com testemunhas falsas e provas fictícias pretenderão retirar a imunidade parlamentar".

A oposição, que acusa o poder eleitoral e o Judiciário de servir ao governo, teme uma "caça às bruxas" com a Constituinte.

A Justiça condenou a 15 meses de prisão o prefeito de Chacao, Ramón Muchacho, e fixou para quarta-feira uma audiência contra David Smolansky, prefeito de El Hatillo, dois municípios do leste de Caracas.

Há 10 dias foi detido Alfredo Ramos, prefeito de Barquisimeto. Os três opositores são processados por não evitar os protestos.

A Constituinte redigirá uma Carta Magna para substituir a de 1999 e regirá o país por até dois anos -acabando após o fim do mandato de Maduro, que termina em janeiro de 2019- com o poder de tomar decisões de aplicação imediata.

A oposição, que exige eleições gerais, assegura que a Constituinte apenas quer manter Maduro no poder e instaurar uma "ditadura comunista".


Eleições, a encruzilhada

Após a frustrada tentativa de frear a Constituinte, a oposição agora está diante do dilema de ir ou não às eleições de governadores em dezembro, cuja inscrição de candidatos é realizada entre terça e quinta-feira.

Os opositores devem tomar a decisão depois de denunciarem que a votação da Constituinte foi a "maior fraude da história", correndo o risco de perder o apoio popular, como quando aceitou dialogar com o governo no fim de 2016.

"As eleições fazem parte de uma guerra de posicionamentos e, como tal, é preciso brigar por essas posições", declarou à AFP o analista Luis Salamanca. 

Em 2005, depois de denunciar uma fraude em um referendo contra o então presidente Hugo Chávez, a oposição não foi às parlamentares, o que deu o controle absoluto ao chavismo sobre o Parlamento durante cinco anos.
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