O estresse entre governo e imprensa sempre existiu. E todos os governos reclamam tanto quanto o atual. Essa é a principal conclusão que se tira do trabalho de quase mil páginas, produzido pela Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco, que acabou se transformando no livro No Planalto com a imprensa — entrevistas de secretários de imprensa e porta-vozes de JK a Lula, distribuídas em dois volumes. A primeira edição, de 1.250 exemplares, será lançada oficialmente na próxima terça-feira, no Palácio do Planalto, com a presença do presidente Lula, um momento de trégua nesse período de eleições, sempre tenso entre governo e mídia. O projeto das entrevistas com os porta-vozes começou em 2006, quando o então porta-voz, André Singer, empenhado em reformular a estrutura de comunicação da Presidência, detectou a ausência de uma memória sobre esse setor considerado estratégico pelo governo. O trabalho bruto, mais de 4 mil páginas, terminou condensado em 987 páginas escritas e organizadas a quatro mãos — o próprio Singer, o diplomata Carlos Villanova, os jornalistas Mário Hélio Gomes, editor, e Jorge Duarte, autor de grande parte das entrevistas, todas feitas entre junho e agosto daquele ano. Duarte foi responsável ainda pelo breve histórico sobre a Secretaria de Imprensa desde a Proclamação da República.
A pesquisa dos autores chegou a 32 pessoas que ocuparam a secretaria de imprensa e/ou o cargo de porta-voz da Presidência, de JK até 2005. Oito já faleceram. Dos 26 que guardam a memória dos respectivos cargos, só dois não aceitaram o convite para entrevistas — o general José Maria de Toledo Camargo, que chefiou o setor em parte do governo Ernesto Geisel, em 1977 e 1978; e a jornalista Ana Tavares. Ela foi secretária de imprensa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nos oito anos de governo e ocupou o cargo com discrição. Um dado chama a atenção: “Todos os entrevistados defendem seus presidentes”, diz Villanova. Talvez o único que faça uma ressalva seja o diplomata Pedro Luís Rodrigues, porta-voz do presidente Fernando Collor, quando o governo começou a atravessar a crise que desaguou no impeachment e deixou o cargo depois de uma dura discussão, relatada no livro (leia trecho abaixo). Além dos porta-vozes e secretários, foram ouvidas outras 20 pessoas para compor um quadro do período anterior a JK, no qual os próprios autores fazem uma ressalva de que o livro não pretende ser um documento definitivo sobre o tema, mas uma forma de registrar um breve histórico da imprensa oficial. A seguir, alguns trechos das entrevistas.
Trechos
"Nas primeiras semanas, enfrentei um problema inesperado. O jornalista indicado pelo Jornal do Brasil, Abdias Silva, que conhecida desde Porto Alegre, teve sua credencial impugnada pela Segurança. Achei descabido o fato. Mesmo para os critérios do governo, não havia problema algum em matéria de segurança. A situação era não só desagradável como equivocada. Insisti e fui informado de que a restrição decorria do fato de ser amigo de Leonal Brizola…"
Carlos Fehlberg, secretário de imprensa do presidente Emiílio Garrastazu Médici
"O Riocentro foi realmente uma fratura no governo. Um divisor de águas. (…) Minha interpretação hoje é a seguinte: o Figueiredo não se sentia suficientemente seguro para interferir cirurgicamente no complexo militar que o tinha apoiado na eleição. Havia conflitos internos. O comportamento dele nos dias seguintes, 2,3, 4 de maio, foi de extrema irritação. Eu o vi quase apoplético (…) Num daqueles dias, ainda próximo ao fato, entrei no gabinete dele minutos antes das 18 horas, ele estava pronto para deixar descer para a garagem, e o encontrei sozinho na sala, andando para lá e para cá, falando aos gritos. Tinha acabado de realizar uma reunião com os ministros da casa".
Carlos Átila, porta-voz do presidente Figueiredo,
"Foi um momento muito solitário, muito emocionante, de vencer a barreira psicológica de admitir a morte e começar a trabalhar profissionalmente com ela. Comecei a escrever a nota que leria se o doutor Tancredo falecesse. Aquela nota ficou no bolso interno do paletó uns oito dias (…) A vida andou, terminou aquilo, e eu nunca tinha visto e nunca quis ver o anúncio da morte. Há dois ou três anos, estava assistindo ao filme do Cazuza, e quando vejo estou anunciando a morte"
Antonio Britto, porta-voz do presidente eleito Tancredo Neves
"Havia má vontade e preconceito. Era uma espécie de frustração porque, durante 20 anos, aquelas pessoas comateram o regime de exceção e não se conformavam com o fato de um homem, que diziam Ter sido esteio da ditadura, ser o primeiro presidente da República da abertura. Além do mais acredito que havia também o preconceito de ser do Nordeste. (…) "
Fernando Cesar Mesquita, primeiro secretário de imprensa e divulgação do governo José Sarney
"Quando embarcamos, manifestantes balançavam o ônibus, jogavam pedras. Foi meio assustador pra queme estava dentro. O presidente Sarney, sentado na primeira cadeira, deopis da porta. Ao lado, o Moreira Franco. Bayma Dennis, chefe da Casa militar, gritou: "Frota, se abaixe!. De repente, uma pessoa, com uma picaretinha, dessas de alpinista, quebrou o vidro".
Antonio Frota Neto, subsecretário de imprensa do governo Sarney sobre o episódio do ônibus apedrejado no Rio.
"Não há mídia no mundo capaz de aplacar uma situação econômica fora de controle. A crise econômica, no final do governo, com a inflação a quase 80% ao mês, foi realmente um desastre"
Toninho Drummond, subsecretário de imprensa do governo Sarney.
"Depois de 20 anos sem poder criticar, oq ue fazia a cabeça da imprensa era o seguinte: ela só se credenciaria junto aos leitores na medida em que exercesse esse novo poder de crítica de forma irrestrita, sem contemplação. Daí, que, por Ter pago o seu tributo na resistência, a impensa se colocava naquele momento com credora da redemocratização. Como se o avanço gradual do processo político fosse, dali por diante,. um problema do governo, dos políticos e só deles"
Carlos Henrique, secretário de imprensa do governo Sarney, de abril de 88 a março de 90
" Era um vale-tudo espantoso. As redações eram majoritariamente petistas e essas pessoas se sentiam derrotadas com a eleição de Collor. Havia uma grande má vontade. O Collor contrariou tantos interesses, além de agir como agiu, ensimesmado, isolando-se, que acabou rompendo a frágil ligação que tinha com os empresários de comunicação. Eles perderam a paciência porque, afinal, não conseguiam controlar o presidente, e liberaram as redações para aquele vale-tudo. Os caras não se preocupavam nem mesmo com o princípio mais elementar da checagem das informações".
Cláudio Humberto Rosa e Silva, secretário de imprensa de Fernando Collor de março de 90 a março de 92
"Eram nove hora da noite quando pude sair do Palácio. Antes de ir para a garagem, subi até a sala do presidente. E levei um choque ao ver o batalhão de funcionários que limpava gavetas, tirava quadros, fotos, computador e objetos pessoais. Color tinha dado ordens de deixar tudo pronto para que o vice assumisse na manhã seguinte".
Etevaldo Dias, secretário de imprensa de Collor nos dois últimos meses de governo
"Antonio Carlos Magalhães não gostava da presença de um inimigo político, Jutahy Magalhães Jr, no que se chamava então Ministério do Bem-Estar Social e ameaçava o governo com a divulgação de provas do que ele chamou de atos de corupção (…) o presidente convidou o senador a ir ao Palácio para trazê-las e discuti-las pessoalmente. Pouco antes da audiência, o presidente me chamou e disse: "Vá á sala de imprensa e traga aqui para cima, discretamente, os seus colegas repórteres e fotógrafos que queiram presenciar o meu encontro (com ACM)". (…) Quando ACM entrou no gabinete, surpreendeu-se ao encontrrar lá dentro uns vinte e tantos jornalistas. Nunca vi uma perda de rebolado tão evidente"
Francisco Baker, secretário de imprensa de Itamar Franco
"Fomos a um evento no Nordeste e, logo que saímos do auditório, havia uma turma de estudantes com faixas, reclamando do ensino secundário. (…) O presidente saiu do lado das autoridades, dirigiu-se a uma criança que segura um cartaz e perguntou: "Escute, vocês estão protestando contra o quê?". "Não sei, não, porque me deram dinheiro para segurar essa faixa". E o Itamar só riu. Não saiu nada no noticiário sobre isso porque apenas eu presenciei".
Fernando Costa, subsecretário que substituiu Baker no final do governo
"Para que o porta-voz tenha credibilidde, as pessoas precisam estar certas de que ele diz o que presidente pensa, senão não é porta-voz. Nunca desci para dar um briefing sem antes conversar com o presidente".
Sérgio Amaral, porta-voz do presidente Fernando Henrique Cardoso
"Ficou patente para mim que, quando você está num governo X, a imprensa, ao criticar o governo, parece estar fazendo o papel de oposição. Ela parece ter um conluio tácito, um alinaça objetiva, como diriam os marxistas, com a oposição. (…) Quando muda o governo, você vê que a mesma imprensa que criticava o governo X passa a fazer o mesmo tipo de crítica ao governo. Aí se vê que a função da imprensa é maravilhosa, é de sempre bater, criticar, apontar alguma coisa"
Georges Lamazière, segundo porta-voz do governo Fernando Henrique Cardoso
"Uma das lições mais importantes do meu período servindo na Presidência da Republica foi poder acompanhar o trabalho da Ana Tavares. Era uma verdadeira escola"
Alexandre Parolla, porta-voz de julho de 1999 a dezembro de 2002
"A principal reivindicação dos sindicatos de jornalistas e da Fenaj era o Conselho Federal de Jornalistas. O presidente, depois da audiência com a Fenaj, me disse: "É preciso tomar cuidado porque hoje a Fenaj e o sindicato já não representam mais os jornalistas como no seu tempo de sindicalista. Huve um distanciamento é preciso saber se a base apóia". (…) Ai você vê a ingenuidade: tomei a iniciativa de distribuir o texto (do projeto) no comitê de imprensa do Planalto porque ninguém tinha publicado nada. Saiu a primeira matéria na Folha: "Governo quer controlar, fiscalizar e esfolar a imprensa". Passou isso, ninguém leu, ninguém discutiu o projeto. Houve um grande erro do governo, da Fenaj, e meu, principalmente".
Ricardo Kotscho, secretário de imprensa do presidente Lula.
"Não sou daqueles que se iludem acreditando que, por exemplo, no governo Fernando Henrique só havia elogios. Não é verdade, eles criticavam também. No governo Lula, também se critica. (…) Junto com a crítica vem, talvez, o empobrecimento da cobertura no sentido de que são muito iguais. (…) Li nos jornais que o presidente Lula estava na Rússia e foi fazer uma visita de turismo. Todos fizeram a mesma matéria, todos disseram que era uma visita a um museu que era muito grande, mas que foi muito rápida. Ou seja, insinuaram que o presidente passou por lá e não viu nada. (…) É tudo parecido. Eles combinam. E acho que o combinado, o famoso, pool, é um problema de competição. O medo de que um jornal dê uma informação e outro não. Já vi jornalista combinando se a tal palavra do presidente era uma gafe ou não".
Fábio Kerche, secretário de imprensa do presidente Lula.
"Tenho um estilo de trabalho coletivo, gosto de trabalhar em equipe, de formar equipes. Era frequente chamar as pessoas da equipe para ouvi-las (…) o principal aspecto da gestão da crise (de 2005), aqui na secretaria, foi redobrar a cautela o cuidado com qualquer coisa que era comunicado".
André Singer, porta-voz do presidente Lula.
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