Ex-guerrilheiros das Farc fazem planos para enfrentar as urnas em 2018

Mais de um mês depois de entregar as armas e fundar um partido político, ex-guerrilheiros das Farc cobram do governo de Juan Manuel Santos os compromissos assumidos nos acordos

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Raul Arboleda/AFP

Passados 40 dias da fundação, o partido político Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc) acaba de se registrar no Conselho Nacional Eleitoral (CNE) da Colômbia, selando o ingresso na sociedade civil dos ex-combatentes da maior guerrilha da conturbada história do país. Seus membros, que depuseram as armas em julho, seguem à risca o roteiro do histórico acordo de paz firmado em novembro passado, em Havana — e nem o fato de acusarem o presidente Juan Manuel Santos de não cumprir sua parte parece capaz de fazê-los mudar de rumo. Por trás desse compromisso com o fim de uma era de violência, que deixou mais de 200 mil mortes, pode estar o interesse do partido em empunhar a bandeira da paz como a principal a arma para conquistar o tão sonhado espaço no cenário político colombiano.

“Eles manterão o discurso de criticar o presidente Santos como estratégia para chegar ao poder, embora o acordo de paz tenha sido um grande avanço, pois encerrou um ciclo de 50 anos de violência e mortes”, disse ao Correio Alcides Costa Vaz, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos do Exército Brasileiro. “Eles não darão trégua ao governo na política, como não deram à época do conflito armado. Eles sempre quiseram chegar ao poder e devem fazer uma oposição ferrenha ao presidente até as eleições do ano que vem”, prevê.

Entre as cláusulas reclamadas pelo novo partido estão as que preveem o pagamento de 95% do salário mínimo nacional aos ex-combatentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, sigla mantida pela nova legenda política). Os acordos também asseguram a eles acesso aos serviços públicos de saúde e preveem a libertação de todos os guerrilheiros presos, desde que reconhecidos como tal pelo Alto Comissariado para a Paz, além da suspensão de todas as ordens de captura de ex-integrantes da guerrilha.


Impacto econômico


Para o professor Costa Vaz, a crise econômica vivida pela Colômbia pode estar na raiz da dificuldade do governo para honrar alguns compromissos, sobretudo os que envolvem políticas públicas. “São mais de 7 mil ex-guerrilheiros e as respectivas famílias, uma grande população que passou a demandar por serviços sociais. Certamente, o governo enfrenta grandes dificuldades no varejo. Mas, no todo, o acordo significou um grande avanço na pacificação interna”, acrescenta Vaz. Segundo ele, embora haja dissidentes que não aderiram ao acordo de paz e seguem na luta armada, eles não passam de 250 e, dessa forma, são desprovidos do poderio necessário para desestabilizar o processo de reconciliação.

Na semana passada, ao acompanhar o registro do novo partido no CNE, um de seus líderes, Iván Marquéz, ressaltou que a legenda será “uma força esmagadora” de transformação. “Ao nos convertermos na Força Alternativa Revolucionária do Comum, estamos entregando ao povo essa potência, essa força esmagadora, para que, com as próprias mãos, direcione a mudança”, disse Marquéz. “A guerra ficou para trás, com sua carga de dor e luto. Fechamos essa página triste e, agora, devemos nos dedicar a reconciliar a família colombiana, curando as feridas com a verdade.”


Novas estratégias 


O novo partido está definindo as estratégias para as próximas eleições, de 2018, e trabalhando na escolha de candidatos para concorrer ao Congresso. Os dirigentes não descartam a opção de apresentar um nome para as eleições presidenciais, no mesmo ano, e anunciam que vão apoiar “candidatos civis” de diferentes regiões na campanha para a Câmara dos Deputados. O presidente da legenda e ex-comandante máximo da guerrilha, Rodrigo Lodoño, também conhecido pelo nome de guerra de Timoleón Jiménez (Timochenko), critica com frequência o presidente Juan Manuel Santos, a quem acusa de descumprir importantes cláusulas do acordo de paz.

“A imensa família das Farc está inconformada e indignada”, protesta Lodoño. “Milhares de combatentes, milicianos, apoiadores clandestinos, militantes políticos, seguidores e comunidades que acreditaram de boa-fé na seriedade do Estado colombiano pedem, da nossa direção, um posicionamento enérgico”, escreveu, em carta endereçada, no fim de setembro, ao chefe de Estado. “Que se cumpra o prometido e o assinado, presidente Santos. É tempo de paz, o mundo inteiro proclama”, acrescentou, frisando que “as Farc cumpriram de maneira sagrada a deposição das armas. O que explica, então, o desinteresse oficial para honrar a palavra dada?”

"Eles não darão trégua ao governo na política, como não deram à época do conflito armado. Sempre quiseram chegar ao poder e devem fazer uma oposição ferrenha ao presidente até as eleições do ano que vem" 
Alcides Costa Vaz, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos do Exército Brasileiro



Memória

Violência endêmica
Do início do século 20 até o fim dos anos 1950, a Colômbia viveu um longo conflito entre liberais e conservadores, cujo período final, entre 1948 e 1959, ficou conhecido como “A Violência” e deixou mais de 200 mil mortos. Ao longo desse meio século, e do seguinte, de combate às guerrilhas, o pano de fundo das crises foi a desigualdade social.

Impulsionador das primeiras organizações de camponeses e operários no país, o conflito teve sua expressão mais profunda partir de 1948, com o assassinato do candidato liberal à presidência, Jorge Eliécer Gaitán, que gozava de grande popularidade.

A partir dos tumultos na capital, chamados bogotazo, explodiram violentos confrontos pelo interior do país, que se enraizaram nas zonas rurais. Em Marquetalia, um núcleo de 50 ex-guerrilheiros liberais e suas famílias, liderado pelo Partido Comunista, se estabeleceu sob o comando,dentre outros, de Manuel Marulanda. Pacificada a “Violência”, o governo do conservador Guillermo León Valencia enviou em 1964 o Exército contra o que chamou de “república independente”.

Marulanda organizou a retirada do grupo, conectou-se com ex-companheiros e fundou o Bloco Guerrilheiro do Sul. Em 1966, a organização passaria a se chamar Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

No início dos anos 1980, as Farc assumiram como objetivo a tomada do poder, e, ao fim da década, o surgimento de grupos paramilitares de direita, que combatiam a guerrilha à margem das Forças Armadas, com apoio de proprietários rurais, empresários, políticos e narcotraficantes, acirrou a violência e entrelaçou o conflito com a questão das drogas.

Em 2000, com as Farc em ascensão, os Estados Unidos começaram a prestar assistência militar e econômica ao governo de Bogotá. As Forças Armadas se modernizaram, chegaram a ter cerca de meio milhão de soldados, ao mesmo tempo em que as Farc atingiram 20 mil guerrilheiros.

Os anos seguintes assistiram a uma sucessão de episódios violentos por parte da guerrilha, dos paramilitares e das forças federais. Em 50 anos, morreram mais de 200 mil pessoas — o mesmo número de mortos dos 10 anos da “Violência”, que está na raiz da guerrilha. (JV)


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