Incêndios provocam demissão de ministra em Portugal

"Já não disponho das condições políticas e pessoais necessárias para o exercício de minhas funções", declarou a ministra

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postado em 18/10/2017 16:37

Cristina Quicler/AFP
A revolta popular aumentou em Portugal ante a incapacidade do governo de lutar eficientemente contra os incêndios florestais, que deixaram mais de cem mortos em quatro meses e provocaram, nesta quarta-feira (18/10), a demissão da ministra do Interior, encarregada de prevenir esses desastres.

O primeiro-ministro, António Costa, à frente de um Executivo socialista que governa em minoria com o apoio da esquerda radical, aceitou nesta quarta a demissão da ministra, Constança Urbano de Sousa. O nome de seu sucessor ainda não foi anunciado.

"Já não disponho das condições políticas e pessoais necessárias para o exercício de minhas funções", declarou a ministra em sua carta de demissão, citada pela imprensa local.

O primeiro-ministro reconheceu ante o Parlamento que "depois deste verão, nada pode continuar igual", e que os serviços públicos cometeram "erros graves".

Portugal sofreu neste ano os incêndios florestais mais mortais da sua história, que deixaram 64 mortos em junho perto de Pedrógão Grande e 42 mortos e 71 feridos desde domingo, segundo o último balanço da Defesa Civil.

Na terça-feira à noite, o presidente da República, o conservador Marcelo Rebelo de Sousa, pediu ao governo que "assuma todas as consequências desta tragédia".

Nas ruas de Lisboa, centenas de pessoas protestaram contra o governo, aos gritos de "vergonha" e "renúncia".

Moção de censura

Há novas manifestações previstas para o sábado em várias cidades do país, convocadas por um grupo de cidadãos que se mobilizaram nas redes sociais. Milhares de pessoas já expressaram no Facebook sua vontade de participar nos protestos de Lisboa e Porto, no norte.

Costa, que há quatro meses resistia a afastar a ministra do Interior, acabou cedendo às críticas que o acusam de ter sido incapaz de evitar uma segunda catástrofe depois da de junho.

O pequeno partido conservador CDS-PP, que pedia a saída da ministra desde segunda-feira, tinha acabado de anunciar sua intenção de apresentar uma moção de censura ao governo, cuja data ainda estava por definir.

"Se alguns duvidam da capacidade do governo, cabe ao parlamento confirmar ou não seu apoio", reagiu o chefe de Estado, aumentando a pressão.

Reação tardia

Apoiada pela principal formação da oposição, o Partido Social-democrata (centro-direita), a moção provavelmente seria rejeitada pela maioria de esquerda, composta pelo Partido Socialista e seus aliados, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista.

A oposição considera que a defesa civil, encarregada de coordenar o combate ao fogo, demorou a implementar sobre o terreno os meios necessários quando os incêndios foram declarados.

Uma comissão de especialistas independentes designada pelo parlamento revelou também uma falta de formação dos bombeiros voluntários e a vetustez de seus sistemas de comunicação. 

Em junho, a ministra optou por destacar os comportamentos negligentes da população local, considerando que nenhum dispositivo teria sido capaz de lutar contra tantos incêndios simultâneos.
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