Puigdemont assume mandato separatista, mas propõe suspendê-lo para dialogar

Em um aguardado comparecimento no Parlamento regional, Puigdemont assumiu o veredicto das urnas, nas quais o sim à autodeterminação venceu com mais de 90% dos votos, com participação de 43% da população desta região com 7,5 milhões de habitantes

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postado em 10/10/2017 17:07

O presidente catalão, Carles Puigdemont, assumiu nesta terça-feira (10/10), no Parlamento regional, o "mandato" do referendo para que a Catalunha seja uma "República independente", embora tenha pedido aos parlamentares catalães que suspendam "os efeitos" da independência para permitir um diálogo.



O governo espanhol de Mariano Rajoy considerou a medida uma declaração implícita de independência, após o referendo de 1º de outubro, ilegal segundo a Justiça. "Não é admissível fazer uma declaração implícita de independência para depois deixá-la em suspenso de forma explícita".

Em um aguardado comparecimento no Parlamento regional, Puigdemont assumiu o veredicto das urnas, nas quais o sim à autodeterminação venceu com mais de 90% dos votos, com participação de 43% da população desta região com 7,5 milhões de habitantes.

"Assumo, ao apresentar-lhes os resultados do referendo a todos vocês, o mandato de que a Catalunha se torne um Estado independente em forma de república", disse Puigdemont.

Ato contínuo, acrescentou: "o governo da Catalunha e eu mesmo propomos que o Parlamento suspenda os efeitos da declaração de independência, contanto que nas próximas semanas empreendamos um diálogo sem o qual não é possível chegar a uma solução acordada".

Estas são as mensagens mais fortes de um discurso de marcado tom histórico, quase todo em catalão, no qual condenou o Estado espanhol por não ter sido um interlocutor nem "no passado, nem no presente".

 

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Antes, o presidente catalão defendeu "a necessidade imperiosa de desescalar a tensão e não contribuir nem com a palavra, nem com o gesto a incrementá-la".

A sessão começou com uma hora de atraso porque houve uma discrepância no âmbito da coalizão separatista, onde convivem diferentes orientações, do conservador PdeCAT ao partido de extrema esquerda CUP.

O governo espanhol havia pedido horas antes que Puigdemont não fizesse nada "irreversível" e desistisse de agravar a crise política que a Espanha vive - a pior de sua era democrática moderna, uma demanda à qual se somaram vozes europeias.

Enquanto o presidente discursava, o Parlamento parecia uma fortaleza. A Polícia catalã fechou ao público o parque onde fica a Câmara para evitar incidentes entre unionistas e secessionistas, dias depois de as imagens de agressões policiais darem a volta ao mundo.

Cercas rodeavam as entradas do parque, dezenas de vans da Polícia estavam no local e um helicóptero sobrevoava a sede.

'Mais esperança que medo'

 

 

No exterior da área isolada, no passeio Lluís Companys - nomeado em homenagem ao último presidente catalão que declarou a independência da região -, milhares de pessoas acompanhavam seu discurso em dois telões.

"Estamos contentes, mas esperávamos mais", comentou Pere Valldeneu, um aposentado de 66 anos, ao final do discurso.

Muitos esperavam uma declaração inequívoca. "Estamos esperando que declarem a independência e sabemos que teremos que estar na rua para defendê-la", disse Marta Martínez, advogada de 50 anos, antes do discurso.

Mariano Rajoy comparecerá na quarta-feira (11/10) às 14H00 GMT (11h00 de Brasília) no Congresso dos Deputados para falar sobre a Catalunha. Sobre a mesa, o governo tem a aplicação do artigo 155 da Constituição, que prevê a suspensão do autogoverno da Catalunha, restaurado após a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), ou inclusive decretar um estado de emergência, mas o Executivo poderia optar por uma série de medidas menos alarmantes.

A vice-presidente do governo, Soraya Saénz de Santamaría, disse no Senado que "vivemos um dos momentos mais importantes e difíceis da nossa democracia", restaurada nas eleições de 1977 e com a Constituição de 1978, após a ditadura franquista.

O governo espanhol recebeu, ainda, o apoio do presidente francês, Emmanuel Macron, e do presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que pediu ao Executivo catalão que "não anuncie uma decisão que torne tal diálogo impossível".

Mas as pressões nacionais e internacionais, assim como a fuga de empresas e a incerteza econômica, influíram na decisão de Puigdemont, que reivindica uma mediação internacional para solucionar a crise.

Está em jogo o futuro de um território estratégico para a Espanha, com uma superfície similar à da Bélgica, 16% da população do país e 19% de seu Produto Interno Bruto (PIB). E Madri não vai ficar de braços cruzados.

Terceira declaração de independência em 86 anos?

 

Nos últimos 86 anos, o governo catalão proclamou em duas ocasiões a independência, sem que esta chegasse a se materializar. O primeiro a fazê-lo foi Francesc Macià em 1931, e o segundo, Lluís Companys em 1934, o que o levou para a prisão.

Diante deste horizonte, as empresas optaram por se resguardar: das sete companhias catalãs no Ibex 35, o índice referência da bolsa espanhola, seis transferiram sua sede a outras regiões da Espanha, caso dos bancos CaixaBank e Banco Sabadell e da companhia de energia Gas Natural.

"É um reflexo claro do grau máximo de preocupação" do mundo empresarial, advertiu em um comunicado a principal patronal catalã, a Fomento del Trabajo, pedindo aos separatistas para frear seus planos, que poderiam levar "à insolvência econômica".

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