Entenda as consequências de Trump reconhecer Jerusalém a capital de Israel

O estatuto de Jerusalém é um tema-chave no conflito israelense-palestino, e ambas as partes reivindicam a cidade como sua capital. Trump anunciará, nesta quarta-feira (6/12), a decisão de reconhecer Jerusalém como capital de Israel e de levar a embaixada americana para esta cidade

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postado em 06/12/2017 09:44

Thomas Coex/AFP
 
Os países árabes e os dirigentes palestinos já advertiram o presidente de Estados Unidos, Donald Trump, sobre o risco de reconhecer Jerusalém como capital de Israel e de levar a embaixada americana para esta cidade. Mesmo assim, Trump anunciará, nesta quarta-feira (6/12), a decisão e ignorará décadas de uma diplomacia cautelosa de Washington sobre este tema sensível para o Oriente Médio e as advertências de líderes regionais.
 
 
O presidente também determinará que se prepare a transferência da embaixada americana de Tel-Aviv para Jerusalém, mas este movimento poderá exigir "alguns anos". 

Entenda o contexto e as possíveis consequências de sua decisão.

Qual é o contexto?

Jerusalém fica no centro do conflito israelense-palestino e seu status é uma das questões mais difíceis de resolver.

O plano de divisão da Palestina de 1947, então sob poder britânico, previa sua partilha em três entidades: um Estado judeu, um Estado árabe e Jerusalém como um "corpo separado" sob regime internacional especial. Este plano foi aceito pelos dirigentes sionistas, mas rejeitado pelos líderes árabes.

Após a saída dos britânicos e a primeira guerra árabe-israelense, cria-se o Estado de Israel em 1948, que faz de Jerusalém Ocidental sua capital. Jerusalém Oriental fica sob o controle da Jordânia. Israel toma e anexa Jerusalém Oriental durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Uma lei aprova em 1980 o status de Jerusalém como capital "eterna e indivisível" de Israel.

Por que Jerusalém é tão importante para israelenses e palestinos? 

Os judeus consideram Jerusalém sua capital histórica há mais de 3.000 anos por razões religiosas e políticas. O judaísmo sempre mencionou o retorno a Jerusalém. A cidade é a antiga capital do reino de Israel do rei David (século X a.C.) e mais tarde do reino judeu Asmoneu (século II a.C).

Os palestinos, que representam cerca de um terço da população da cidade, reivindicam Jerusalém como a capital de seu futuro Estado. Além do conflito, a questão tem uma dimensão religiosa essencial: a cidade abriga os principais lugares santos do cristianismo e do judaísmo, e é o terceiro lugar santo do islã.

Que decisão é esperada?

A comunidade internacional não reconhece a soberania israelense em Jerusalém e considera Jerusalém Oriental como território ocupado. Todas as embaixadas estrangeiras estão em Tel Aviv.

Em 1995, o Congresso americano adotou o "Jerusalem Embassy Act", que pede ao executivo a transferência da embaixada. "A cidade de Jerusalém é desde 1950 a capital do Estado de Israel", diz o texto.

A lei é vinculante para o governo americano, mas uma cláusula permite aos presidentes adiar sua aplicação durante seis meses em virtude de "interesses de segurança nacional".

Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama acionaram sistematicamente a cláusula a cada seis meses. Trump deverá se pronunciará sobre o assunto nesta quarta-feira. 

Que decisão será adotada por Trump?

Donald Trump se comprometeu durante sua campanha a reconhecer Jerusalém "como a capital indivisível do Estado de Israel". Seu embaixador em Israel, David Friedman, é um empenhado partidário.

Apesar de suas promessas, Trump seguiu o exemplo de seus antecessores pela primeira vez em junho, quando bloqueou a transferência. Trump foi alertado por diversas partes sobre o potencial explosivo da medida, mas também está submetido à pressão de uma parte de seu eleitorado cristão favorável a Jerusalém como capital.

Quais seriam as consequências? 

O transferência da embaixada seria interpretada como um reconhecimento de Jerusalém como capital. Se Trump adiar sua mudança, mas reconhecer Jerusalém como capital, Dan Shapiro, embaixador americano em Israel durante o governo de Barack Obama, considera que isso não terá "um efeito significativo" no funcionamento diplomático, "mas indicaria sua intenção de respeitar seu compromisso no futuro de transferir a embaixada". Para os Estados Unidos, isso significaria adotar "uma nova linguagem", declarou à AFP.

Entretanto, os analistas se perguntam como reagiriam os palestinos, as capitais e as ruas árabes. Também duvidam da capacidade dos países árabes de enfrentar Trump. O presidente da Liga Árabe, Ahmed Abul Gheit, se mostrou preocupado sobre o risco de alimentar "o fanatismo e a violência".

O movimento islâmico palestino Hamas convocou uma nova Intifada caso Trump reconheça Jerusalém como capital de Israel. O secretário-geral da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Saeb Erakat, advertiu que Estados Unidos perderiam a credibilidade em seu papel de mediador.

Uma grande parte da classe política israelense dá boas-vindas à perspectiva de um reconhecimento considerando-o como um fato histórico.
 
Com informações da Agência France-Presse
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