Em sua passagem por Brasília para cuidar de temas relativos ao novo pacto federativo e aos royalties do petróleo, o governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, aproveitou para cobrar uma posição mais pró-ativa do governo federal no sentido de resolver o impasse em torno dos royalties. “Quando há um conflito, a União deve cumprir o seu papel. Esperamos que isso ocorra”, diz ele, com ares de crítica à presidente Dilma Rousseff, considerada o alvo principal do PSDB na campanha de 2014. Anastasia, entretanto, ressalva que esse tema do pacto é suprapartidário, não fará parte dos assuntos centrais a serem abordados numa campanha presidencial do PSDB, leia-se Aécio Neves, para quem Anastasia defende uma campanha “risonha, como foi a de JK”. A seguir os principais trechos da entrevista:
O senhor acha que o Brasil finalmente está amadurecido para a realização do pacto federativo? O que leva os senhores, governadores, a acreditarem que é possível chegar a esse pacto?Para responder, vou dar um passo atrás. Sou um otimista por natureza. Durante décadas, poucas pessoas falavam na relevância da gestão pública no Brasil. Sempre foi um assunto periférico. A partir dos anos 2000, passamos a falar tanto desse assunto, que o tema entrou na agenda nacional e se tornou relevante. Com o pacto federativo é a mesma coisa. É claro que o tema da Federação tem uma natureza mais política do que técnica. E é um tema que está na raiz das questões nacionais. Lamentavelmente, depois da Constituição de 1988, esperávamos um renascimento da Federação brasileira. Houve uma grande esperança, inclusive, com a força que foi dada aos municípios com uma redistribuição entre as diversas ações governamentais. Mas a prática, a partir da Constituição de 1988, e aí não foi um governo em especial, mas todos desde então, não cuidaram de estimular a Federação. Ao contrário. Continuamos naquele caminho que tinha se iniciado na década de 1960 pelo governo militar, de centralização, e uma centralização muito danosa ao Brasil. Chegamos a um ponto, da mesma forma que na gestão pública um grande colapso administrativo levou à necessidade de mudança, também no tema da Federação chegou-se a um patamar no qual é irreversível que tenhamos uma discussão profunda e séria sobre a questão federativa.
Que ponto é esse?Estados e municípios não têm autonomia quase nenhuma. Não têm recursos financeiros. Somos todos parte de um processo de padronização muito forte. Isso num país com as dimensões e com a diversidade e as diferenças do Brasil não é bom para a sociedade. Acredito que o próprio governo federal atual, que tem o intuito correto de fazer investimentos, de fazer o desenvolvimento, vai se beneficiar também com o fortalecimento da Federação, porque poderá descentralizar como já tem feito com os investimentos. Mas é preciso fazer em outras áreas também. Hoje o que se nota na nossa estrutura é um processo de padronização e simetria federal e não é assim que funciona em federações que dão certo no mundo. Se você comparar Austrália, Canadá, Estados Unidos, Alemanha, que são federações adequadas, veremos que o quadro é diferente, porque se reconhece o poder local. Aqui, criou-se um ambiente mais pró-ativo para esse fortalecimento. Sob o ponto de vista prático, houve uma coincidência, diversos temas importantes para a Federação estão na pauta agora. Em relação ao Fundo de Participação dos Estados (FPE), o próprio Supremo Tribunal Federal determinou que fosse feito um novo critério de distribuição. O FPE encerra dentro dele a sua base de cálculo. Em 1988, era basicamente IPI e IR. De lá para cá, as contribuições sociais assumiram o lugar mais importante e não fazem parte dessa base. Outro assunto federativo é a dívida dos estados. Quando foram negociadas, o foram no aspecto de solidariedade da União com os estados. De lá para cá, as condições mudaram de modo muito agudo. A negociação que se revelou positiva no início, ficou negativa, e os estados não conseguem arcar com o serviço da dívida. Por outro lado, a concentração tributária na União limita a capacidade de investimentos e de custeio dos estados. Não adianta termos só investimentos, porque precisamos de custeio para manter o que foi investido funcionando. Tudo isso lapida o tesouro dos estados.
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Autor: Marcos Antônio Nunes
O modelo centralizador atual tende a retardar mais ainda o desenvolvimento e ampliar as disparidades regionais. Quando o país estava ampliando a sua fronteira até poderia justificar. Redistribuir os tributos a favor de estados e municípios representaria, inclusive, maior participação na gestão. | Denuncie |