Arábia Saudita vive disputa acirrada pelo poder

Uma disputa acirrada pelo poder entre os 10 mil integrantes da família real pode estar por trás de um inédito expurgo, que colocou na prisão mais de 200 figurões, e de um ciclo de abertura na economia petroleira e nos costumes

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Fayez Nureldine/AFP -

A Arábia Saudita vive uma sucessão de importantes transformações desde o início de 2015, quando o rei Salman assumiu o trono e abriu caminho para a meteórica ascensão do filho Mohamed bin Salman, nomeado como novo príncipe herdeiro em junho deste ano. São mudanças que, embora internas, têm repercutido mundialmente, como é o caso do interesse declarado do reino em abrir o capital da petroleira Aramco, em uma radical guinada econômica. Por outro lado, a recente prisão de mais de 200 figurões — entre príncipes, ministros e empresários, todos acusados de corrupção — altera profundamente a estrutura política e consolida o poder do príncipe herdeiro. Mas, como efeito colateral, atrai questionamentos, dentro e fora do país, sobre os verdadeiros motivos da medida.

As prisões foram anunciadas dias depois da criação de um comitê voltado para o combate à corrupção, sob o comando de Mohamed. Atingiram personagens influentes da monarquia, como o príncipe bilionário Alwaleed bin Talal, dono da empresa de investimentos Kingdom Holding, e o ex-ministro das Finanças Ibrahim al-Assaf. A forma repentina com que foram executadas chamou a atenção até de uma das principais entidades mundiais de direitos humanos, a Human Rights Watch (HRW). “Apesar de os meios de comunicação sauditas apresentarem essas medidas como uma campanha contra a corrupção, as detenções em massa sugerem que se trata de uma luta pelo poder”, avalia a entidade.

A opinião é compartilhada por Fernando Brancoli, professor de relações internacionais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ), que distingue por trás do inédito expurgo os contornos de uma aguerrida disputa política. “Na minha visão, o combate à corrupção não é a justificativa dessa medida, mas um pretexto para o príncipe herdeiro, Mohamed bin Salman, tirar do caminho muitas pessoas que poderiam fazer frente ao seu projeto de suceder o rei Salman. Afinal, a família real saudita tem mais de 10 mil membros, muitos deles interessados na sucessão”, disse o professor ao Correio. Ele também observa que “essas prisões têm sido realizadas de forma um tanto pitoresca, já que muitos detidos foram encaminhados para locais mais luxuosos que um hotel cinco estrelas”.

O especialista analisou o anúncio de uma possível abertura de capital da petroleira Aramco, por meio da venda de até 5% de suas ações na Bolsa de Nova York. Se concretizada, será a maior oferta pública inicial do mundo — suficiente, segundo o príncipe herdeiro, para elevar o valor da gigante do petróleo para US$ 2 trilhões.

Para Fernando Brancoli, essa abertura de capital tem tudo para não ocorrer, em função de uma lei aprovada pelo Congresso americano no ano passado. Ela abre caminho para as pessoas que perderam familiares no atentado de 11 de setembro processarem a Arábia Saudita por suposta vinculação do país com o terrorismo. Dos 19 suicidas que sequestraram quatro aviões e mataram mais de 3 mil pessoas, no maior atentado da história, 15 eram sauditas.

“Não acredito que a Arábia Saudita esteja disposta a correr o risco de ter os ativos auferidos com a venda de ações da Aramco bloqueados por decisões judiciais nos EUA”, disse o professor, acrescentando que, por trás do anúncio da abertura de capital, pode estar o interesse do reino em dar visibilidade a uma suposta modernização do Estado, que lhe daria fôlego na disputa geopolítica com o Irã.

O professor de relações internacionais Jorge Mortean, da universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo, considera que a rivalidade com o regime xiita de Teerã está por trás não apenas da questão envolvendo a Aramco, mas de grande parte das transformações implementadas pela monarquia sunita, incluindo medidas no terreno cultural e dos costumes. O recente decreto do rei Salman que autoriza as mulheres a dirigirem veículos, a partir de 2018, é uma delas.

“No fundo, essa modernização do Estado é para inglês ver. Não passa de uma estratégia dos sauditas para atraírem investimentos na disputa com o Irã, um país que, realmente, é bem mais moderno e tem a economia muito mais diversificada”, disse ao Correio o professor, que é mestre em estudos regionais do Oriente Médio pela Academia Diplomática do Irã. Segundo ele, enquanto no Irã, 60% do PIB está desatrelado do petróleo, na Arábia Saudita, esse índice é inferior a 30%.


“No fundo, essa modernização do Estado é para inglês ver. Não passa de uma estratégia dos sauditas para atraírem investimentos na disputa com o Irã, um país que, realmente, é bem mais moderno e tem a economia muito mais diversificada”
Jorge Mortean, professor de relações internacionais da universidade Anhembi Morumbi e mestre em estudos regionais do Oriente Médio
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