política

Taxa Selic deve subir na gestão de Meirelles, uma forma de livrar o sucessor de promover o arrocho

Vicente Nunes

Denise Rothenburg

Publicação: 11/03/2010 08:05 Atualização: 11/03/2010 08:20

Diante da certeza de que Henrique Meirelles deixará a Presidência do Banco Central no fim deste mês, o mercado financeiro ampliou ontem as apostas de que a taxa básica de juros (Selic), que está em 8,75% ao ano, subirá na reunião da próxima semana do Comitê de Política Monetária (Copom). O raciocínio dos analistas é o de que Meirelles assumirá o ônus de impor um novo arrocho à economia, livrando o seu possível sucessor, o diretor de Normas, Alexandre Tombini, de começar a elevar os juros em abril. “Com certeza, esse passou a ser o pensamento dominante no mercado”, disse o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal.

Na avaliação do economista-chefe do Banco Modal, Alexandre Póvoa, não há por que o BC adiar a decisão do aumento dos juros, se está mais do que comprovada a necessidade de a instituição agir para trazer de volta a inflação para o centro da meta definida pelo governo, de 4,5%. “Não há por que Meirelles deixar o trabalho sujo para o sucessor. Seria um desgaste desnecessário para Tombini, já que ele seria obrigado a promover um aumento mais forte dos juros. Além disso, o atraso de 45 dias (prazo para a próxima reunião do Copom) provocará ruídos indesejáveis”, acrescentou.

A mesma avaliação foi feita pela economista-chefe do Banco ING, Zeina Latif: “A inflação está em alta e não há escapatória para o BC. Então, é melhor que, antes de sair do comando do BC, Meirelles inicie o processo de aumento dos juros e sinalize que seu sucessor manterá a austeridade da política monetária, que teve papel fundamental para o Brasil sair mais rápido da crise”, assinalou. Ele afirmou ainda que não há nenhuma restrição no mercado em relação ao nome de Tombini para a sucessão no BC. “Pelo contrário, ele é visto como uma âncora de que a política monetária não mudará.”

Quanto ao sucessor de Mário Mesquita, que já avisou que deixará a Diretoria de Política Econômica assim que Meirelles sair de Presidência do BC, são grandes as dúvidas. Mesquita é o mais conservador dos integrantes do primeiro escalão do banco. Para Zeina, o melhor seria que a vaga fosse preenchida por um técnico de carreira. Ela, inclusive, não descarta o deslocamento de Carlos Hamilton para o lugar de Mesquita. Hamilton assumiu recentemente a diretoria de Assuntos Internacionais e passou a última semana sendo apresentado por Meirelles a investidores e autoridades nos Estados Unidos e na Suíça.

Missão cumprida
A decisão de Meirelles de deixar a Presidência do BC tem como base a sua visão de que a economia brasileira já retomou o crescimento econômico de forma sustentada e não haverá turbulências em caso de troca no comando da instituição. Meses atrás, quando questionado sobre o seu futuro político, Meirelles sempre ressaltava que a prioridade, naquele momento, era botar o país novamente nos trilhos depois dos estragos provocados pela crise mundial. “Felizmente, estamos em um outro momento, muito favorável”, tem dito ele dentro do governo, seguro do sucesso do BC no combate à crise.

PGR indicia presidente do BC
A Procuradoria-Geral da República (PGR) indiciou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, por crimes contra a ordem tributária. O inquérito foi protocolado no Supremo Tribunal Federal (STF) no último dia 4, mas divulgado somente ontem. A assessoria da PGR e do Supremo dizem desconhecer o teor do processo e até mesmo o suposto crime que Meirelles teria cometido. O BC ainda não foi notificado. O relator do inquérito no STF é o ministro Joaquim Barbosa.

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