ENTREVISTA

"Que a verdade prevaleça", diz Pedro Simon sobre a continuação da Lava-Jato

Ex-senador afirma que o presidente Michel Temer tem a obrigação de deixar que as investigações da Lava-Jato continuem: "é a missão dele"

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 23/01/2017 06:02 / atualizado em 23/01/2017 08:22

Helio Montferre/Esp.CB/D.A Press


Porto Alegre – Dedicado a palestras pelas quais só cobra “a passagem e a hospedagem”, o eterno senador Pedro Simon, do MDB gaúcho (ele até hoje só se refere assim ao seu partido) tem uma centelha de juventude capaz de fazer inveja a muitos. A morte prematura de Teori Zavascki, a quem fez questão de ir prestar a última homenagem no sábado fez com que Simon riscasse de seu caderninho a frase “Deus é brasileiro”, mas não enterrou sua aposta na juventude e na continuidade da Lava-Jato. “A gurizada está atenta e vai para as ruas se for preciso”, diz o ex-senador. Ele garante que não há risco de a Operação que investiga a corrupção na Petrobras ser extinta. “As ruas não vão deixar a Lava-Jato parar”, acredita.

Simon fala de Renan Calheiros — que deixará a presidência da Casa em fevereiro e pleiteia assumir a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) ou a liderança do PMDB na Casa.  A CCJ já tinha um peso grande na análise das matérias importantes para o governo. E, agora, será a Comissão na qual acontecerá a sabatina do indicado para suceder Teori no Supremo Tribunal Federal. “Embora Renan seja forte, não dá. Pode até indicar alguém ligado a ele, mas se for, ficará numa situação mais delicada ainda”, afirma.

Ele também lamenta, mas lembra que não é de hoje, o fato de haver tantos senadores citados em escândalos. E dá um conselho a Michel Temer:   “O governo não pode entrar nessa. Não pode ser o toma-lá-dá-cá que o Sarney (José Sarney) iniciou no passado e que foi usado com as mãos cheias pelo PT. Não é assim que vai resolver. Se for por aí, cai o governo, caem os empresários, caem as instituições e não sobra nada. Isso é que o Michel precisa entender, ou ele termina caindo no poço”. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Correio.

Como o senhor avalia o atual momento vivido pelo país?
Não dá mais para dizer que Deus é brasileiro. A cada dia acontece uma coisa para que tenhamos menos a certeza de que Deus é brasileiro. Esse ministro, Teori Zavascki, dos quais alguns tentaram levantar dúvidas lá atrás, quando foi nomeado pela presidente Dilma, se revelou 100% íntegro, constituiu uma equipe de primeira grandeza, era dedicado, competente. Ia apresentar até 15 de fevereiro as delações da Odebrecht e, aí, acontece isso. Não podia ter acontecido! É uma tristeza muito grande. A seriedade dele era tal que, até aqueles que protestavam, reclamavam das decisões dele na época do mensalão, agora reconhecem a competência e a seriedade dele.

O senhor diz “não podia ter acontecido”. Acredita na tese de que não foi acidente?
Não tenho por que duvidar que seja acidente, mas acho muito estranho. Não sei. As redes sociais falam disso. Um sujeito lá declarou que os dados oferecidos ao piloto não eram corretos. Precisa ser investigado. O que sei é que tem muita gente contente. Fala-se em 200 políticos e empresários que teriam seus nomes nas manchetes do Brasil inteiro.

Que saída o senhor sugeriria?
O Michel está certo em não indicar um ministro para o Supremo Tribunal Federal antes de a Corte escolher o relator da Lava-Jato, até porque um novo ministro levaria muito tempo para entender tudo e chegaria em condição de inferioridade aos demais que já participam. Teria desvantagens. Tem que ser um dos que já estão lá. Uns falam na Cármen Lúcia. Seria fantástico, mas como presidir e relatar? O relator do mensalão (Joaquim Barbosa) presidiu e deu problema em relação a outros ministros. É muito delicado deixar a escolha por sorteio. O grande nome seria o do decano, Celso de Mello. A biografia dele não tem interrogação, ele não tem problemas com os demais ministros e fecharia sua carreira com o processo mais importante do país. Talvez seja o processo mais importante da história do Judiciário no Brasil. Até no Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi citada. O mundo está acompanhando. (Simon refere-se às palavras do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de que a Lava-Jato é boa para a economia brasileira).

O senhor esteve muitos anos no Senado. Como vê hoje tantos companheiros de Casa citados em atos de corrupção?
Não é de hoje. A gente já tentou tirar alguns no passado, mas não conseguiu. Tanto é que fizemos várias CPIs, até uma para investigar a Petrobras que não identificou nada. Agora, a coisa está indo e envolve gente da maior importância. Tem que haver grandeza e fazer o que somos obrigados a fazer. É uma posição de constrangimento. Veja o que houve com o líder do governo, Delcídio do Amaral (sem partido-MS). Foi um constrangimento geral, mas votaram pelo afastamento, apesar de ser uma pessoa querida. O de Goiânia (Demóstenes Torres) tinha uma imagem de honestidade. Quando se viu que tinham as coisas lá, foi afastado.

Mas agora são muitos os citados…
O fato de ser citado não quer dizer seja culpado. Mas é preciso investigar e separar os culpados. Uma hora há que se fazer a relação. Mas não acredito que o Senado irá macular a sua história e a sua constituição por causa de A, B ou de C. 

O atual presidente do Senado (senador Renan Calheiros) está citado e há quem diga que quer presidir a Comissão de Constituição e Justiça. Pode?
Ele é uma pessoa que está envolvida, isto é, teve o nome citado. Embora ele seja forte, não dá. Pode até indicar alguém ligado a ele, mas se for ele, ficará numa situação mais delicada ainda. Com toda a sinceridade, acho que ele não vai pegar. Sentirá que ficará numa posição constrangedora e não vai fazer.

Mas as pessoas hoje parecem descrentes diante de tantos citados, a morte do relator...
A situação é horrível, a morte do relator foi um trauma, mas o Brasil mudou. Só o Lula não entende que o Brasil é outro, mas ele está enganado. O processo não é contra o PT, o PMDB, o PSDB. O mundo mudou, a sociedade mudou. O país tem democracia, liberdade, imprensa livre, promete e faz apuração. Nossas instituições estão exercendo seu papel. A Polícia Federal, da qual tínhamos pavor nos tempos da ditadura, age com seriedade. O presidente da maior empreiteira do país está na cadeia, líder do governo na cadeia, governador na cadeia, ministro do Lula e da Dilma na cadeia.

Mas não há a sensação de que querem parar a Lava-Jato?
Não vão parar. Ando pelo Brasil inteiro. As ruas não vão deixar a Lava-Jato parar. No passado, eu sempre defendi que não se mudava o Brasil prendendo ladrão de galinha. Tinha que ser os de cima. Agora está acontecendo. Não tenho nenhuma dúvida de que é a semente. Se tiver que buscar mais informações, vão buscar, se tiver que prender, vão prender. A Lava-Jato não vai parar de buscar se teve uma emenda lá do senador Romero Jucá, que beneficiou uma empreiteira quanto, e quem ganhou. Felizmente, isso está sendo feito. A imprensa está séria. Não é o espírito de falar mal, de destruir. Têm-se hoje o espírito de buscar a verdade. Isso é que o nosso amigo Temer tem que entender. Esta é a missão dele: deixar que a verdade prevaleça. Itamar Franco passou por momentos semelhantes, passou e fez o Plano Real, até hoje é lembrado e reverenciado. Temer, se quiser passar para a história, tem que entender isso.

Na sua visão, o governo está muito no toma-lá-dá-cá?
O governo não pode entrar nessa. Não pode ser o toma-lá-dá-cá que o Sarney iniciou no passado e que foi usado com as  mãos cheias pelo PT. Não é assim que vai resolver. Se for por aí, cai  o governo, caem os empresários, caem as instituições e não sobra nada. Isso é que o Temer precisa entender, ou ele termina caindo no poço. Ele não vai perseguir ninguém, mas também não vai nomear. Quem está envolvido não pode ser  indicado para o governo. Quem já está lá (no governo) tem que aguardar para ver o que acontece. E assim o Brasil vai continuando.

O senhor disse que tem percorrido o país. Pensa em ser candidato?
Faço palestras para jovens e digo de mão cheia: não cobro palestra. Me dão a passagem e a hospedagem. Isso tem me permitido debater e conhecer. A gurizada está atenta. Hoje, essa gurizada para a rua se interromperem a Lava-Jato. E não são esses encapuzados  (os black blocks). Mas uma maioria interessada em buscar a verdade. Pode apostar. Janeiro foi de descanso, mas em fevereiro e março volto às palestras.

Qual o seu segredo para toda essa vitalidade aos 86 anos?
Consciência tranquila. Nunca odiei ninguém. Toda a vida foi debatendo, discutindo, denunciando. Ontem, conversava sobre isso com Tarso Genro, com quem tenho uma amizade de longo tempo. O segredo é fazer tudo com amor e dedicação. Quem tem ódio, engole ódio e prejudica mais a si do que aos seus adversários.
Comentários Os comentários não representam a opinião do jornal;
a responsabilidade é do autor da mensagem.
 
José
José - 23 de Janeiro às 22:04
Admiro as opiniões de Simon, é um homem experiente e honesto. Acho que não deveria ter deixado a política, poderia dar mais um pouco de si.