Jornal Correio Braziliense

Massacre em Las Vegas reabre polêmica sobre porte de arma de fogo

Atirador se entrincheirou em quarto de hotel com 19 fuzis

Jorge Vasconcelos - Especial para o Correio

Cenário caótico na principal avenida de Las Vegas, onde uma multidão assistia a um show quando um atirador abriu fogo do 32º andar de um hotel - Foto: Ethan Miller/Getty Images/AFP

Poucas horas depois de um homem armado com 19 fuzis realizar o maior ataque a tiros da história dos Estados Unidos, deixando pelo menos 59 mortos e 527 feridos, em Las Vegas, a Casa Branca declarou ser “prematuro” reabrir a discussão sobre o controle de armas. “Haverá hora e lugar para um debate político, mas agora é o momento de nos unirmos como nação”, disse ontem a porta-voz Sarah Huckabee. O presidente Donald Trump, em pronunciamento, classificou o massacre como “um ato de pura maldade” e, sem falar em controle de armas, também disse que a nação deve se manter unida. O Estado Islâmico reivindicou o ataque, mas o FBI afirmou que o atirador, encontrado morto, não tinha ligações com grupos terroristas.

O tiroteio começou por volta das 22h de domingo (horário local), quando o americano Stephen Paddock, 64 anos, abriu fogo do 32º andar do Mandalay Bay, famoso hotel-cassino e resort, contra a multidão que assistia a um festival de música country. Ao fim de minutos de pânico, a polícia promoveu uma explosão controlada, invadiu o apartamento e encontrou o corpo de Paddock, junto das armas. De acordo com os agentes, ele cometeu suicídio.

Ao descartar a necessidade imediata de um debate sobre o controle de armas, a porta-voz da Casa Branca disse que há uma investigação em curso e que seria prematuro “discutir política quando não conhecemos todos os fatos ou o que aconteceu”. Sarah Huckabee classificou o episódio como uma “tragédia indescritível” e disse que o momento era de “consolar os sobreviventes e lembrar os que perdemos”.

Segundo a porta-voz, a questão do controle de armas “é algo de que podemos falar nos próximos dias, para ver como podemos avançar”. Entretanto, ela afirmou que a cidade de Chicago tem “uma das mais estritas leis de controle de armas” e, ainda assim, registrou quase 4 mil vítimas de armas de fogo. Sarah Huckabee reiterou a posição do presidente a favor da emenda constitucional que garante aos americanos a posse de armas de fogo, em contraposição clara ao antecessor, Barack Obama, que tentou levar ao Congresso o debate sobre restrições.


Donald Trump e a mulher, Melania, lideram as homenagens às vítimas nos jardins da Casa Branca - Foto: DC. / AFP / MANDEL NGAN

Trump

 

Donald Trump prestou homenagem às vítimas ao lado da mulher, Melania, nos jardins da Casa Branca, e anunciou que visitará Las Vegas amanhã, para conversar com os familiares das vítimas e acompanhar de perto as investigações. “Um atirador assassinou brutalmente mais de 50 pessoas e feriu centenas”, disse em pronunciamento. “Foi um ato de pura maldade”, condenou o presidente, que elogiou o trabalho dos policiais e socorristas. “A velocidade com que agiram foi miraculosa. Terem encontrado o atirador tão rápido é algo pelo que nós sempre seremos gratos.”

No discurso,  o presidente afirmou que a unidade da sociedade americana “não pode ser quebrada pelo mal, pela violência”. “Apesar de sentirmos raiva por esse assassinato sem sentido, é nosso amor que nos define hoje e nos definirá para sempre.”

Trump disse saber que “estamos procurando algum tipo de significado no caos, algum tipo de luz na escuridão. As respostas não são fáceis. Mas podemos ter esperança no fato de que até mesmo o lugar mais escuro pode ser iluminado por uma única luz, e até mesmo o mais terrível desespero pode ser eliminado por um único raio de esperança”.

 

Terrorismo

 

O Estado Islâmico assumiu a autoria do ataque por meio da agência Amaq, à qual é ligado, alegando que Stephen Paddock havia jurado lealdade ao grupo alguns meses atrás. “O ataque de Las Vegas foi executado por um soldado do Estado Islâmico, que o levou a cabo em resposta aos chamados de mirar contra os Estados da coalizão”, informou a Amaq, em referência à aliança internacional liderada pelos EUA para combater os terroristas.

 

"Foi um ato de pura maldade”


"Estamos procurando algum tipo de significado no caos, algum tipo de luz na escuridão"

Donald Trump, presidente dos EUA



"O controle de armas é algo de que podemos falar nos próximos dias”

Sarah Huckabee Sanders, porta-voz da Casa Branca

 

Perfil


Pacato, reservado, sem ficha criminal

 

Stephen Paddock, o atirador de Las Vegas: família perplexa - Foto: Stephen Paddock, 64 anos, era um pacato contador público aposentado, considerado “um cara normal”, reservado e tranquilo, sem histórico de violência — até matar dezenas de pessoas em Las Vegas. Vivia em um agradável campo de golfe na cidade de Mesquite, em Nevada, não muito distante do palco que escolheu para o massacre.

 

Na noite de domingo, Paddock estava em um quarto do 32º andar do hotel Mandalay Bay, de onde disparou várias rajadas contra a multidão que assistia a um festival de música country. Em meio à perplexidade geral com a chacina, nem mesmo os familiares arriscavam alguma explicação. “Não temos ideia do que aconteceu. É como se um asteroide tivesse atingido nossa família”, disse o irmão Eric Paddock ao Las Vegas Review-Jornal.

 

A família não identificou nenhum tipo de inclinação pessoal, em matéria de convicções, que pudesse explicar o gesto de Paddock. “Nenhuma afiliação religiosa ou política, nada. Ele só saía para passear”, disse Eric à CBS News. “Era apenas um cara normal. Algo se rompeu nele, algo aconteceu.” Morador da Flórida, 55 anos, ele confessou que os parentes estão “em estado de choque”.

 

Os hotéis de Las Vegas, com seus cassinos e shows, faziam parte da vida do assassino, de acordo com o irmão. “Ele não era louco por armas, de modo algum”, comentou. “Onde diabos ele arrumou essas armas automáticas? Ele não tinha antecedentes militares nem nada disso”, espanta-se Eric. “Era um cara que vivia em uma casa em Mesquite, dirigia até aqui e apostava em Las Vegas. Fazia coisas. Comia burritos”, completou.

 

A polícia confirma que Paddock não tinha antecedentes criminais. Além de atuar como contador, tinha licença de piloto e permissão para caça de animais de grande porte, válida para o território do Alasca. De acordo com as informações públicas disponíveis, morava em um campo de golfe construído na pequena cidade de Mesquite, no deserto, na fronteira de Nevada com o Arizona.